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04/01/2001 Radiografia musical de Pernambuco O escritor pernambucano José Teles acaba de lançar Do frevo ao manguebeat (360 páginas, R$ 28 em média), o mais novo título da coleção Todos os Cantos, da Editora 34. Além de nos dar o que parece ser a forma definitiva de como se escreve ''manguebeat'', que volta e meia aparece como ''manguebit'' ou mesmo ''mang-bit'', entre outras variações, o (também) jornalista que já colaborou com O Pasquim e atualmente escreve sobre música no Jornal do Commércio faz uma radiografia de como soa - no próprio quintal e no restante do Brasil - a música pernambucana da década de 70 para cá. Com Chico Science estampado na capa, o livro está entre os mais vendidos de Pernambuco (perde só para dois romances de pesos pesados), mostrando a força mercadológica do movimento que injetou modernidade no regionalismo típico nordestino. José Teles tenta não chover no molhado. Ele reclama de como, para a tal cultura-oficial-e-dominante, ''parece que as coisas só acontecem no Rio e em São Paulo'', mas lembra que nos anos 70 o rock não vendia nem mesmo no Sudeste - o que provocou o aborto de vários projetos, alguns até interessantes - e que nos 90 a força do manguebeat se mostrou capaz de seduzir até mesmo quem estava nos eixos mais modernos da produção musical. Nada que a gente possa chamar de revanchismo mas, sim, de conseqüência da atualização e sintonia de caras como Chico Science e Fred Zero Quatro. ''Nos anos 70, o rock era muito marginal. E o grande problema é que além disso, tudo era muito pouco documentado. Algumas bandas não emplacaram porque, na época, o ritmo não vendia'', explica José Teles, que se dedicou à pesquisa por mais de dois anos. Apesar de ser difícil para bandas alternativas de outros estados conseguirem espaço para tocar em Pernambuco, ele não acha - e deixa isso claro ao longo do livro - que só uma placa de ''fechado'' seja a saída para valorizar a produção local. Entre o que a gente encontra no miolo do livro, estão o Naná Vasconcelos que em 1966 tocava bateria no Quarteto Yansã; vários registros do compositor Lourenço da Fonseca Barbosa, o Capiba; uma cópia do cartão distribuído pela família de Chico Science em sua missa de sétimo dia. Cenas típicas pernambucanas, que não poderiam acontecer em outro lugar, segundo Teles. ''Minas Gerais, por exemplo, é um estado rico e que pode desenvolver um circuito de música numas 15 cidades. Com Pernambuco é diferente. Por isso essa documentação é tão difícil'', compara ele, que enxerga nos festivais que acontecem no Nordeste, hoje, uma grande praga. ''Alceu Valença, por exemplo, não faz show num teatro, aqui, há uns cinco anos. Sempre que vem é para se apresentar em festivais. Em teatros, tem tempo que não o vemos. Isso deixa as pessoas desacostumadas desse tipo de coisa. O que é prejudicial'', explica, deixando claro que o livro tem um tom de reclamação/denúncia também. Mas sem ser xiita. Ele não nega, por exemplo, a importância do Abril Pro Rock, que está prestes a ganhar uma versão paulistana depois de alçar à fama - em Sampa e no Rio - nomes locais. A foto de um desses famosos, Chico Science, na capa do livro foi escolha da editora. Mas Teles aplaudiu. ''Keith Richards costumava dizer que a Inglaterra funcionava em preto e branco até que surgiu o rocknroll. Aí o país ficou colorido. Com o manguebeat é a mesma coisa em relação ao estado de Pernambuco'', compara o autor, fã de longa data dos Stones. No meio desse colorido, a única mancha desagradável que ele encontra é a pouca integração que há entre as gerações mais novas e as antigas: ''Os mais novos são muito ligados à cultura do computador. Chico Science era antenado com isso. Fez toda a diferença na hora de se formar o desenho daquela geração. Por outro lado, as rádios não tocam os músicos nordestinos mais tradicionais, de antigamente. E sem as pessoas ouvirem no rádio, fica difícil a informação ir adiante.'' (Adilson Pereira, Jornal do Brasil) |
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