José Meirelles Passos
Correspondente
WASHINGTON. A polêmica causada pela
nomeação de Gilberto Gil para ministro da Cultura chegou, em grande estilo, às páginas
do influente The New York Times, numa longa reportagem que começa na capa do
caderno de Artes e termina na quinta página. É como se Bob Marley tivesse sido
nomeado ministro da Cultura da Jamaica ou Bruce Springsteen posto no comando da Fundação
Nacional de Artes dos Estados Unidos, diz o primeiro parágrafo do texto, sob o
título Um show governamental para um pop star brasileiro.
Depois de resumir recentes queixas e protestos públicos pela nomeação,
feitos por personalidades do setor artístico como o cineasta João Batista de
Andrade e o diretor de teatro Augusto Boal e até de Frei Betto, um dos
conselheiros mais íntimos do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, o
Times sugere que Gil poderia estar sendo também vítima de preconceito
regional com um certo grau de sentido racial, por ser da Bahia e negro.
Brasil tende a considerar baianos indolentes
O jornal afirma que alguns brasileiros tendem a considerar pessoas
daquele estado nordestino como desorganizadas e indolentes. E exemplificou dizendo
que uma canção chamada Rap cultural, que vem circulando na internet, debocha
da vida boêmia dos músicos e sugere que falta a Gil a disposição para trabalhar
um dia inteiro.
Depois de registrar a resposta do cantor e compositor Sou uma
pessoa tolerante, que não se ofende facilmente o Times diz que
ele já deu sinais de que pretende se reunir o mais brevemente possível com os seus
críticos. Nesse ponto, porém, a reportagem adverte: Mas se eles estão esperando
que ele endosse os seus planos de que o Estado faça uma intervenção maior e mais direta
em assuntos culturais, provavelmente haverá desacordos adicionais mais à frente.
O próprio Gil afirmou ao jornal: Nós temos de nos libertar um pouco
da idéia de que a responsabilidade do ministério da Cultura é a de produzir cultura.
Acho que isso não é assim. Penso que o papel do ministério é criar as condições para
que a cultura possa ser feita e melhorada e funcionar como uma ponte entre aqueles que
fazem cultura e os que a consomem.
A reportagem, que mostra quatro fotos de Gil em duas delas ao lado de
Lula menciona suas origens tropicalistas, a prisão no Brasil e o exílio em
Londres, junto com Caetano Veloso, enxotados pela ditadura militar, e diz que ambos
também alienaram a esquerda brasileira.
Cantor teria decepcionado esquerda por causa do rock
Isso aconteceu, segundo o jornal, em grande parte porque eles
abraçaram com entusiasmo o rocknroll americano e britânico numa época em
que os marxistas dogmáticos em toda a América Latina estavam condenando a cultura pop em
qualquer forma como uma manifestação insidiosa do imperialismo americano.
Segundo o jornal, é bem provável que a polêmica criada pela nomeação de
Gil seja causada parcialmente pelo fato de que tal fratura jamais tenha sido curada,
e que até hoje a esquerda ortodoxa brasileira suspeite de Gil e de sua atenção ao
pan-africanismo e à ecologia.
(© O Globo On Line)