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20/01/2003
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O músico que vive recolhido no interior da Bahia
faz uma de suas raras aparições na cidade, onde apresenta recitais apenas neste fim de
semana no Sesc Pompéia
São Paulo - O poeta
Vinícius de Moraes, o crítico José Ramos Tinhorão e o mestre Muniz Sodré estão entre
aqueles que recepcionaram com entusiasmo Elomar, Das Barrancas do Gavião, o
primeiro disco do compositor e cantador Elomar Figueira de Melo, em 1974. O imediato e
amplo reconhecimento da qualidade musical da obra deste artista, hoje com 15 discos
gravados, não provocou um súbito ´modismo´ Elomar pelo Brasil afora. Nem poderia.
Ninguém mais avesso ao sucesso superficial e à banalidade do que esse compositor de
sólida formação erudita que recria a musicalidade sertaneja em óperas, sinfonias,
canções e autos com inusitado requinte.
Quem ainda não teve
o privilégio de conhecer a música de Elomar poderá ouvi-la neste fim de semana, quando
ele faz apresentações, amanhã e depois, no Sesc Pompéia. "Conhecer Elomar é mais
do que preciso: é urgente", escreveu Tinhorão em uma de suas críticas. A
oportunidade é rara. Há cinco anos ele não se apresentava em São Paulo. E seus
concertos tendem a ser cada vez mais raros. Atenção - concertos ou recitais, jamais
´shows´, termo pelo qual ele tem verdadeira ojeriza. Antes de mais nada pelo
estrangeirismo desnecessário. "Quando não há substituição, o termo estrangeiro
é bem-vindo, enriquece o idioma. Mas se há um sucedâneo, porque ceder à ditadura da
língua inglesa imposta via Estados Unidos?"
Mas sua indignação
com a expressão show não se limita à preservação do idioma. "Não faço shows
porque não tenho competência para isso. Não tenho competência para balançar o cabelo
de forma tal, correr no palco, fazer remelexo com a bunda", ironiza. Ele prefere ser
chamado de cantador, em vez de cantor. "A distância que separa o cantor e o cantador
é a mesma que separa a Idade Média européia da Era Industrial", explicou por ele o
mestre Muniz Sodré em artigo sobre a obra de Elomar.
Desde 1964 Elomar
optou por viver no sertão baiano, "a Bahia ibérica", nada a ver com a Bahia do
axé music, onde cria bodes às margens do Rio Gavião, a 100 quilômetros de Vitória da
Conquista. Para ele, o tempo esticado do sertão é fundamental para chegar ao fim de sua
obra, boa parte dela criada "de temática sertânica e em linguagem dialetal",
como escreve em uma curta autobiografia, que pode ser lida no site www.elomar.mus.br.
Ter de se deslocar
até um centro urbano é outro obstáculo para apresentações mais freqüentes. "Vir
para a cidade é como fazer uma passagem pelo purgatório", diz Elomar em entrevista
à Agência Estado no apartamento de seu filho, o músico João Omar, no bairro da
Saúde.
No noite de amanhã,
junto com os músicos Cristina Geraldine (violoncelo), Daniel Felipe Allain (flauta) e de
seu filho João Omar (violonista), Elomar vai mostrar árias de algumas de suas óperas,
entre elas Lamento dos Vaqueiros" e , de O Retirante, Peão
Engaiolado, de A Casa de Bonecas, e, o que considera inevitável, canções já
conhecidas de seu público. (Beth Néspoli)
(© O Estado de S.
Paulo)
Sertão é tema recorrente para Elomar
Ele planeja criar uma
escola de música na Chapada Diamantina. A sede já existe, um Centro de Treinamento de
Professores. "Serei o reitor dessa Universidade Leiga do Sertão."
São Paulo - Se um apartamento na Paulicéia é por si só um espaço
claustrofóbico demais para Elomar, de 65 anos, sua presença torna ainda menor a moradia
de seu filho, onde o compositor dá entrevista à Agência Estado, às vésperas de
sua apresentação no Sesc Pompéia, em São Paulo. Músicos, professores estudantes - uma
garotada enche a sala em busca de um dedo de prosa. E conversar com o músico é, sem
dúvida, uma aventura inesquecível.
Elomar viaja no tempo
e nas culturas. Homem que vasculhou o sertão, passando pelo Piauí, Maranhão, Paraíba,
Pernambuco e, sobretudo, o sudoeste da Bahia, sua prosa salta do polígono da seca para a
Roma dos Césares, de Ortega y Gasset para Jung, das reservas de nióbio (metal nobre) na
Amazonas para as teorias da física quântica. Sem o menor traço de esnobismo. Com a
naturalidade de quem mergulhou no Sertão, mas não necessariamente se desligou do
pensamento que corre pelo mundo.
Entre os jovens
acomodados na sala está o cineasta Manitou Felipe, cujo fascínio pela obra do músico
ainda pode render bons frutos. Entre outras coisas, Manitou planeja realizar um longo e
profundo registro do modus vivendi e da obra de Elomar, uma espécie de resgate e
preservação do artista que, por sua vez, se dedica justamente a resgatar uma
musicalidade tão rica quanto desvalorizada no Brasil, nascida da cultura ´sertânica´
como ele prefere chamar a resultante da apropriação brasileira da cultura ibérica.
