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Odisséia do mar maranhense chega às telas

24/01/2002

Cena de "O Dono do Mar", de Odorico Mendes, uma adaptação do romance homônimo de Sarney


Adaptação do livro "O Dono do Mar", de José Sarney, dirigida por Odorico Mendes, tem estréia prevista para abril

FREDERICO VASCONCELOS
DA REPORTAGEM LOCAL

   Neste ano de eleições, a aceitação popular da obra dos Sarney poderá ser medida nas urnas e nas bilheterias de cinema.

   Enquanto a governadora do Maranhão, Roseana Sarney, gravava a campanha eleitoral do PFL, seu pai, o senador José Sarney, conferia o copião do filme "O Dono do Mar", baseado no romance de sua autoria publicado em 1995.

   Sarney assistiu no início do mês, em São Paulo, à primeira montagem bruta, quase três horas de filmagem, e gostou da transcrição cinematográfica da saga do pescador Antão Cristório, personagem central do livro que o antropólogo Claude Lévi-Strauss considerou uma "obra monumental" e o escritor Jorge Amado definiu como "romance belo e vigoroso".

   Até o final deste mês, o filme dirigido por Odorico Mendes deverá receber efeitos eletrônicos em laboratório, como a aparição de navios fantasmas, e a trilha sonora encomendada ao maestro santista Gilberto Mendes, uma opção pela composição clássica com percussão popular maranhense.

   A produção espera fazer a primeira projeção pública do filme no final de abril, no festival de cinema de Recife. Sarney propôs exibições prévias para colher sugestões de eventuais mudanças antes da exibição nos cinemas.
Dependendo do resultado final, os produtores pretendem colocar "O Dono do Mar" no circuito de festivais (Cannes, Gramado, Toronto e Berlim) para tentar valorizar o filme com premiação, antes de programar a distribuição.

   Ainda no campo das apostas, eles imaginam que o filme romperá algumas barreiras da literatura. "Quem não leu o livro está submetido a um preconceito: só acredita que a obra é boa depois que lê", diz Fábio Gomes, 44, produtor e roteirista, ao explicar como a imagem do político Sarney ofusca o sucesso do Sarney ficcionista de "Norte das Águas", traduzido em mais de dez idiomas. "Agora, com o filme feito, a gente sabe o que tem na mão."

   Publicitário maranhense, sem experiência em cinema, produtor de comerciais de televisão, Fábio Gomes leu "O Dono do Mar" quando morava em São Paulo e imaginou colocar na tela aquela odisséia do mar do Maranhão.

   O publicitário é amigo da família Sarney e trabalhou na campanha do ex-governador Edison Lobão. "Mas Sarney ficou muito reticente", diz. Só depois de cinco meses, ao ler e aprovar o roteiro, Sarney decidiu vender os direitos autorais, por R$ 30 mil, em 1997.

   O filme foi rodado, entre julho e setembro do ano passado, em belas locações no litoral do Maranhão, como os Lençóis Maranhenses, dunas de areias brancas entremeadas com lagoas formadas pelas chuvas, e as vilas de pescadores de Mojó e Jararaí.

   As filmagens no mar foram difíceis, com os fortes ventos e as águas subindo repentinamente.

   Foi montado um tanque de efeitos especiais, com 1.200 m2 de superfície e 80 cm de profundidade, para reproduzir cenas com ondas do mar, chuvas e tormentas.

   Sarney achava que o livro não seria adaptável ao cinema. Ele acompanhou algumas filmagens no set, fez sugestões e elogiou a interpretação dos atores.
O pescador Antão Cristório, vivido pelo ator Jackson Costa, é o capitão e senhor das artes da pesca que gastou mais de três anos em busca de sua noiva, Maria Quertide (Samara Felippo), raptada por um ente fantástico que a leva para o fundo do mar.

   Para Sarney, "Quertide representa o amor inalcançável". Ele aprovou os "fantasmas" Querente (Alexandre Paternost) e Aquimundo (Odilon Wagner).
O primeiro é a reencarnação do soldado português Diogo de Seixas, que naufraga em 1589 nas costas do Maranhão. "Quando estava escrevendo a história, senti que ele estava pedindo para não morrer. Para "ressuscitá-lo", a solução foi transformá-lo em pescador", diz o autor.

