Namoro
com o invisível, o mítico. O Centro Experimental de Formação e Pesquisa Teatral,
dirigido por Moncho Rodriguez, bebe no poço sem fundo da cultura popular nordestina para
compor A Saga de Zacarias contra a Morte e o Diabo
Ethel de Paula
da Redação
No rastro da cultura ibérica. O galego Moncho Rodriguez deixou a Espanha,
país natal, para radicar-se no Brasil ao ser convidado pelo governo do Rio Grande do
Norte para coordenar um projeto de renovação das artes cênicas no estado. Lá, criou o
Centro Experimental de Formação e Pesquisa Teatral, mergulhando fundo na fonte de
sabedoria de mestres da cultura popular nordestina. Deu mais sede. Daí, tocou o projeto
de Integração de Atores do Nordeste (PIANE), com o qual acabou chegando em Fortaleza e
outras cinco capitais da região. A idéia de apostar na eficiência de residências
temporárias para promover um intercâmbio de idéias e experiências práticas entre
pesquisadores, atores e diretores nordestinos conquistou o apoio dos seis governos de
Estado.
Projeto em vias de ser renovado. ''Trata-se de um consórcio. Por ano, os
governos de Sergipe, Alagoas, Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Ceará nos dão
R$ 60 mil. Em contrapartida, oferecemos a cada estado 30 apresentações gratuitas. Quinze
podem ser na capital com a condição de que 15 sejam descentralizadas, seguindo para o
interior, para lugares onde as companhias não vão, o teatro não chega. Além disso,
ministramos dez dias de oficinas de formação em cada local. Cada estado tem direito a
manter dentro do projeto um mínimo de dois atores como estagiários, com a obrigação de
que voltem a seus locais de origem para dar continuidade à pesquisa'', detalhou. Por
aqui, os dois meses de residência levou o grupo de criadores ao Cariri, berço local da
literatura de cordel, dos folguedos populares, do flerte desabusado entre o sacro e o
profano.
Experiência marcante e decisiva. Na hora de escolher a sede
''temporariamente definitiva'' do Centro Experimental de Formação e Pesquisa Teatral
todos foram unânimes: Fortaleza. Assim é que, a partir de 27 de março próximo, o
Teatro Boca Rica, do dramaturgo cearense Oswald Barroso, um dos colaboradores do projeto
PIANE, dá lugar ao mais novo espaço cultural da
cidade. ''Recife é a capital cultural do Nordeste. Seria muito cômodo estar lá. Vindo
para Fortaleza poderemos fazer com que essa rede de colaboradores voltem os olhos para
outro lado. Além disso, há no Ceará o Cariri e aí estaremos muito próximos de uma
fonte importantíssima da cultura popular. É necessário que os atores do Nordeste
conheçam melhor esse lugar. Queremos inserir no rol de conhecimentos um Raimundo Aniceto
e um Patativa do Assaré, que é tão importante quanto Fernando Pessoa'', defendeu
Moncho.
Aperitivo: segundo o diretor, o Centro Experimental de Formação e Pesquisa
Teatral nada tem a ver com escola formal. ''Não é apenas para atores, mas para todos,
principalmente jovens. Lá acontecerão oficinas, palestras, debates, experiências,
espetáculos, vivências com grupos contemporâneos e mestres tradicionais de todas áreas
artísticas. E todas as atividades serão abertas ao público'', adiantou. Entre os
colaboradores fixos, Aglaé Fontes de Alencar (Sergipe), Ronaldo de Andrade (Alagoas),
Ronaldo de Brito (Pernambuco), Paulo de Rennó (Pernambuco), Mário Hélio (Pernambuco),
Romildo Moreira (Pernambuco), Carlos Carvalho (Pernambuco), Elisa Toledo (Pernambuco),
Lourdes Ramalho (Paraíba), Roberto Cartaxo (Paraíba), Paulo Vieira (Paraíba), Nelson
Patriota (Rio Grande do Norte), Carlos Newuton Jr. (Rio Grande do Norte) e o trio de
cearenses Rosemberg Cariry, Erotilde Honório e Oswald Barroso (Ceará).
O POVO - Que tipo de pesquisa de linguagem está por trás do espetáculo A
Saga de Zacarias contra a Morte e o Diabo?
Moncho Rodrigues - Há dois anos estamos a desenvolver um processo de
pesquisa de linguagem dentro da cultura popular do Nordeste, com os mestres dos folguedos,
do cancioneiro nordestino, o romanceiro ibérico. Trabalhamos com dramaturgos muito
especiais, como Lourdes Ramalho, na Paraíba, Aglaé Fontes de Alencar, em Sergipe,
Ronaldo de Brito, em Pernambuco, e Oswald Barroso, aqui no Ceará. Criamos no ano passado
a família Ditirambos, uma família de cômicos ambulantes, que percorriam cidades,
feiras... Ora, uma grande treta, uma mentira que recriamos para inventar uns cômicos
divertidos que pudessem contar histórias divertidas. Essa mesma família foi reutilizada
para montar esse espetáculo, que é um conto tradicional, um conto popular, não
precisamente apenas do Nordeste, mas universal, traduzido em várias culturas com pequenas
diferenças. A grande figura do imaginário do Nordeste é o Diabo. E a associação do
Diabo e a morte, dois elementos fantásticos, proporciona uma dramaturgia que se liga
diretamente à memória coletiva. Conta exatamente sobre a picardia do homem sertanejo que
quer burlar o Diabo e a morte. Ora, o que ele quer é viver. Acaba sendo um espetáculo
engraçadíssimo, cheio de peripécias, revisitando, de alguma forma, o espírito de Pedro
Malazarte, de um João Grilo. Mas damos a tudo isso uma linguagem comprometida com uma
estética de vanguarda, contemporânea. Acreditamos que o teatro do Nordeste precisa de
uma linguagem própria, para ser contemporâneo ele precisa realmente desenvolver sua
estética, sua dramaturgia. O Nordeste é riquíssimo em memória, em imaginário e nós
não temos realmente que repetir o teatro de outras culturas, outros povos, já basta de
tanta colonização.
