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03/01/2003
Silvério Pessoa aposta na contaminação
pelo seu frevo cibernéticoSilvio Essinger
Dos estilos musicais brasileiros, o frevo é
dos poucos que se sabe exatamente onde e como nasceu: em Recife, como expressão musical
da folia carnavalesca. Quem ouve não fica parado, contaminado pela animação dos metais
em brasa e a polirritmia. É como uma boa epidemia, acredita o cantor e compositor
Silvério Pessoa, nascido há 40 anos em Carpina, norte de Pernambuco, em plena Zona da
Mata. Ex-vocalista da banda Cascabulho (um dos grandes nomes da cena de fusões
pop-música de raiz de Recife, que ficou órfã em 1997 com a morte de Chico Science), ele
revisita e recria o estilo musical por excelência da folia recifense em Batidas
urbanas - Projeto micróbio do frevo, seu segundo disco solo, que está sendo lançado
de forma independente, com ajuda da lei estadual de incentivo cultural.
- Hoje em dia, o forró
transcendeu as festas juninas. Queria que o frevo fizesse o mesmo caminho - diz.
Ambientado no corredor da
folia noturna, na Avenida dos Guararapes, o disco de Silvério marca o fim de uma trilogia
dedicada ao cantor Jackson do Pandeiro (1919-1982), dínamo da música nordestina (ao lado
de Luiz Gonzaga) e um dos músicos mais populares do Brasil, com seu repertório de cocos,
xotes, baiões e frevos, com os quais se sagrou como estrela de vários carnavais.
Silvério foi apresentado à faceta (hoje quase esquecida) frevística de Jackson pelo
colecionador José Manuel de Lemos Pereira. O cantor ficou surpreso ao decobrir que os
arranjos dos frevos eram feitos por gigantes como Pixinguinha, Severino Araújo, Clóvis
Pereira e Pachequinho.
- Depois do Jackson forró
(de Fome dá dor de cabeça, disco de estréia do Cascabulho, de 1998), fui ao
Jackson coco (de Bate o mancá, o povo dos canaviais, primeiro solo, de 2000),
agora o Jackson frevo - explica Silvério, que, para fazer o disco, buscou uma nova
geração de músicos de frevo, cheia de referências de música negra americana e
jamaicana. Com vara curta, ele foi mexendo na tradição de Jackson, Capiba, Nelson
Ferreira, Claudionor Germano e Expedito Baratcho.
- Não quis provocar uma
ruptura com a tradição, apenas reescrever o frevo com instrumentos e sonoridades atuais
- explica.
Assim, no Micróbio do
frevo, Silvério reuniu a nata da nova música de Recife, como os grupos Via Sat (que
junta frevo e drum'n'bass) em Tô com a macaca, Faces do Subúrbio (no Elaboração
frevo, espécie de fusão do estilo com o rap e a embolada), o eletrônico Re:combo
(em Tá como o diabo gosta) e a cantora Mônica Feijó (Balanço do frevo),
além de China (ex-Sheik Tosado, banda de frevo punk) e Canibal (do Devotos) em Frevo
do bi. Junto, vem ainda o Eddie, da música Quando a maré encher (gravada por
Cássia Eller no seu derradeiro Acústico MTV), dando novo balanço a Minha
marcação (de Jackson, Alventino Cavalcanti e Ulisses Silva).
- É toda uma moçada que
desenvolve um discurso a partir do frevo - diz Silvério.
(© JB Online)
| Mais um legítimo produto
recifense |
| 'Micróbio'
foi todo gravado na cidade
Mas nem só de novos talentos pernambucanos
é feito o Micróbio do frevo de Silvério Pessoa. A tradição marca presença na
participação da mulher de Jackson do Pandeiro, a cantora Almira Castilho (que há 30
anos não entrava num estúdio) na música Papel crepom (''Mandei fazer para você
Maria/ Uma fantasia de papel crepom/ Mas pra você poder sair na rua/ Tem que a previsão
dizer que o tempo é bom''), uma parceria dela com o finado ator Paulo Gracindo.
Para obter todas as
condições técnicas que desejava para o seu Micróbio, Silvério não precisou
sair de Recife: o disco foi gravado no novíssimo estúdio Fábrica, montado por músicos
egressos de bandas novas, como o Jorge Cabeleira. Foi lá, por sinal, que o internacional
percussionista Naná Vasconcelos gravou seu recente e ótimo disco Minha lôa.
Naná também marca presença no disco de Silvério tocando cuíca no frevo Me dá um
cheirinho (''Me dá um lenço mandarim/ Bote um pouquinho desse cheirinho pra mim/
Bote, bote, bote mais um bocadinho/ Com esse cheiro eu vou pro céu devagarinho''), de
Sebastião Lopes, tornado ainda mais alucinógeno pelas contaminações de dub.
Aplaudido ano passado no Rio
com o show do disco anterior, Bate o mancá, Silvério tão cedo não deve trazer o
Micróbio do frevo à cidade. O problema, é o de sempre: a falta de recursos,
ainda mais nessa fase totalmente independente.
- O mercado não comporta eu
sair por aí com 13 músicos - diz ele, que inicialmente apresenta o show apenas em
Pernambuco e São Paulo.
Entre os planos do músico,
está o de levar o Micróbio ao exterior, especialmente Estados Unidos e Europa,
onde teve boas incursões com o Cascabulho (banda que segue na ativa e ano passado lançou
seu segundo disco, É caco de vidro puro).
Fechada a trilogia
fonográfica de Jackson do Pandeiro, uma nova missão aguarda Silvério Pessoa.
- Agora posso me jogar na
subjetividade de um disco com composições próprias - diz ele, que pretende chamar o
álbum (que vai ser duplo) de Cidades, cantorias e novenas. Planejado somente para
2004, o novo trabalho marcará sua volta à música do sertão pernambucano, com muitas
cordas. Mas, por enquanto, a batalha é pelo frevo, um estilo que Silvério considera
muito menos valorizado do que deveria no cenário da MPB.
- O contágio só não
acontece porque a rádio não permite - acusa.
Batidas urbanas - Projeto
micróbio do frevo. Silvério Pessoa. Independente. Vendas na Casa da Farinha Produções,
pelo telefone 0 xx 81 3269 1325
(© JB Online) |
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Com relação a este tema, saiba mais
(arquivo NordesteWeb)
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