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O mundo de Sinhá D'Amora

24/01/2002

 "Sinhá das Artes": encontro com a memória em Fortaleza (Foto: Felipe Abud)

O Memorial Sinhá d'Amora, idealizado pela Fundação de Cultura, Esporte e Turismo (Funcet), é o pretexto para uma conversa com a dona da sala. Em Fortaleza para a inauguração do espaço, Sinhá d'Amora revisita seus 95 anos e antecipa, por viva voz, o encontro com a memória que ficará exposta, permanentemente, no Centro de Referência do Professor

Ana Mary Cavalcante
da Redação


   Tivesse convivido com ela, o escritor cearense José de Alencar (1829-1877) a transformaria numa de suas mulheres singulares. O contexto que a cercou, desde menina, seria pano de fundo. Ela é filha de Lavras da Mangabeira (423 quilômetros de Fortaleza), nascida em 1º de setembro de 1906. Numa época em que era feita a vontade dos pais e o juiz da terra intermediava o casamento. Numa época de amor à primeira vista - e eterno - com poeta parnasiano.

   ''Havia apenas aquela missa de domingo. Os rapazes ficavam nos corredores, e a gente no meio da igreja. Eles ficavam namorando o perfil da moça'', rememora a personagem central da conversa. A família daquele tempo tinha que gerar um padre, um médico e um casamento. Mas aquela menina, diferente, queria estudar. O destino atendeu-lhe o capricho: formou-lhe par com um intelectual que a matriculou na Escola Nacional de Belas Artes. Assim, nasceu Sinhá d'Amora.

   Ela correu o mundo das artes plásticas. A pintura, fiel à academia e ao Nordeste, fez a ponte Brasil-Europa. Sinhá d'Amora embriagou-se em Paris - de cultura e saudade. O pensamento não saía (e não sai) do aconchego dos pais, em Olho d'Água (município de Lavras da Mangabeira). É que, no sítio, a menina fazia casinhas de palha e abrigava um mundo próprio. ''Era felicíssima''.

   Viúva, Sinhá d'Amora está sozinha no Rio de Janeiro. Mora no Leme, décimo andar, a vida passando entre a vista da praia e as imagens dos quadros frescos no atelier. Espera a sua hora. A passagem de ida para perto de seu amor único. Antes de dar por encerrada sua missão, veio a Fortaleza abrir o Memorial Sinhá d'Amora - sala de lembranças arrumada pela Funcet no Centro de Referência do Professor. Esse foi o pretexto para uma conversa que revisita seu tempo de vida.

   No batismo, recebeu o nome da avó paterna, Fideralina, e uma herança de coragem. Mais o amparo de Deus, caminha para os 96 anos. Sinhá d'Amora, codinome feito da mãe (dona Sinhá, no Interior) e do marido (conhecido Amora Maciel), poderia também ser personagem feminina de Rachel de Queiroz.


OP - Uma curiosidade para puxar o começo da vida: de quem veio o nome Fideralina?
Sinhá d'Amora - Ah, isso é muito importante! Veio da minha avó paterna, uma grande mulher, política respeitadíssima: Fideralina Augusta Correia Lima. Essa força que tenho é herança dela, num sabe?

OP - Há histórias de cangaço na biografia dela, não é?
SA - Ela era mulher de cangaço, mas de muito prestígio. Esses presidentes daqui iam procurá-la. Uma vez, ela disse ao doutor João Tomé de Sabóia (governador do Ceará entre 1916 e 1920): ''Essa terra só melhora no dia que o trem entrar e matar todo mundo!'. Ela tinha essa fibra. E eu sou muito forte, mas dentro de outro sentimento; adoro livros, adoro tudo que seja espírito - política não me interessa.

OP - Sua infância foi no Interior, entre nove irmãos. Conte um pouco sua meninice...
SA - Eu fazia casinhas (de palha), criava uma família: tinha marido, mulher, filhos.

OP - E sobre a mocidade daquele tempo e daquela região?
SA - Havia apenas aquela missa de domingo. Os rapazes ficavam nos corredores, e a gente no meio da igreja. Eles ficavam namorando o perfil da moça - porque quem era que se encostava no namorado naquele tempo? A vida em Lavras foi essa.

OP - O que lhe fazia feliz?
SA - Era construir uma casa e lá criar um mundo. E fui muito amada pelos meus pais, muito valorizada, aquilo me envaidecia. Tinha vaidade de acharem que eu era inteligente; pequena, mas ficava vaidosa.

OP - Quais eram os assuntos da época? A senhora estudava no Crato, não era?
SA - Não, alguns jornais estão dando que eu estudava no Crato. Estudei em Fortaleza, no Colégio das Dorotéias. No Crato, fundei o Museu de Arte. Minha obra que está no Crato é muito bonita, modéstia à parte, porque é toda em torno de trabalhadores. Modéstia à parte, é digna de respeito.

