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Gil, o Bob Marley brasileiro no ‘New York Times’

03/01/2003

O ministro da Cultura, Gilberto Gil, recebe o cumprimento do senador baiano Antônio Carlos Magalhães, na cerimônia de transmissão de cargo no Ministério da Cultura. Celso Júnior/AE

 

José Meirelles Passos
Correspondente

   WASHINGTON. A polêmica causada pela nomeação de Gilberto Gil para ministro da Cultura chegou, em grande estilo, às páginas do influente “The New York Times”, numa longa reportagem que começa na capa do caderno de Artes e termina na quinta página. “É como se Bob Marley tivesse sido nomeado ministro da Cultura da Jamaica ou Bruce Springsteen posto no comando da Fundação Nacional de Artes dos Estados Unidos”, diz o primeiro parágrafo do texto, sob o título “Um show governamental para um pop star brasileiro”.

   Depois de resumir recentes queixas e protestos públicos pela nomeação, feitos por personalidades do setor artístico — como o cineasta João Batista de Andrade e o diretor de teatro Augusto Boal — e até de Frei Betto, um dos conselheiros mais íntimos do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, o “Times” sugere que Gil poderia estar sendo também “vítima de preconceito regional com um certo grau de sentido racial”, por ser da Bahia e negro.

“Brasil tende a considerar baianos indolentes”

   O jornal afirma que alguns brasileiros “tendem a considerar pessoas daquele estado nordestino como desorganizadas e indolentes”. E exemplificou dizendo que uma canção chamada “Rap cultural”, que vem circulando na internet, debocha da vida boêmia dos músicos “e sugere que falta a Gil a disposição para trabalhar um dia inteiro”.

   Depois de registrar a resposta do cantor e compositor — “Sou uma pessoa tolerante, que não se ofende facilmente” — o “Times” diz que ele já deu sinais de que pretende se reunir o mais brevemente possível com os seus críticos. Nesse ponto, porém, a reportagem adverte: “Mas se eles estão esperando que ele endosse os seus planos de que o Estado faça uma intervenção maior e mais direta em assuntos culturais, provavelmente haverá desacordos adicionais mais à frente”.

   O próprio Gil afirmou ao jornal: “Nós temos de nos libertar um pouco da idéia de que a responsabilidade do ministério da Cultura é a de produzir cultura. Acho que isso não é assim. Penso que o papel do ministério é criar as condições para que a cultura possa ser feita e melhorada e funcionar como uma ponte entre aqueles que fazem cultura e os que a consomem”.

   A reportagem, que mostra quatro fotos de Gil — em duas delas ao lado de Lula — menciona suas origens tropicalistas, a prisão no Brasil e o exílio em Londres, junto com Caetano Veloso, enxotados pela ditadura militar, e diz que ambos também alienaram a esquerda brasileira.

Cantor teria decepcionado esquerda por causa do rock

   Isso aconteceu, segundo o jornal, “em grande parte porque eles abraçaram com entusiasmo o rock’n’roll americano e britânico numa época em que os marxistas dogmáticos em toda a América Latina estavam condenando a cultura pop em qualquer forma como uma manifestação insidiosa do imperialismo americano”.

   Segundo o jornal, é bem provável que a polêmica criada pela nomeação de Gil seja causada parcialmente pelo fato de que “tal fratura jamais tenha sido curada, e que até hoje a esquerda ortodoxa brasileira suspeite de Gil e de sua atenção ao pan-africanismo e à ecologia”.


(© O Globo On Line)


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