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Chico: mestre da luz, mestre da vida

20/01/2003

Pescadores da praia do Mucuripe: obra máxima do mestre da fotografia cearense Chico Albuquerque, em cartaz no Festival Vida & Arte

 

Uma homenagem a Chico Albuquerque, o mestre da fotografia cearense, que tem obras suas no Festival Vida & Arte. Patrícia Veloso introduz um texto inédito de ''seu'' Chico com um depoimento emocionante de seus últimos encontros, às vésperas da reedição do ''álbum'' Mucuripe

Patrícia Veloso
Especial para O POVO

   É Natal. Com saudade me vem à lembrança o caro amigo Chico.

   Não imaginava que nosso último contato, após 14 anos, seria no dia 25 de dezembro de 2000.

   Estávamos aguardando receber da gráfica a tão esperada reedição do livro Mucuripe. Na manhã do dia 25, chegava às minhas mãos, antecipadamente, um exemplar que solicitara para presentear-lhe. Apressei-me em marcar uma visita, confirmada para às 17 horas.

   Encontrei-o apesar de sozinho, exibindo o costumeiro bom humor. Escutava um clássico, mostrava-se feliz. Tudo me levava a imaginar quão estava satisfeito estava com tudo que a vida lhe proporcionara. Ou melhor, com o que ele sabiamente construíra e conquistara. Todos os que o conheciam o reverenciavam. Era generoso, cordial, íntegro, sincero, afável.

   Naquele momento, alegrava-se por finalmente ter conseguido, com o auxílio da tecnologia, melhorar a qualidade da impressão do ''álbum Mucuripe'', como se referia ao ensaio publicado inicialmente em 1989.

   Naquela ocasião, ajudei-o a prepará-lo e finalizá-lo, artesanalmente. Guardo até hoje o boneco com as imagens ampliadas em xerox para indicar a diagramação das páginas. O processo de fotocomposição, embora demorado, não garantia precisão dos resultados. As fotografias, carinhosamente retocadas pela Doris (sua esposa), não reproduziam a qualidade final desejada pelo autor.

   Agora não. Com a correção das imagens, a densidade e relação de contraste que faziam ''descolar as figuras do fundo'', a fidelidade com que se reproduzia a ''dureza da luz e sombra da luz zenital'' estavam ali presentes. Com persistência ele as perseguiu até o fim, uma a uma, até que as provas de pré-impressão confirmassem tudo o que registrara nos cinqüentenários negativos de Mucuripe.

   Durante o processo dos ajustes das fotografias, de vez em quando comentava: ''sem isso elas ficam anêmicas'', como se quisesse fixar em nossa mente a leitura que desejava ter de sua obra.

   Lembro-me de como, ao folhear o livro, apreciou uma das fotos do ensaio - mulher fazendo labirinto: ''nessa acertei no ponto e contraponto''. Admirava também a expressão de força que conseguira captar nos quatro homens empurrando uma jangada. Repassamos sem pressa todas as páginas, e, como em viagem ao passado, revivia cada instante.

   Ao perceber que a noite chegara, decidi partir. Como sempre fazia, acompanhou-me até o elevador e sorrindo despediu-se.

   Na manhã seguinte, um telefonema avisava: ''seu'' Chico partira durante o sono. Não consegui conter as lágrimas. Lá no fundo do coração a tristeza apontava, dominando-me. Depois lembrei-me: foi dessa forma que ele planejara deixar o mundo. E assim sucedeu, tinha sido atendido.

   Conforta saber que, de onde ele está, nos observa e continua a tentar nos convencer que a felicidade está na simplicidade.

   Como legado, a última mensagem de Natal, que preparamos juntos, anexou uma ''simbólica'' foto - pegadas na duna do ensaio Mucuripe. No recado do Mestre:

solidariedade
ética
transparência
justiça
zelo ambiental
realismo
tolerância
confiança
esperança
e viveremos melhor no mundo de amanhã.

   Assim como sua obra e seu exemplo resistirão ao tempo, sua mensagem será sempre atual. Que dela possamos compartilhar e aprender com quem soube ''bem viver''.

(© NoOlhar.com.br)


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