OP - Quando você fala em identidade nordestina, o que tem em mente?
MR - É a questão de assumirmos um pouco uma contradição de ser o
carrasco e a vítima. Essa identidade está presa, de alguma forma, ao índio e ao branco,
ao colonizador e ao colonizado. O interessante é saber extrair dessa contradição os
elementos para viver e ser um povo diferente. Por isso que pela diferença a gente pode
ser igual, ser universal. Ser nordestino é ser indígena e ser ibérico. Assumir isso com
toda grandeza é uma coisa às vezes complicada. É lógico que dentro do sistema em que
se vive e pelo poder da economia muitas vezes as pessoas abandonam sua identidade em troca
de uma outra identidade que pensa poder adquirir. Mas se engana. Um nordestino será
sempre um nordestino, mesmo que ele queira negar, porque temos todos uma memória muito
forte e um imaginário que só nós podemos conhecer e desvendar.
OP - Como vocês vêm trabalhando na prática esses elementos identitários?
Como evitar uma atitude reducionista, que perde o diálogo com o universal?
MR - Quando você mergulha na sua cultura você está sendo universal. Você
não está fechando portas, criando barreiras, está querendo se conhecer, saber quem é.
Ninguém pode fazer uma arte contemporânea sem ter uma base muito grande de cultura
popular. Não existe contemporâneo sem cultura popular. Se não seria um contemporâneo
balofo, cheio de modismos. Não penso em fazer teatro voltado apenas para o povo do
Nordeste. Penso em fazer um teatro do Nordeste para o universo. A coisa mais
contemporânea que tivemos o prazer de descobrir foi os Irmãos Aniceto. São pedras
invisíveis. Estamos a falar de universos subterrâneos, de culturas que se ligam. Nada é
tão oriental quanto um Raimundo Aniceto a fazer a dança de suas facas do homem bravo,
nada é tão parecido com as danças de Bali. Mas Raimundo Aniceto não conhece nada de
Bali, nem conhece nada de Oriente. Nem conhece nada que o oriente, não é? (risos)
Então, estamos a falar de uma magia, do invisível, do mítico que pertence a nossa
cultura...
OP - O que é importante ter em mente ao se tentar fazer essa transposição
do universo popular nordestino para o palco?
MR - O Nordeste tem a sua dramaturgia humana, da poética do homem, do
fantástico. Isso faz com que ela seja única. Às vezes é difícil fazer essa
transposição do que é folclore, popular, tradição para o palco. Porque há uma
preocupação em ir aprender a dança. Não é necessário aprender os passos de dança.
É necessário descobrir o ritmo que está por trás daquela dança. E o interpretamos de
forma diferente, com objetivos diferentes. Temos uma musicalidade que é muito própria
nossa. Não precisamos estar a recriar o coco ou a chegança em cima de um palco. É
necessário desporjar-se dos preconceitos do teatro burguês e entrar em um teatro que
seja para todos, poético, mágico, verdadeiro. A coisa mais importante que aprendemos
nesses dois anos relaciona-se com a arte do ator. No momento em que abdicamos de estudar o
arlequim da Comédia dell'Arte, até porque já o conhecíamos bastante, e começamos a
descobrir o Mateus do bumba-meu-boi, do autos populares, começamos a descobrir um novo
comediante com outro ritmo, uma outra filosofia que não era representar, era brincar. Mas
o que é o teatro? O teatro é uma proposta de brincadeira, de comunhão dentro do
mágico.
OP - O que leva um espanhol a criar tanta intimidade com a cultura
nordestina? Como começa esse namoro, esse interesse?
MR - Eu sou galego. E o galego, como os índios, foi colonizado. Nasci na
Galícia, do reino da Espanha. Mas dizem que todos nós somos espanhóis. É uma forma
política de querer resolver uma situação. Mas eu sou separatista. Durante o período em
que vivi na Espanha sempre me neguei a falar espanhol, castelhano, sempre falei galego.
Às vezes excessivamente radical. Mas era necessário, naquele momento. Por ser galego, eu
me sinto um pouco dentro de casa. O Nordeste para mim, assim como Portugal, é como
extensão da minha cultura. Porque no Nordeste venho encontrar expressões do galego
arcaico, do português arcaico, costumes, tradições, romances, são todas heranças
ibéricas. Na realidade, me sinto um homem ibérico e tenho uma paixão louca pelo
Nordeste. Porque o Nordeste me permite viver aquilo que na Espanha e em Portugal já não
posso viver. Enquanto Espanha e Portugal, nesse momento, estão lutando de uma forma
estúpida para serem Europa, que eu considero um absurdo, abdicando de sua cultura em prol
de uma cultura globalizada, que é como um pacote de supermercado vendido para todos, por
igual, no Nordeste ainda posso encontrar as particularidades de uma identidade. Ainda
posso encontrar a forma de ser e estar de um homem que busca a sua razão de existir junto
à natureza, junto à simplicidade da sua cultura. E essa simplicidade é muito profunda.
Se tivesse dez vidas voltaria a tentar vivê-las dez vezes para tentar entender o ser
nordestino, que é fantástico.
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