Braço
engessado, celular no ouvido, mala arrumada, no caminho da Terra do Sol. Foi assim que
Chico César cedeu entrevista ao Vida & Arte, falando sobre seu último
CD, suas companhias musicais e o medo que teve de ''alugar'' Chico Buarque
Sabrina Lima
Especial para O POVO
Nordestino de pele morena, rumou retirante
para tentar a vida de jornalista no eldorado brasileiro que é a Paulicéia Desvairada.
Hoje volta para o Nordeste sem emprego em jornal, mas com veia crítica e música prensada
num reclame redondo, metálico, no qual ele exige que respeitem seus cabelos, brancos. Um
lamento nordestino do músico que hoje é Chico César. O paraibano baixinho e danado
saiu-se com esta agora de lançar CD com nome de desafio.
O POVO - Você agora resolveu fazer uma abordagem muito clara do preconceito
racial nesse seu novo disco, começando pelo nome dele (o CD se chama Respeitem Meus
Cabelos, Brancos)...
Chico César - É, o preconceito racial permeia as relações da sociedade
brasileira, uma sociedade que foi montada em cima dessa coisa da Casa Grande e Senzala.
Isso atravessa a sociedade, atravessa o tempo e permanece. Eu acho que as pessoas têm que
encarar de frente, pensar e resolver o problema, não só passar ao lado dele.
OP - O disco é uma mistura de reggae, xote, coco, balada romântica. Você
mediu essa mistura, foi intencional?
C.C. - Não, foi natural, na verdade. Eu sou um homem misturado, onívoro
cultural, um homem que comeu (provou) de tudo e a minha música reflete também alguém
que acabou bebendo em todas essas fontes aí.
As músicas de Respeitem Meus Cabelos, Brancos farão parte do show que
Chico César vai apresentar hoje em parceria com outro expoente do emaranhado musical da
modernidade que representam, o Paulinho Moska.
OP - Você já fez muitos shows com o Moska. O dessa sexta-feira vai ser
igual a esses outros? Você vai incluir músicas do novo CD?
C.C. - Não, agora o show está diferente, tem músicas do meu novo CD e
provavelmente o Paulinho vai tocar alguma coisa do disco que ele está preparando
(Paulinho Moska está em processo de composição e produção de seu novo trabalho). Mas
o show não é o mesmo até porque eu não vou tocar, né? Eu estou com o braço engessado
e quem vai tocar no meu lugar é o Swami Jr., que vai levar seu violão de sete cordas.
Ele é um ótimo músico! (N.da R.: Swami também toca baixo e já era integrante da banda
que acompanha Chico César). Vamos apresentar umas 25 músicas, a maior parte do tempo
juntos, eu, o Moska e o Swami. Mesmo quando um estiver tocando o repertório do outro, o
outro continua no palco também tocando, participando. Teremos momentos solo, mas esses
serão poucos e mais curtos.
OP - E essa associação que sempre fazem de nomes como o seu, o do Moska, o
do Lenine, o do Zeca Baleiro...
C.C. - Ah, eu acho que é maravilhoso! Porque naturalmente as pessoas já
reconhecem as qualidades, as características de uma geração de compositores que são
unidos pela diversidade, mas que têm em comum um desejo de fazer música boa, verdadeira,
com letras boas. São autores que leram poesia, que escutaram todo tipo de música, de
Jackson do Pandeiro a Donna Summer, do forró à discoteca, e nós sabemos ver qualidade
em tudo, onde ela estiver. Nós não somos sectários. Existe essa relação de
admiração em comum em função disso.
Depois de pisar em terreno feminino com ''Mulher Eu Sei'' e ''Mama África'', depois de
resolver fazer crítica social, ele que já era fã, cresceu em identificação com o
ídolo e compôs para o outro Chico cantar.
OP - Você compôs para o Chico Buarque, gravou com ele a canção
''Antinome'' do seu novo CD. Como foi?
C.C. - Foi uma emoção muito forte, porque Chico não só como artista,
não só como cantor ou compositor, ele é uma representação muito verdadeira de um
homem ético do Brasil nos últimos 50 anos. É um homem que é uma lição de
posicionamento. E isso emociona, isso mostra um caminho a ser seguido pelos mais novos. E
eu só o convidei porque achei que a música tinha a ver com ele; desde que compus essa
canção, pensei que ela tinha a ver com o Chico. Relutei um pouco em convidá-lo, para
não alugar o cara, você sabe. Mas aí ele foi super atencioso, super generoso e deu me a
maior alegria, que é tê-lo no meu disco, na minha vida e no meu trabalho.
E por que Chico César causou impacto nos dois primeiros discos e agora, só no quinto
voltou a chamar a atenção? Qual a relação de um artista com o efeito que sua música
provoca? Qual o direito que ele tem de mexer com o público, inquietar, fazer as pessoas
gostarem do barulho que ouvem e depois deixá-las órfãs, ansiosas por inovações com
seu toque peculiar de musicalidade?
OP - O que você acha da relação de cobrança que se estabelece entre a
indústria fonográfica, a mídia, o público e o artista? Essa coisa de ter que lançar
um disco de tempo em tempo, senão o artista está morto, sumido?
C.C. - Eu acho que com o passar do tempo essa relação acaba ficando bem
equacionada. O público, a mídia, a indústria percebem o ritmo do artista, percebem como
ele se posiciona, como ele produz. Percebem que há fases em que ele produz mais e coisas
mais interessantes, e momentos em que ele produz menos. E aí as pessoas vão se
acostumando a que o próprio artista decida o momento de lançar uma coisa nova. E nós
conhecemos histórias maravilhosas de artistas grandes que durante muito tempo produziram
bastante e ficam quatro anos sem lançar discos aí lançam um disco bacana. Ou então
lançam um disco menos brilhante. Então a gente se acostuma com isso também.
(© NoOlhar.com.br)