|
23/01/2001 O moderno: João Cabral e a lição de pintura A obra
do universal poeta pernambucano proporciona sempre novas indagações e leituras
associativas, em seus diversos aspectos, como o da sua estreita relação com a pintura,
que ele considerava `a grande arte': `... confesso que o Cubismo, para mim, é da maior
importância. Não só o cubismo como pintura, mas também como teoria artística. E
também toda a pintura abstrata construtivista' "Um poema é uma pintura com voz: uma pintura é um poema sem voz." (Provérbio Japonês, via Frederico Morais) O século 20 foi, por excelência, o século do moderno, da modernidade - embora esta já se anunciasse nas artes desde fins do 19. Baudelaire, na Paris reurbanizada de Haussmann, já proclamava: "A modernidade é o transitório, o fugitivo, o contingente, é a metade da arte, sendo a outra o eterno e o imutável." Poeta-flâneur perdido em meio à multidão da grande cidade em incessante transformação, o autor de Le Peintre et la Vie Moderne assinalava com este ensaio o marco da modernidade e anunciava a busca acelerada pelo novo que caracterizaria toda a arte do próximo século, o 20, com seus diversos movimentos coletivos de artistas e também as variadas experiências individuais de linguagem. Transitória, fugitiva, contingente... Estas as marcas da modernidade, da arte que se produziu no século 20, século de conflitos de idéias e povos que assistiu a duas guerras mundiais que devastaram particularmente a Europa e desagregaram nações; século que assistiu à marcante Revolução de 17 na Rússia, decisiva no jogo de forças geopolítico posterior; a guerras civis e coloniais localizadas; a conflitos ideológicos de toda ordem e em toda parte. A chamada arte moderna é antes de tudo arte de conflito, arte que reflete o "clima" de um mundo em constante ebulição e evolução, arte que busca o tensionamento das matérias, arte que "desequilibra" e imprime um novo ritmo, dinâmico e veloz às formas plásticas, sonoras e gráficas: "Les demoiselles d'Avignon" (o quadro é de 1907!), de Picasso, inaugura a revolução cubista e "na história da arte moderna é a primeira ação de ruptura", segundo o grande crítico italiano Giulio Argan; a "Sagração da Primavera", de Stravinski (composta em 1912), provoca e choca o público com suas alternâncias rítmicas e o politonalismo, tornando-se "um ponto de referência para todos os que procuram estabelecer a certidão de nascimento do que ainda é chamado música contemporânea", no dizer de Pierre Boulez; The Waste Land (A Terra Devastada, poema/livro publicado em 1922, mesmo ano de Ulisses, de Joyce, a revolução definitiva da prosa), de Eliot, revoluciona a poesia com sua linguagem fragmentária e repleta de citações buscando expressar a situação do mundo contemporâneo à sua volta, recém-saído das sombras da 1ª Guerra, dos seus escombros e ruínas... "O homem moderno é o personagem de Eliot" - segundo Octavio Paz. "Tudo lhe é estranho e em nada ele se reconhece". Imprescindível lembrar também as conquistas da linguagem cinematográfica, que inclusive influenciariam as outras artes: Murnau, Abel Gance, Eisenstein e a montagem ideogrâmica de Potemkin, Fritz Lang, René Clair, as imagens surreais da dupla Dali/Buñuel, etc. Do núcleo impressionista que teve em suas origens Manet, Monet, Renoir, Degas e outros, ainda em fins do século 19, saem dois grandes talentos individuais, as duas linhas de força que vão influenciar e impulsionar todo o posterior movimento moderno: Cézanne e Van Gogh. Suas obras fundamentais levam ao cubismo e ao expressionismo, às vanguardas que surgirão no início do século seguinte... Inicia-se a sucessão vertiginosa de movimentos nas artes plásticas (alguns deles com sua contraparte literária também) que impulsionam as experiências de linguagem: cubismo, futurismos (italiano, mais teórico com Marinetti e seus manifestos; e russo, mais criativo e realizado, com Maiakóvski e os construtivistas, Maliévitch entre eles), expressionismo, dada (de onde sairiam mais tarde as "releituras" pop e conceitual), surrealismo, arte concreta, etc. Cabe ressaltar também os contributos individuais de artistas pouco afeitos a movimentos e manifestos (embora tenham passado por eles, em algum momento de sua trajetória), mas com obras plásticas e também teóricas profundamente importantes, como um Paul Klee ou um Kandinsky. Mesmo o "caso" de um Duchamp - figura maior de dada - merece destaque individual, em razão de sua anti-arte extremamente pessoal, criativa e única no século 20. No Brasil periférico o marco ainda é a Semana de Arte Moderna de 22. Pouco depois da polêmica exposição de Anita Malfatti em 17 (com os Andrades, Mário e Oswald, respondendo aos ataques de Monteiro Lobato), em que a artista apresentava quadros com evidentes influências do expressionismo e do cubismo francês, surge um primeiro esforço coletivo no sentido de "atualizar" as artes por aqui. Inicia-se o nosso processo de modernidade, não só