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Luiz Carlos Barreto, o poderoso chefão

24/01/2002

Luiz Carlos Barreto  (Foto: Mauri Melo)


De volta à terra natal, Luiz Carlos Barreto passou uns dias na capital cearense, semana passada, para acertar detalhes de sua exposição de fotografias, que aporta aqui em março, antes de seguir para Paris e Nova Iorque

Thaís Aragão
da Redação

   Marilyn Monroe e Marlene Dietrich pela lente do cearense Luiz Carlos Barreto. Elas e os rostos de poderosos como Perón, Guevara, Fidel, Kubitschek estarão, a partir do dia 20 de março, ao lado de imagens tiradas pelo Nordeste nas paredes do Espaço Oboé. Lá, o chefe do clã mais produtivo do cinema nacional vai expôr 74 fotografias tiradas quando trabalhou na revista O Cruzeiro, entre os anos de 1950 a 1965.

   Além da exposição Passagens, que já esteve em São Paulo e no Rio de Janeiro, o mergulho no vasto acervo rendeu a publicação de Passagem: a memória visual de Luiz Carlos Barreto, com 180 cliques. ''Agora estou preparando um segundo livro, porque vi que tinha material suficiente. Tem pessoas que escrevem as memórias. Eu mostro as memórias'', diz Barretão, como também é conhecido.

   Aos 73 anos, ele acumula referências como a ser o diretor de fotografia de Vidas secas (1963, de Nelson Pereira dos Santos), produtor do bem sucedido Dona Flor e seus dois maridos (1976, do filho Fábio Barreto) e também pai de Bruno Barreto (que dirigiu O Quatrilho, primeiro filme brasileiro indicado ao Oscar).

   Em visita a Fortaleza para os últimos acertos sobre sua exposição fotográfica, Luiz Carlos falou com exclusividade ao Vida & Arte sobre ingressos a preços populares, uma produção talvez não utópica de 250 filmes por ano e de suas novas crias, como A paixão de Jacobina, que quase teve a modelo Gisele Bündchen em seu elenco. Letícia Spiller está bom para vocês?

OP - Falando em cinema, você vem desenvolvendo produções como o Paixão de Jacobina (de Fábio Barreto) e, mais para a frente, o Caminho das nuvens (de Bruno Barreto).
LCB - Nós estamos em fase de finalização sonora, de montagem de Paixão de Jacobina. As filmagens foram em setembro, outubro, no Rio Grande do Sul, com a Letícia Spiller, o Thiago Lacerda e com um elenco grande. A Gisele (Bündchen, modelo) esteve cotada para fazer, mas no fim nós acabamos optando pela Letícia, que fez com muito brilho. O Jacobina é a história de uma mística religiosa no Sul, que mais ou menos reproduziu o fenômeno político e religioso do (profeta de Canudos, Antônio) Conselheiro, mas numa versão da colonização alemã. O filme deve ficar pronto até o mês de abril. Aí vamos preparar lançamento em festivais e lançar comercialmente pelo mês de agosto, setembro.

OP - E ele está nessa safra de filmes brasileiros que podem ser indicado ao Oscar mais uma vez?
LCB - A gente seguramente inscreverá. Na época vai haver muitos bons filmes, pelo que a gente está vendo. Vamos ver qual irá. O Oscar é a maior vitrine. Não é que isso seja um selo de qualidade de um filme. É importante o que ele representa como marketing.

OP - Depois de Central do Brasil, o público ficou meio descrente, achando que, se o Brasil não ganhasse ali, não ganharia mais tão cedo. Que projeção você faria?
LCB - Esse atual filme do Walter Salles que está concorrendo, Abril Despedaçado, tem enormes chances. Tantas quanto Central do Brasil. Já se colocou bem no Globo de Ouro (N.R. O vencedor do Globo de Ouro, na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira, foi o bósnio Terra de Ninguém. Ver matéria na página 7). Ele estará entre os cinco finalistas (do Oscar), tenho quase certeza. Tem um grande concorrente, um filme francês que todo mundo fala (O fabuloso destino de Amélie Poulain). Mas o filme do Walter está muito bem credenciado, com críticas muito boas nos Estados Unidos.