   O mago Aquimundo é o senhor do tempo, que faz o relato das histórias antigas. "Mas o grande personagem do livro ainda é o mar, com seus desejos e mistérios", diz Sarney. (© Folha de S. Paulo)


Projeto captou recursos com 14 empresas

DA REPORTAGEM LOCAL

   Antes de buscar contribuições de empresas para filmar "O Dono do Mar", o produtor Fábio Gomes pediu a José Sarney uma carta de apresentação para "abrir portas".

   "A carta tinha tantos condicionantes, tantos "se" e "por acaso", que eu desisti. Ela deixaria o empresário mais à vontade para dizer não ao filme", disse Gomes.

   Ele ofereceu o projeto a 92 empresas. Conseguiu captar recursos de 14. Uma estatal e um grupo privado alegaram que não poderiam se envolver com nenhum político.

   O filme teve orçamento aprovado de R$ 5,8 milhões e obteve recursos pelas leis Rouanet e do Audiovisual.

   Quem primeiro apoiou o projeto foi o empresário e autor teatral Antônio Ermírio de Moraes. A Votorantim investiu R$ 100 mil, em maio de 99, seguida pelo grupo Jereissati (R$ 550 mil) e Meio Norte (R$ 26,2 mil).

   As estatais garantiram o grosso dos investimentos: Eletrobrás (R$ 600 mil), Furnas (R$ 400 mil), BNDES (R$ 400 mil), Petrobras (R$ 300 mil) e Banco do Nordeste (R$ 250 mil).

   Com o início das filmagens, em julho de 2001, outros grupos privados se associaram: BrasilTelecom (R$ 300 mil), grupo Claudino (R$ 200 mil), Gerdau (R$ 100 mil), Embraer (R$ 600 mil), Vale do Rio Doce (R$ 300 mil) e Alcoa (R$ 600 mil).

   O governo do Maranhão emprestou o helicóptero da polícia para gravações durante quatro dias (facilidade que, segundo Gomes, tem sido oferecida para outros filmes feitos no Estado).

   Também correram por conta do governo estadual as despesas de viagem e hospedagem de jornalistas convidados pela produção do filme e que visitaram pontos turísticos do Estado. A Vasp ofereceu passagens ao elenco e à equipe de filmagem. (FV) (© Folha de S. Paulo)


Senador se emociona com adaptação

DA REPORTAGEM LOCAL

   José Sarney diz que ficou emocionado ao assistir à primeira exibição do copião -imagens sem som. Leia a seguir. (FV)

Folha - Qual é sua avaliação, após ver o copião de "O Dono do Mar"?
José Sarney -
Gostei bastante. O filme está muito bem feito. Conseguiram captar o clima em que se desenvolve a história. Em alguns momentos, fiquei emocionado. Eles foram muito felizes na escolha dos cenários: as praias, o mar, as ruas do Maranhão.

Folha - O sr. tinha receio de entregar o livro para uma adaptação?
Sarney -
Não era receio. Eu achava que não seria fácil colocar a história num filme. Mas conseguiram manter a fidelidade à história. Eu tinha medo de deformações. Mas, quando vi o roteiro, achei que estava bem feito.

Folha - Acha que o longa vai torná-lo mais conhecido como autor?
Sarney -
Uma sensação que tive é que a gente vê o filme como uma terceira pessoa. Embora você conheça a história e ele [o livro" seja seu "filho", é outra coisa. Não é linguagem literária. É diferente...

Folha - O sr. acha que o filme vai repetir o sucesso do livro?
Sarney -
Não sei. Até porque o filme já não é meu, é deles [risos". Vendi os direitos autorais, mas claro que a gente não se desliga.

Folha - O sr. interferiu muito, com sugestões, na produção do filme?
Sarney -
Não. Acho que interferi pouco. Acho até que deveria ter interferido mais [risos".

Folha - O fato de o filme ser baseado numa obra com seu nome ajudou a levantar recursos?
Sarney -
Acho que não ajudou. Tanto que o filme levou cinco anos para ser feito. Eu acho que aí [o nome" até atrapalha [risos".

Folha - O sr. tem tido o cuidado de preservar a imagem de sua filha, Roseana. Neste ano eleitoral, como o sr. pretende conciliar a atuação política e sua produção literária?
Sarney -
Eu me preparava para me desvencilhar dessas preocupações políticas. Com a colocação de Roseana [como presidenciável do PFL], meus planos foram revistos. Mas não pretendo abandonar esse caminho. Até porque minha confiança nela é tão grande que acho que não precisa de mim, embora não possa me desligar das preocupações de uma campanha. (
© Folha de S. Paulo)


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