OP - E do colégio, que lembranças tem? Colégio de freiras é espaço para a imaginação...
SA - Sabe de uma coisa? No Colégio das Dorotéias - não só do Brasil, como da Itália - as freiras não são o que a gente pensa: meigas, bondosas. Eu via o que aquelas freiras cultas faziam com as menos instruídas... Agora, na minha família, teve muito padre. Irmãos de mamãe, foram três; meu irmão e primos, uma quantidade. Naquela época, a mentalidade do Nordeste era: toda família tinha que ter um padre e um médico.

OP - E as mulheres eram para casar.
SA - Exatamente. Agora, você sabe que eu nunca namorei? Eu estava em Fortaleza, numas férias do colégio, e fui me despedir de uma amiga. Lá apareceu esse rapaz, meu marido. Ele veio do Rio de Janeiro, o pai tinha falecido. Aí, ele me perguntou: ''Senhorinha, de onde você é?'. ''Sou de Lavras da Mangabeira''. Pois ele ficou naquela impressão, foi a Lavras, se hospedou na casa do juiz e foram me pedir em casamento! Amor à primeira vista! Era um escritor, Amora Maciel, mais velho do que eu 14 anos.

OP - E já tinha namorado bastante...
SA - Ah, devia ter namorado muito. Mas eu não e nem ele namorou comigo. Houve uma coisa engraçada: papai disse, ''Eu dou minha filha ao senhor, está dada a mão dela. Mas, moço, ela está muito nova para se casar. Dezessete anos é muito pouca idade, a mulher está pouco amadurecida, o senhor espere''. E eu só me casei dez anos depois (a data do casamento, na verdade, foi 1º de setembro de 1924), ele esperou. Foi um casamento muito feliz, sabe? Porque ele era um intelectual, nós combinávamos... Ele dizia: ''Não vamos ter filhos. Eu sou um homem muito nervoso e você estuda arte... Vou lhe matricular na Escola Nacional de Belas Artes''.

OP - O que a senhora achou do pedido de casamento, já que nem tinha namorado...
SA - Dada a maneira do papai nos criar, era a vontade deles.

OP - A senhora era obediente?
SA - Ah, sim! Eu disse: ''Tá bem, vou me casar''. O juiz disse: ''O doutor Amora Maciel é funcionário do Tribunal de Contas da União e é um escritor''. Aí, o papai disse: ''Diante das informações do juiz da terra, não posso negar a mão da minha filha''.

OP - A senhora diz que formava um ''casal moderno''. O que havia de moderno na relação?
SA - O moderno que eu digo é dar essa liberdade. Porque há maridos que privam a esposa dentro de casa, é um negócio de um ciúme tolo... Eu estudava, tinha o meu convívio, fazia uma vida intelectual e ele fazia outra. Na minha época de criança, era a vontade dos pais.

OP - E o que a senhora pensava em ser quando crescesse?
SA - Pois é, quando fui pedida em casamento, minha cabeça girou. ''Puxa, vou me casar com um intelectual, então, agora vou para a cidade grande!'. Pulei de Lavras da Mangabeira, dois anos em Fortaleza e o resto no Rio de Janeiro.

OP - Mas a mulher, naquele tempo...
SA - Mulher naquele tempo não mandava nada!

OP - A senhora furou o cerco.
SA - Furei! Porque sempre tive a minha vontade. Meu desejo era estudar, desde pequenina. Lá no sítio, tinha o candeeirozinho a querosene, eu ficava a noite rabiscando papel. Porque queria aprender a escrever e não me ensinavam. Tinha a escola primária, mas era só o bê-á-bá. O casamento foi a abertura da minha vida.

OP - Mesmo realizada no Rio de Janeiro, a senhora não deixou, de todo, o Nordeste...
SA - Sempre mandei (obras) para o Salão de Abril. Estudando, concorria no salão do Rio de Janeiro, no paulista e mandava pro Ceará. De modo que, agora, essas homenagens, acho que são demasiadas.

OP - Os artistas plásticos locais se queixam do Salão de Abril pela falta de organização, de respeito às obras...
SA - Não acho. Acho até o Salão de Abril perseverante... Porque o Salão Nacional do Rio de Janeiro acabou. Já assisti a mais de um Salão de Abril, aqui... A criatividade dos artistas novos de Fortaleza é admirável. Numa época dessa, materialista; com esses seqüestros que inventaram, acabou foi o mundo, não se fala em outra coisa... Acho Fortaleza muito mimosa, gosto muito daqui. Vou lhe dizer: moro no Rio de Janeiro e vou morrer lá porque lá está sepultado o meu marido. Quero ficar perto dele e não quero tirar os ossinhos dele de lá.

OP - Morando no Rio de Janeiro, como faz para lembrar o Nordeste? O que permanece do Interior cearense na sua rotina?
SA - Primeiro, a família, que está aqui, a gente não esquece. E, segundo, é um amor intuitivo, a gente tem gosto de dizer: ''Sou cearense''. Fortaleza é uma cidade original, aqui tem coisas que o Rio de Janeiro não tem.