OP - O Gedic (Grupo Executivo de Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica, do qual Luiz Carlos Barreto fez parte) propõe instalar uma indústria auto- sustentável que atinja até 2006 a marca de 250 filmes por ano. Quanto se faz hoje no Brasil?
LCB - Atualmente se produz no Brasil entre 30 a 40 filmes por ano. É uma marca baixa, porque nos anos 70 a gente produziu 80, 90 filmes. Chegamos a 110. Quer dizer, não estamos propondo nada demais. O Gedic estabeleceu um plano estratégico para calçar a medida provisória que o Fernando Henrique baixou (N.R.: Sobre a Lei 8.685, que aumenta os investimentos das distribuidoras estrangeiras no cinema nacional). E essa é a conta que se fez: se chegou à conclusão de que você precisa de 250 filmes por ano, para cinema, para televisão. Depois estabelecemos metas para a exibição. O Brasil hoje tem um cinema para cada 100 mil habitantes. Temos que chegar em 2006 com um cinema para cada 30 mil, 40 mil habitantes. Ao invés de 1.600 salas que temos atualmente, temos que ter 3.200 telas. Isso não é nada demais.

OP - Há demanda?
LCB - Nos anos 70 nós já tivemos 4 mil salas.

OP - Mas o contexto econômico era diferente. Hoje nem todo mundo tem 8 reais para gastar num cinema.
LCB - Dentro do nosso plano, esse crescimento deve se dar numa outra faixa de público. Cinemas populares, para as periferias urbanas, para os meios rurais, com preços adequados para a população de baixa renda. Seriam multiplex populares para levar o cinema a ser freqüentado de novo pelo povo.

OP - E já há planos de fazer esses multiplex fora dos shoppings?
LCB - Já está em curso. Eu mesmo tenho associação com o Grupo Severiano Ribeiro, grupo inclusive cearense. Temos em andamento um projeto de instalação de mais de cem salas populares em complexos localizados no Rio de Janeiro, em Porto Alegre, Belo Horizonte, São Paulo, aqui em Fortaleza. Vamos procurar áreas populares para localizar cinemas com a mesma tecnologia de projeção de som e imagem, de alta qualidade. Só não vai ter aquele luxo aparente, dourado.

OP - Quais são so prazos?
LCB - Em 2006 nós queremos estar com esse processo todo instalado. Cinemas populares a preço popular. A entrada não poderá nunca custar mais que R$ 2,00 ou R$ 3,00. Não R$ 8,00, R$ 10,00, como está aí, que é um absurdo.

OP - Há o plano desse aumento da produção cinematográfica até 2006, mas de 1997 a 2000 a captação de recursos caiu de R$ 80 milhões para R$ 40 milhões. O que se sabia era que a nova legislação ainda não estava surtindo efeito até o ano passado. Como está a situação?
LCB - Nessa medida provisória, diversificamos as fontes de financiamento não só para a produção, como para a exibição, a distribuição, a infra estrutura técnica, a formação técnica. Porque você não pode pensar em criar uma indústria cinematográfica só pensando em produção de filmes. As fontes de recursos agora não vão ficar só dependendo da Lei do Audiovisual nem da Lei Rouanet, além dos já existentes incentivos municipais e estaduais. Criamos, através dessa medida provisória, um negócio chamado Prodecine, Programa de Desenvolvimento do Cinema, que vai ser alimentado com recursos da própria atividade. Já existem essas taxas e seus valores foram atualizados. Elas vão para um fundo que vai alimentar diferentes programas. Também foi criado um fundo de investimentos por cotas para a atividade audiovisual ao alcance dos empresários, que vão poderão comprar cotas na rede bancária e descontar no imposto de renda. Por outro lado, o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) vai criar carteiras e associações com participação em empreendimentos audiovisuais. Tudo isso para que o Brasil se torne não só um mercado consumidor, como já é, mas um grande mercado de produção.

