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10/01/2001
Seca matou 3 milhões no último século
A seca nordestina pelos olhos
de um paulista: a história de uma tragédia cíclica que já matou mais de três milhões
de flagelados e que parece ter sido esquecida pelo seu próprio povo.
No seu último livro, Vida
e Morte no Sertão, o historiador paulista Marco Antonio Villa faz um apanhado da
seca nordestina entre os anos de 1887 e 1983. O resultado é incômodo: pelo menos 3
milhões de pessoas morreram vítimas da desnutrição, pragas ou da falta de água
potável.
Villa tem utilizado o cálculo - que ele acredita ser conservador - para
chamar a atenção para outra realidade, esta muito mais sutil. O historiador identificou
um processo de esquecimento paulatino de tudo que está relacionado ao sertanejo. É um
processo que passa pelo campo da cultura, mas que tem repercussões até mesmo na hora de
o Governo Federal liberar recursos para o combate à estiagem. Para o pesquisador,
criou-se um mito em torno de uma ``indústria da denúncia'', como se todo o recurso na
região fosse ser desviado.
O curioso é que justamente um paulista tenha de nos alertar para isso.
O POVO - O senhor fez um levantamento sobre a seca que vai de meados do século
passado até 1983. Nesse período, o Brasil experimentou diversas políticas de combate à
seca. Há algum denominador comum entre elas?
Marco Antonio Villa - É difícil de responder porque as políticas
estabelecidas foram muitas vezes obras do acaso, através da cobrança da imprensa. Não
morreram mais pessoas porque a imprensa fez uma enorme gritaria, desde 1877. Em 1970, o
ministro do Interior, Costa Cavalcante, disse assim: ``Seca? Não tem seca no Nordeste. Eu
fui a Recife e o avião quase não desceu de tanta chuva''. Sempre foi assim.
OP - Apesar da resistência inicial, o Governo Federal acaba cedendo...
MAV - Pela cobrança, o governo central faz as coisas de forma atabalhoada.
Em 1932, o relatório do diretor geral do DNOCS diz textualmente assim: ``Reunimos
centenas de milhares de flagelados em obras realizando trabalhos imaginários''. Quer
dizer, era tudo encenação. A ação do governo central sempre é de descrer das
denúncias e, só depois, enviar ajuda atrasada e em quantidade insuficiente. Quando
realiza obras, é sem projeto e não visando atender aos interesses das maiorias. Em 1909,
foi criado o Departamento Nacional de Obras Contra a Seca (DNOCS). Que agência no mundo
tem um século e não conseguiu enfrentar de forma vitoriosa o seu desafio? A grande
questão é que são agências que gastam mais pagando salários do que realizando as
obras necessárias.
OP - O mau uso ou até mesmo a falta de recursos sempre foi uma constante?
MAV - O governo Campos Sales (1898-1902), por exemplo, não enviou ajuda
nenhuma. Ao contrário, propôs despovoar o sertão. Vale lembrar que essa idéia não
surge no governo central, mas na elite cearense que, em 1877, propõe mandar o sertanejo
para Amazônia. Só depois de Vargas é que os governadores têm um pouco mais de
recursos. A maior parte das verbas entre 1945 e 1964 são mesmo das agências
governamentais, especialmente do Dnocs. Só que o dinheiro é mal aplicado. Por exemplo,
as eleições de 58 para governo do Ceará foram o maior escândalo. Usavam jipes,
material do DNOCS, a máquina do Estado para eleger à força o Percival Barroso contra o
Vírgílio Távora. E isso foi em todos os estados do Nordeste porque naquele momento
houve a junção de três coisas: eleição, DNOCS e seca. Foi nesse período em que se
popularizou a expressão ``indústria da seca'', cunhada no século XIX.
OP - No seu último livro, o senhor critica a ``indústria da denúncia" que se
criou em torno da seca. Ou seja, é como se houvesse um complô para se apropriar de
dinheiro público. O senhor não acha que há um quê de razão nesta preocupação?
MAV - É um terreno minado mesmo. De um lado, há um descaso do governo
central com a região e, de outro, há os que se locupletam com a ajuda enviada aos
flagelados. Por último, há os milhões de sertanejo morrendo de fome, e são estes que
pagam a conta. É curioso, porque quando se fala de uma obra no Nordeste, a primeira coisa
que vem na cabeça de uma pessoa politizada no Sudeste é ``vão roubar o dinheiro! Mas
quando se fala em construir Itaipu, Ponte de Niterói, Angra, Brasília, o discurso é
outro. A criação da Sudene ocorreu contra a vontade da maioria da bancada nordestina.