nas artes plásticas (com Malfatti, Tarsila, Di Cavalcanti, Brecheret e outros) mas também na música com Villa-Lobos e na literatura com os já citados Mário & Oswald, Manuel Bandeira, etc. "Manifestado especialmente pela arte" - segundo Mário de Andrade - "mas manchando também com violência os costumes sociais e políticos, o movimento modernista foi o prenunciador, o preparador e por muitas partes o criador de um estado de espírito nacional. A transformação do mundo, com o enfraquecimento gradativo dos grandes impérios, com a prática européia de novos ideais políticos, a rapidez dos transportes e mil e uma outras causas internacionais, bem como o desenvolvimento da consciência americana e brasileira, os progressos internos da técnica e da educação impunham a criação de um espírito novo e exigiam a reverificação e mesmo a remodelação da Inteligência nacional. Isto foi o movimento modernista, de que a Semana de Arte Moderna ficou sendo o brado coletivo". Repudiando o acadêmico e acanhado ambiente das artes plásticas nacionais naquela altura, e rompendo com o parnasianismo reinante em nossa literatura, o modernismo de 22, sob o influxo das vanguardas européias, particularmente a italiana e a francesa, abriu o caminho para o desenvolvimento de pesquisas e experiências estéticas ainda inéditas entre nós. É este novo "clima" que vai possibilitar o surgimento de obras como a de um Ismael Nery, de um Cícero Dias, de um Guignard; de um Drummond e de um Murilo Mendes. Mais tarde de um Volpi e de um João Cabral de Melo Neto. A partir de 22, entrando pelos anos 30 e 40, o roteiro da modernidade no Brasil passa também pelo teatro - dos textos pioneiros de Oswald à dramaturgia revolucionária de um Nelson Rodrigues; passa pela arquitetura, indo da "casa modernista", de Warchavchik, ao conjunto da Pampulha, de Niemeyer; passa pela atividade musical didático-teórica de um Koelreutter (responsável pela introdução do dodecafonismo entre nós); passa, finalmente, pelas incríveis "performances" e projetos utópicos de Flávio de Carvalho, muitos anos à frente do seu tempo... Uma vez instalado no Brasil, o processo de modernidade dá ensejo a diferentes projetos, grupais ou individuais, surgidos não só no eixo Rio-São Paulo (é forçoso lembrar que a primeira cidade - litorânea e cosmopolita - foi, durante a maior parte deste período, a capital oficial do país e a segunda, o que ainda é hoje: a capital econômica, sede de nosso maior parque industrial), com a concentração ali dos principais artistas e escritores, mas também em núcleos regionais (principalmente em Minas e em algumas capitais do nordeste), onde a informação nova penetraria lentamente, mesclando-se às peculiaridades locais. Manifestos variados e publicações diversas (jornais e, em geral, revistas) eram porta-vozes dessas tendências, cada qual buscando aclimatar o "espírito moderno" às suas intenções estéticas. A solidificação das conquistas de linguagem do modernismo possibilitou o surgimento de obras de peso, originais e criativas em nível internacional, na culminância de um processo não sem acidentes de percurso (avanços e recuos estéticos, muitas vezes por influência ideológica direta, previsíveis num país com a extensão do Brasil e com as desigualdades sócio-econômicas ainda existentes): as obras de Drummond, João Cabral e Guimarães Rosa; os movimentos concreto e neoconcreto nas artes plásticas e poesia; a Bossa Nova; a arquitetura de Niemeyer, particularmente a construção de Brasília - marco emblemático de todo este período. Hoje, quando já se fala em pós-moderno e as discussões já seguem noutra direção, com o questionamento mesmo do projeto moderno enquanto utopia não realizada ou realizável, não há como negar a solidez da maior parte das obras modernas, ainda não devidamente assimiladas e consumidas por um público mais amplo (o melhor exemplo seria o da música erudita contemporânea, que ainda nem começou a ser ouvida...), nem suficientemente analisadas ou desenvolvidas em suas potencialidades por novos criadores e por críticos, dentro e fora da universidade. A obra de João Cabral, um dos mais importantes poetas modernos do Brasil (já estudada profundamente por críticos como Benedito Nunes, Luiz Costa Lima, Haroldo de Campos, João Alexandre Barbosa, Antonio Carlos Secchin, etc), é uma das que proporcionam sempre novas indagações e leituras associativas, em seus diversos aspectos, como o que nos interessa aqui, qual seja, o da sua estreita relação com a pintura, que ele considerava "a grande arte": "Ficando nos modernos, eu confesso que o Cubismo, para mim, é da maior importância. Não só o cubismo como pintura, mas também como teoria artística. E também toda a pintura abstrata construtivista." (Carlos Ávila, JT) Carlos Ávila é poeta e jornalista, autor de Bissexto Sentido. Este texto foi apresentado pelo autor no "2º Seminário de Arte", realizado pela Escola Guignard de Belo Horizonte, em novembro de 2000 |
|