OP - Então, no momento, não falta verba para o cinema nacional?
LCB - Isso é para agora. Em 2002 esse sistema está se instalando. Existe a Agência Nacional de Cinema (Ancine). A diretoria já está nomeada, organizando seus quadros de funcionários. Ela vai ser uma agência reguladora e fomentadora. Vai regular o mercado como faz a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) e a Agência Nacional do Petróleo. Vai manter uma fiscalização eficiente sobre o mercado para recuperar a atividade que está há anos... o Brasil virou uma espécie de terreno baldio do mercado internacional! Só a televisão a cabo no país bota aqui cerca de 278 mil horas por ano de produtos estrangeiros. E não pagam nada, nada, nada de taxas. Levam por ano 700 milhões de dólares para fora, como rendimento da exibição explorada por essas emissoras de cabo. E não geram sequer um emprego, porque são todas formatadas e transmitidas lá de fora, de Miami.

OP - E como está sendo sua experiência com o Canal Brasil?
LCB - É um canal de sociedade entre cinco produtores, dos quais sou um, e a Globosat. Fizemos uma sociedade de 50% e 50%. Só põe no ar imagens brasileiras, há três anos e meio. Um milhão e 200 mil lares estão plugados no nosso canal. Ele ainda está muito elitizado. Estamos pensando em sair da faixa do advance para a faixa mais básica.

OP - Quantos filmes já foram exibidos?
LCB - Hoje já temos cerca de mil títulos brasileiros. Os direitos são adquiridos com diferentes produtores. Aqui mesmo no Ceará, vamos começar a negociar todo o estoque do Rosemberg Cariry, que é um excepcional produtor e diretor cearense, tem muitos bons produtos. Estamos buscando produtos novos no Brasil inteiro.

OP - Por falar em Ceará, houve uma grande campanha para que o estado se tornasse um pólo produtor e atualmente os fervores esfriaram um pouco. Como você vê hoje o panorama local?
LCB - O alto e baixo da atividade cinematográfica é no Brasil inteiro. Por causa dessa instabilidade é que se criou o Grupo Executivo e essa medida provisória. Para tornar essa atividade mais permanente e auto-sustentável, é preciso dar condições de mercado. E o Ceará tem tudo para ser um grande centro de produção. E é, apesar da dificuldades. O projeto do governo Jereissati resultou em mais de 30 filmes produzidos, co-produzidos aqui. Só agora, no próximo festival do Ceará, que tem todo maio, o filme que vai abrir é cearense e o que vai fechar é cearense, do Rosemberg Cariry e do José Araújo, respectivamente. Isso mostra que o projeto está vivo. Eu, por exemplo, vou fazer Caminho das nuvens com 70% ou 80% dele rodado no Cariri. É a história de uma família cearense. A mulher, o marido e os seis filhos vão para o Rio em busca de emprego em quatro bicicletas. Devemos começar esse filme aqui em maio e junho. Marisa Leão, uma produtora do Rio, vem filmar aqui O piadista, um filme sobre a comicidade do nordestino. Logo depois, vou filmar A casa da areia, em Jericoacoara. É a história de uma senhora que viveu da sua infância até sua velhice, aos 90 anos, desenterrando a casa dela numa duna. Tomei conhecimento por uma fotografia que vi no gabinete do Augusto Pontes, quando ele era secretário da Cultura do município. Ele me contou a história daquela senhora, eu comecei a conversar e o (cineasta Waddington) Andrucha, que fez o Eu, tu, eles, se interessou muito e nós estamos agora terminando o roteiro. Há um permanente interesse pelo cinema aqui no Nordeste.

OP - E quanto à formação de pessoal cearense?
LCB - Continua. Foi reformulado, é natural. Eu tenho conversado e sentido que tem inclusive uma nova geração de pessoas bastante jovens saindo das universidades, dos cursos de comunicação e fazendo coisas que, sei, muito boas em vídeo. É preciso lembrar que, com o digital, o cinema vai ficar muito mais acessível. Fizemos um documentário de uma hora e quinze minutos chamado 2000 Nordeste. Para fazer a pesquisa de roteiro do filme Caminho das Nuvens, percorremos o Nordeste todo, entrevistando pessoas e tudo mais. E ficou um material tão rico que esse material de pesquisa virou um longa-metragem maravilhoso, feito por três pessoas e uma câmera digital. E já está passando no cinema. O sistema digital vai facilitar muito a explosão dos jovens talentos. E isso é uma coisa que o Ceará tem.
(© O POVO)


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