Isso é um absurdo, mas o que fazer? É a história! Muitos dos projetos do governo
Geisel, Projeto Sertanejo, Pólo Nordeste, segundo os relatórios de avaliação,
atingiram 10% do objetivo inicial. É um absurdo.
OP - Esses projetos eram preferencialmente de que tipo?
MAV - Eram projetos de assistência técnica aos proprietários agrícolas,
outros eram para armazenar água, outros para canais de irrigação, modernização,
financiamento. O curioso é que, segundo a análise dos projetos, quem acabou sendo
favorecido foi o grande proprietário, aquele que não precisa da ajuda do estado. A
justificativa dos técnicos é que o pequeno proprietário não conseguiu incorporar
progresso técnico e como saída eles deram dinheiro para os grandes.
OP - No Ceará, muitos açudes construídos com o dinheiro público são privados.
MAV - Isso vem desde 1977, no governo Figueiredo, quando as primeiras
frentes de trabalho foram criadas nas propriedades privadas. É um escândalo absoluto
porque, antes, havia uma frente de trabalho para construir açudes, estradas, pontes. O
governo age como um Robin Hood às avessas: tira dos pobres para dar aos ricos.
OP - O senhor já disse que mais de três milhões de pessoas morreram nas secas nos
últimos 150 anos. Como o senhor chegou a esse resultado?
MAV - Este é um número por baixo. Só na seca entre 1877 a 1879, morreram
500 mil pessoas, quase 5% da população brasileira. Essa é a estimativa mais baixa de
personagens da época, como deputados e superintendentes da Inspetoria de Obras Contra a
Seca. Muita gente morreu sem ter nascido oficialmente porque não tinha certidão. É um
genocídio. É a metade dos judeus que morreram na barbárie nazista. As pessoas se
condóem com a foto de uma criança morrendo de fome na Somália mas ninguém fica
condoído quando vê um sertanejo morrendo. Há um processo marcado por uma carga
ideológica muito forte, que diminui a tragédia no Nordeste.
OP - Em que medida as inovações tecnológicas modificaram a política de combate
à seca do governo central?
MAV - Parece que não há um sincero desejo do governo central de incentivar
pesquisas que possibilitem essas previsões (de clima). A Sudene tem espalhado uma série
de laboratórios para prever a meteorologia, mas me parece que não servem para nada. Há
condições técnicas para se enfrentar o problema, técnicos competentes, experiências
do exterior. O problema é que não há vontade política, porque isso alteraria a
estrutura da sociedade. Tem muitos que se interessam pela preservação do atraso. Isso
não é agradável dizer, mas é verdade. Tem muitos que dependem de uma população que
vive em condições sub-humanas para manter o seu poder político.
OP - Não é paradoxal que o Nordeste tenha um peso político forte, com Antônio
Carlos Magalhães (PFL-BA), José Sarney (PMDB-AP), Tasso Jereissati (PSDB-CE), Ciro Gomes
(PPS-CE), Marco Maciel(PFL-PE)?
MAV - Não sei se o Nordeste tem peso político ou se as lideranças estão
mais preocupadas com o curto prazo. Lembra muito a elite da última década do império,
que tinha um poder aparente. Hoje, temos Inocêncio Oliveira, ACM... Pode dar a impressão
de que o Nordeste tem um imenso poder. Mas se você observar, a política econômica
continua dando ênfase ao Sul e Sudeste. É como se tivéssemos reservado à política
nordestina o papel de entreter os visitantes. Eles conversam, contam piadas, mas nos
gabinetes onde são decididas as coisas, não tem lugar para eles.
OP - Como se insere, na seca, a questão das cidades médias que se transformam em
pólos regionais?
MAV - É um fenômeno recente, que envolve questões complexas como os
incentivos fiscais. Só existe guerra fiscal porque não há um planejamento econômico
efetivo visando aos interesses conjuntos das regiões. O que falta é um planejamento de
desenvolvimento industrial, e era o papel da Sudene fazer isso. Onde está a Sudene, o
Banco do Nordeste, o DNOCS?
OP - Ainda faz sentido a presença do DNOCS?
MAV - Faz, mas sobre uma nova base. Da forma como está, é a mesma coisa
existir o DNOCS ou o Departamento de Obras Interplanetárias. Ele primeiro precisa ter
recursos suficientes, e gastá-lo nas obras. E dinheiro, ele tem muito pouco. Depois, é
preciso que seja um departamento enxuto, em termos de funcionários, e que efetivamente
cumpra as funções para qual foi criado. (Erick Guimarães, Subeditor de Política, O
Povo) |
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