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08/01/2002
Mestres trazem ao Rio som, fúria e suavidade da música que arrasta o povo nas ruas repletas do Recife e Olinda MOACYR ANDRADE Mesmo a linguagem poética quase sacra de Jorge de Lima desrespeitava controles ao falar do frevo, ''violento, louco, irredutivelmente selvagem''. O frevo, numa palavra, ''possui'' - observava com argúcia o poeta, ao ver a reação das multidões nas ruas repletas do carnaval recifense. E informava que nas legiões de possuídos estavam, indistintamente, ''a massa e a gente chamada grã-fina''. Jorge de Lima falava evidentemente do frevo de rua, pura vertigem, fúria, incêndio, robustez de despachar para o chinelo, envergonhada, a mais ousada pretensão dita pauleira ou metaleira. Esse vulcão que arrasta todo mundo à sua passagem tem uma contrapartida de lirismo na cadência quase tranqüila do frevo-canção e, mais acentuada ainda, na suavidade da marcha de bloco, de natureza docemente evocativa. Não puxa Maroca - As três vertentes ocupam neste mês pré-carnavalesco o Centro Cultural Banco do Brasil, conduzidas por nomes ilustres do gênero, os maestros Duda e José Menezes, o cantor Claudionor Germano e os artistas armoriais Antúlio Madureira e Antônio Nóbrega, com a adesão das credenciais óbvias de Sivuca. A ofensiva tem precedentes em desembarques históricos. Oficial e cronologicamente, a apresentação do ritmo ao Rio se dá com o lançamento, em 1928, pela antiga gravadora Victor, de Não puxa Maroca, de Nelson Ferreira, sinônimo de frevo, e Samuel Campelo. Arrasadora foi a investida de 1934, quando Mário Reis gravou É de amargar, de Capiba, e fundou-se aqui o Misto Vassourinhas, desejado carbono da então já quase cinqüentenária agremiação pernambucana Clube Carnavalesco Misto Vassourinhas, tão famoso quanto o frevo-hino de nome semelhante, de Matias da Rocha e Joana Ramos, popularizado nacionalmente pelas incríveis variações para ele criadas nos anos 30 por Felinho, primeiro saxofonista da orquestra de Nelson Ferreira. Precisamente Nelson Ferreira protagonizou a conquista seguinte, em 1957, com o memorável Evocação, que - nas vozes do coral feminino do Batutas de São José, maior bloco de frevo de todos os tempos - tomou conta do país de ponta a ponta, a partir do sucesso no Rio de Janeiro. Tanto que Nelson fez em seguida o Evocação n° 2, de gratidão aos cariocas, no qual exaltava as figuras de Noel, Sinhô e Chico Alves, além de ''Lamartine, o grande campeão'' e Chiquinha Gonzaga. No embalo, vieram, ano a ano, os de números 3, sobre o historiador e carnavalesco pernambucano Mário Melo; 4, de louvor a Dona Santa, do maracatu, e a Vitalino, dos bonecos de barro; 5, tributo ao poeta Ascenso Ferreira; 6, uma memória do Recife de Manuel Bandeira e; 7, homenagem ao bairro central de São José, o mais folião, se se pode destacar um, do Recife. Freio a óleo - A seriação, aliás, assume ares de característica. Antônio Maria - ele e Luís Bandeira foram durante anos uma espécie de embaixadores do frevo no Rio - também produziu a sua, repassada de saudade: Recife, de 1951, que virou Frevo n° 1 do Recife, para ter prosseguimento no n° 2, de 1954, e no n° 3, de 1957. O vendaval do frevo de rua também pode reproduzir-se, como nas já mencionadas fantásticas e inesgotáveis variações do Vassourinha ou - é fácil imaginá-los - em alucinantes arabescos em torno do arrastão arrasador de frevos clássicos como Fogão, do compositor e pintor de igrejas Sérgio Lisboa, e Último dia, de Levino Ferreira, o provável terceiro nome da trindade maior, ao lado de Nelson Ferreira e Capiba. Os três estão mortos (Levino morreu em 1970, Nelson em 1976 e Capiba em 1997), assim como outros dos expoentes, a exemplo de Edgar Morais e João Santiago, mestres da marcha de bloco, cuja obra certamente será mostrada ou citada nas aulas que o CCBB oferece a partir de hoje. Os astros do curso, todos com talento e vivência equivalentes, na especialidade de cada um, são seus contemporâneos e continuadores. Sustentam a tradição e o elã do frevo, asseguram a sua perenidade, aportam-lhe contribuições. O maestro Duda, 66 anos, compositor, arranjador e regente, curtido na frevança desde a meninice, tem também formação e prática sinfônicas. É autor de uma Suíte nordestina, já ganhou concursos nacionais de arranjos, tem nome no exterior. Gosta de compor para quintetos, como vai mostrar no espetáculo o Art Metal Quinteto. Sua vocação didática mostra-o muitas vezes no Recife, neste período pré-carnaval, a reger com economia de gestos pequenos conjuntos que iniciam turistas nos segredos do frevo, em pista improvisada na parte externa da Casa da Cultura. O maestro José Menezes, 78 anos, saxofonista, clarinetista, arranjador e regente, é calejado diretor de orquestras de bailes, de estúdios e de rua. Compôs frevos definitivos, como Freio a óleo (de rua), Boneca (frevo-canção) e Ingratidão (marcha de bloco). Cupim não rói - A voz encorpada e segura de Claudionor Germano, 68 anos, é, há décadas, a própria voz do frevo. Formava com Capiba um par simbiótico: o grande compositor, muitas vezes, já produzia as músicas pensando na interpretação fiel de Claudionor. Ouvi-lo e vê-lo cantar Oh bela!, Linda flor da madrugada, Ai se eu tivesse, Os melhores dias da minha vida ou Nos cabelos de Rosinha, entre tantas outras, é ter Capiba redivivo. Antônio Nóbrega e Antúlio Madureira são multiartistas já consagrados pelas platéias brasileiras de todas as latitudes. Sua origem já os exalta: é o movimento armorial, no qual o escritor e teatrólogo Ariano Suassuna procurou reunir criadores preocupados com a preservação da cultura popular ameaçada no país periférico. Nóbrega, que já fez um espetáculo de muito êxito com título emprestado por um dos frevos de Capiba, Madeira que cupim não rói, sonha em transformar essa composição em hino da cidade do Recife, tal como a marchinha Cidade maravilhosa, de André Filho, virou hino do Rio. A madeira que cupim não rói, no caso, tratava-se do bloco carnavalesco recifense Madeiras, do bairro do Rosarinho. Mas pode ser entendida como o próprio frevo, que, segundo Capiba, numa frase em que demonstrava perfeita compreensão dos fenômenos culturais no universo globalizado, ''se fosse americano já teria dominado o mundo''. (© JB Online) O passo no palco e na fala Dia 08 Às 13h e às 18h - Homenagem a Duda Dia 09 Às 18h Palestra: O frevo, a história e a visão do
compositor e arranjador Dia 15 Às 13h e às 18h O frevo revisitado Dia 16 Às 18h Palestra: O frevo contemporâneo: as
possibilidades de experimentação Dia 22 Às 13h e às 18h Frevo e frevo-canção Dia 23 Às 18h Palestra: Vivendo do frevo Dia 29 Às 13h e às 18h Fervendo a dança do frevo Dia 30 Às 18h Palestra: A dança, o ritmo, o compasso do
frevo Com relação a este tema, saiba mais:
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