Criado há 24 anos como bloco carnavalesco, o Olodum é hoje ONG
que promove o resgate da cultura negra e a profissionalização de jovens de Salvador. A
banda, que encerra o Festival Vida & Arte, traz a Fortaleza o show Olodum pela
Vida, título do seu 13º disco, lançado em janeiro, em Salvador
Fãs ou não da axé music
reconhecem (e gostam) da batida forte da percussão baiana que já chegou a mais de cem
países, através de videoclipe gravado no Pelourinho, de shows e da participação em
trabalhos de Michael Jackson, Jimmy Cliff, Paul Simon. Criado há 24 anos como bloco
carnavalesco, hoje, o Olodum também é uma ONG, considerada de utilidade pública pelo
governo baiano, por promover o resgate da cultura negra e a profissionalização de jovens
de Salvador. A banda, que irá encerrar o Festival Vida & Arte, hoje, a partir das
23h, no Centro de Convenções, traz a Fortaleza o show Olodum pela Vida,
título do seu 13º disco, lançado no dia 10 de janeiro, em Salvador.
A banda se organiza para o Festival de Música e Teatro do Olodum, semana que
vem, e para a festa do carnaval de Salvador, com o tema ''Além do Arco-Íris''. Já são
mais de três mil o número de associados. O presidente do Olodum, João Jorge Rodrigues,
em rápida conversa com o Vida & Arte, por telefone, falou das novidades do show de
hoje à noite, de política cultural e sugere a união dos artistas do Nordeste para
apresentação de uma proposta única da região ao Ministério da Cultura.
O POVO - Qual a expectativa de vocês para o Festival Vida & Arte?
João Jorge Rodrigues - O público vai ver um ótimo show do Olodum, vai ver
as músicas novas de nosso último trabalho, o CD Olodum pela Vida lançado
agora em janeiro, aqui em Salvador, com Olodum e Cheiro de Amor tocando, e acima de tudo
vai ver uma banda que adora essa cidade, adora o povo cearense e é uma alegria muito
grande voltar a Fortaleza, onde somos sempre muito bem recebidos. Isso sem falar que o
show será praticamente em primeira mão, porque vai ser a primeira capital que
apresentamos, além de Salvador. Vai ser muito legal. E também vamos mostrar alguma coisa
nova da música baiana, sem esquecer o tradicional. É interessante porque nós
nordestinos temos tradição de fazer boas canções, você vê aí o forró, o samba
reggae, vários ritmos. Neste show, nós queremos promover um novo encontro entre os
cearenses e o Olodum, que a gente possa brincar, mas com muita consciência social, que
nesse momento é muito importante para todos nós.
OP - Quais as músicas que você destaca no show?
JJR - Tem ''Venha me Amar'', que é um samba-reggae com estilo de forró,
tem a música ''Black Man'', ''Manifesto pela Paz'' e ''Olodum pra Balançar'', que é o
carro-chefe do disco. Nós fizemos um samba-reggae alegre, dançante, com muita percussão
e voz. Esse é o ritmo que se destaca nesse trabalho.
OP- Qual a perspectiva do Olodum quanto ao trabalho de um ministro baiano e
comprometido com a cultura negra?
JJR - Ministro baiano, nordestino, negro. O ministro nacional Gil pode
ajudar muito. O que a gente precisa é saber colocar pra ele, corretamente, o que o
Nordeste quer na área cultural, para que o dinheiro não fique apenas no eixo Rio-São
Paulo. A grande maioria dos recursos fica nesse eixo e vão para o teatro, cinema e
televisão. Eu acho que o Gil no governo pode mudar isso, descentralizar as ações,
porque os recursos existem, o problema é que eles ficam de um lado só. Então, São
Paulo e Rio ficam com mais de 80%. Isso é um escândalo, é o fim da picada. Então, a
música do Nordeste precisa de apoio.
Você imagine que se houver um projeto de se construir uma arena popular, para shows
populares em que o Ministério da Cultura pague o cachê do artista, criando um circuito
nacional de artistas que não têm hoje chance de aparecer na grande mídia. Essa é a
proposta da música do Olodum, provocar, agitar, instigar.
OP- Você falou numa proposta do Nordeste. Isso já está sendo articulado
com os outros Estados?
JJR - Nós vamos começar a comentar isso, comentei com você e vamos
conversar com outros grupos e artistas pra que a gente chegue na realidade a uma idéia de
uma ação mais comum entre nós, no sentido do que é a cultura. Cultura que eu falo é
música, artes plásticas, dança, cinema, o carnaval, São João. Mas que não fique só
no teatro do Rio e São Paulo. O que eu quero, quero pro Olodum, quero pro artista baiano,
cearense, quero pra todo mundo, todo mundo deve ter seu lugar.
OP- A banda Olodum surgiu como bloco de carnaval e hoje tem um trabalho
cultural, de resgate da cidadania e profissionalização de jovens. Quais os planos do
centro cultural este ano?
JJR - O eixo do nosso trabalho aqui é a Escola Criativa Olodum, que já tem
190 alunos, em cursos de percussão, dança, informática. É um trabalho muito bom,
especialmente com percussionistas. Mas esse vai ser um ano cheio de novidades, porque
estamos pensando em construir um pré-vestibular para afro-brasileiros e uma série de
ações culturais, como a publicação de livros, cartazes, realizações de seminários
que promovam o resgate da cultura negra e da cidadania. Além disso, no carnaval traremos
um tema ligado à proteção do ambiente, ''Além do Arco-Íris'', que conta a história
de um parque de Salvador, o Parque de São Bartolomeu. Depois vamos nos dedicar à
programação de aniversário, que será em abril.
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