OP - Por exemplo...
SA - No Rio de Janeiro, o povo vive na praia; hoje, ninguém abre um livro. Ao passo que, aqui, em toda casa tem livros, documentos. Acho o Rio de Janeiro, hoje, muito diferente.

OP - O que mudou nesse tempo da sua vivência? Que tipo de leitura ainda gosta, como mantém sua intelectualidade?
SA - De lado da minha cabeceira tem uma estante toda de livros de poesias. Nunca eu deixo de ter um livro de um poeta ao meu lado. Adoro poesia.

OP - De amor?
SA - De amor! Porque poesia é amor, né?

OP - Numa entrevista, a senhora declarou: ''Acho a vida linda, não gostaria de ter que partir''. Qual a principal saudade que tem da beleza que viveu?
SA - É da minha vivência da casa dos meus pais. Embora não tivesse essa liberdade de fazer nada, mas eu, como disse, criava umas casinhas... Tenho saudade da vida dos meus pais. Agora, tenho muita saudade dessa minha primeira viagem que fiz a Paris... Eu comprava uma garrafa de vinho, me sentava na beira do (rio) Sena, começava a beber e a chorar. Eu me perguntava: aqui não é a minha terra, por que estou com essa saudade? É a vida intelectual de Paris... Em Paris, você sai pelas avenidas e não precisa nem ter livros, aquilo é uma lição. Se eu não tivesse 95 anos feitos, marchando pra 96, ainda ia por lá, sabe? Mas tenho que respeitar a idade, né?

OP - E quantos anos mais quer permanecer por aqui?
SA - Tenho dito: inaugurando esse memorial, vendo todos os meus prêmios colocados - espero que o povo cearense sempre veja e sempre me lembre... De modo que acho que está terminada a minha missão.

OP - A senhora tem uma vantagem: é artista e artista fica para sempre...
SA - Nessa idade, tomo o táxi na porta, vou para o aeroporto sozinha, a moça me traz uma cadeirinha, me deixa dentro do avião. Não tenho receio de nada. Mas eu digo: ''Vou respeitar essa idade porque, de repente, chega a minha hora''. Você perguntou, acho que já quero ir pra lá, perto dele.

OP - Ah, eu sabia que tinha o seu Amora nessa vontade...
SA - É... (risos).
(© O Povo)


Memorial d'Amora

A sala ainda está em desalinho, mas a Funcet programa a inauguração do Memorial Sinhá d'Amora para o próximo dia

   Três cabeças, uma sentença. ''A idéia do memorial surgiu de uma conversa entre o Cláudio Pereira (ex-presidente da antiga Fundação Cultural de Fortaleza), eu e o João Jorge (arquiteto e artista plástico). Nós estávamos no Estoril, uma vez, falando sobre as artes plásticas, a idade dela (Sinhá d'Amora), a repercussão do trabalho dela. Era o tempo em que se falava da inauguração do Centro de Referência do Professor'', reconstitui Barros Pinho, presidente da Fundação de Cultura, Esporte e Turismo.

   Uniu-se o útil ao agradável. No mesmo espaço do antigo Mercado Central - reestruturado e reaberto no dia 26/10/2000 como Centro de Referência do Professor -, Sinhá d'Amora terá um lugar para guardar suas memórias. E em boa companhia: o Memorial Sinhá d'Amora ocupa uma sala em frente à Galeria Antônio Bandeira. Aberta à visitação a partir do dia 04 de fevereiro, como programa Barros Pinho, a sala expõe objetos pessoais (cavaletes, tapetes e um sofá colonial do atelier da pintora) e os mimos oficiais recebidos ao longo de 70 anos de artes plásticas (medalhas e troféus, somando quase 200 peças).

   Sinhá d'Amora ofereceu ainda 12 telas ao memorial. Os quadros resumem as fases da carreira, principiada no Rio de Janeiro dos anos 20. Matriculada, após o casamento, na Escola Nacional de Belas Artes, era das melhores alunas de Marques Júnior, Georgina de Albuquerque e Carlos Chambelland. Tão boa que logo ganhou - ''por sucesso próprio'', como ressalta - uma viagem à Europa e uma vaga na Escola de Belas Artes de Florença, sala do professor Giovanne Vagnetti.

   Para aonde ia, levava o Nordeste em cores e cenas. Passou pelo estilo figurativo, pintou natureza morta, gente e paisagens. Modéstia à parte, nas suas palavras, chegou a uma escola peculiar: ''figurativo geometrizado. As figuras surgem, porém de maneira já destruída'', explicou certa vez. Em resumo, dito noutra conversa, ''como pintora, o que sempre me preocupou foi construir bem o meu assunto e não fugir à minha verdade. Sempre pintei a vida, e acredito que meus quadros sejam como eu - tranqüilos''.
(© O Povo)


 


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