Uma homenagem a Chico
Albuquerque, o mestre da fotografia cearense, que tem obras suas no Festival Vida &
Arte. Patrícia Veloso introduz um texto inédito de ''seu'' Chico com um depoimento
emocionante de seus últimos encontros, às vésperas da reedição do ''álbum'' Mucuripe
Patrícia Veloso
Especial para O POVO
É Natal.
Com saudade me vem à lembrança o caro amigo Chico.
Não imaginava que nosso último contato, após 14 anos, seria no dia 25 de
dezembro de 2000.
Estávamos aguardando receber da gráfica a tão esperada reedição do livro
Mucuripe. Na manhã do dia 25, chegava às minhas mãos, antecipadamente, um
exemplar que solicitara para presentear-lhe. Apressei-me em marcar uma visita, confirmada
para às 17 horas.
Encontrei-o apesar de sozinho, exibindo o costumeiro bom humor. Escutava um
clássico, mostrava-se feliz. Tudo me levava a imaginar quão estava satisfeito estava com
tudo que a vida lhe proporcionara. Ou melhor, com o que ele sabiamente construíra e
conquistara. Todos os que o conheciam o reverenciavam. Era generoso, cordial, íntegro,
sincero, afável.
Naquele momento, alegrava-se por finalmente ter conseguido, com o auxílio da
tecnologia, melhorar a qualidade da impressão do ''álbum Mucuripe'', como se referia ao
ensaio publicado inicialmente em 1989.
Naquela ocasião, ajudei-o a prepará-lo e finalizá-lo, artesanalmente.
Guardo até hoje o boneco com as imagens ampliadas em xerox para indicar a diagramação
das páginas. O processo de fotocomposição, embora demorado, não garantia precisão dos
resultados. As fotografias, carinhosamente retocadas pela Doris (sua esposa), não
reproduziam a qualidade final desejada pelo autor.
Agora não. Com a correção das imagens, a densidade e relação de
contraste que faziam ''descolar as figuras do fundo'', a fidelidade com que se reproduzia
a ''dureza da luz e sombra da luz zenital'' estavam ali presentes. Com persistência ele
as perseguiu até o fim, uma a uma, até que as provas de pré-impressão confirmassem
tudo o que registrara nos cinqüentenários negativos de Mucuripe.
Durante o processo dos ajustes das fotografias, de vez em quando comentava:
''sem isso elas ficam anêmicas'', como se quisesse fixar em nossa mente a leitura que
desejava ter de sua obra.
Lembro-me de como, ao folhear o livro, apreciou uma das fotos do ensaio -
mulher fazendo labirinto: ''nessa acertei no ponto e contraponto''. Admirava também a
expressão de força que conseguira captar nos quatro homens empurrando uma jangada.
Repassamos sem pressa todas as páginas, e, como em viagem ao passado, revivia cada
instante.
Ao perceber que a noite chegara, decidi partir. Como sempre fazia,
acompanhou-me até o elevador e sorrindo despediu-se.
Na manhã seguinte, um telefonema avisava: ''seu'' Chico partira durante o
sono. Não consegui conter as lágrimas. Lá no fundo do coração a tristeza apontava,
dominando-me. Depois lembrei-me: foi dessa forma que ele planejara deixar o mundo. E assim
sucedeu, tinha sido atendido.
Conforta saber que, de onde ele está, nos observa e continua a tentar nos
convencer que a felicidade está na simplicidade.
Como legado, a última mensagem de Natal, que preparamos juntos, anexou uma
''simbólica'' foto - pegadas na duna do ensaio Mucuripe. No recado do
Mestre:
solidariedade
ética
transparência
justiça
zelo ambiental
realismo
tolerância
confiança
esperança
e viveremos melhor no mundo de amanhã.
Assim como sua obra e seu exemplo resistirão ao tempo, sua mensagem será
sempre atual. Que dela possamos compartilhar e aprender com quem soube ''bem viver''.
(©
NoOlhar.com.br)