Mas Manitou
certamente enfrentará dificuldades. Na noite de quinta-feira, Elomar não permite a
filmagem da entrevista, obrigando Manitou a guardar a câmera. "Uma das babaquices
dos tempos modernos é o excesso de imagens. Os olhos, no meio do urbano, não têm
descanso. Em todo lugar tem um som ou uma imagem perturbando. Eu, como vivo num espaço
privilegiado, tenho cada vez mais a certeza de que saltei na estação errada. Era para eu
ter nascido em outra época." Não há dúvida de que parte do sertão ainda vivencia
o ´tempo´ como no período medievo. E só assim, livre das solicitações da urbe, é
mesmo possível construir uma obra nas dimensões da que vem construindo Elomar - dezenas
de óperas; concertos para orquestra e violino; antífonas e autos, grande parte já
devidamente posta em partituras.
Criar, no caso de
Elomar, é a melhor parte. Difícil, para alguém com seu temperamento, é lutar pela
execução e preservação da obra - sejam sinfonias, peças teatrais ou até roteiros e
cinema, áreas pelas quais também vem transitando. "Quando recebi o convite para
esse recital, comecei pela utopia. Imaginei trazer cantores líricos, trabalhar com uma
orquestra. Mas a realidade foi aparecendo no horizonte e eu mesmo terei de cantar 10 ou 12
árias com alguns músicos."
Evidentemente não é
a mesma coisa. Afinal, o compositor que cria uma ópera, ou um concerto para barítono e
orquestra, como fez Elomar, quer ver sua obra executada sem adaptações ´vocais´ e
reduções musicais. Mas para isso seriam precisos meses de ensaio, conhecimento da
partitura, acertos. Talvez isso seja possível se uma das maiores utopias de Elomar vier a
se tornar realidade. Ele planeja criar uma escola de música na Chapada Diamantina. A sede
já existe, um Centro de Treinamento de Professores. "Serei o reitor dessa
Universidade Leiga do Sertão." A idéia é contratar professores de todo o Brasil,
ensinar canto lírico, composição, execução, técnica vocal. "E depois viajar com
coral e orquestra para as cidades do sertão, despertando nas pessoas o interesse pela
música." Pela boa música, claro. (Beth Néspoli)
(© O Estado de S.
Paulo)
Elomar é narrador da crônica sertaneja
A prosa de acento
regional de Elomar resgata, recupera, recria da maneira mais fiel possível a linguagem, a
religiosidade, a mitologia do sertão
São Paulo - A gravadora independente Kuarup, que está comemorando 25 anos de
existência acaba de lançar o disco Cantoria Brasileira, que traz, em primeiro
plano, cinco expressões fundamentais da diversidade da música regional brasileira - os
baianos Elomar Figueira de Melo e Xangai, o mato-grossense Pena Branca, o paulista Renato
Teixeira e a pernambucana (há muitos anos radicada na Europa) Teca Calazans. Na base,
mais nomes importantes: o violeiro Chico Lobo, de Minas o violonista Natan Marques, de
São Paulo, como são daqui outro violeiro, Heraldo do Monte, e o sanfoneiro Oswaldinho do
Acordeon. Completa o time o brilhante clarinetista carioca Paulo Sérgio Santos.
O disco foi gravado
ao vivo, em duas etapas, na Festa Uai, de Poços de Caldas, Minas, e no Teatro do Centro
de Artes da Universidade Federal Fluminense, em Niterói, no Estado do Rio. Abre com um
número coletivo e vai para o solo de Elomar, que canta três números: Campo Branco, O
Pidido" (assim mesmo, com "i") e Arrumação". No primeiro,
conta o que vai acontecer quando chegar a chuva: "Quem bem lôva Deus sem bem/ Quem
não tem pede a Deus qui vem/ Pela sombra do vale do ri Gavião/ Os rebanhos esperam a
trovoada chover/ Num tem nada não também/ No meu coração/ Vô ter relempo e trovão/
Minh´alma vai florescer/ Quando a amada e esperada/ Trovoada chegar."
O Pidido é
outra crônica sertaneja. O cantor-narrador pede a alguém que passa em direção à
feira: "Traga di lá para mim/ Água de fulô qui cheira/ Um nuvelo e um carin/ Trais
um pacote de misse/ Meu amigo, ah se tu visse/ Aquele cego cantadô/ Um dia ele me disse/
Jogano um mote de amô/ Qui eu havéra de vivê/ Por esse mundo/ E morrê ainda em
flô." A terceira música, Arrumação, narra outra cena, outro medo
sertanejo: "Luã nova sussuarana vai passá/ seda branca no passsado ela levô/ Ponta
d´unha lua fina risca no céu/ A onça prisunha a cara do réu/ O pai do chiquerô a gata
comeu/ Foi um trovejo c´ua zagaia só/ Foi tanto sangue de dá dó."
A prosa de acento
regional de Elomar resgata, recupera, recria da maneira mais fiel possível a linguagem, a
religiosidade, a mitologia do sertão. Elomar Figueira de Melo foi um homem do mundo.
Formou-se em arquitetura, graduou-se na Europa, estudou violão clássico. Quando surgiu
como compositor, no entanto, era um sertanejo, um criador de bodes das barrancas do Rio
Gavião, no interior baiano. Moldou-se numa persona, conscientemente ou não, que tomou
conta do criador - há que o acuse de se haver fantasiado de Elomar, o cantador, o que é
uma imensa tolice - para melhor cantar aqueles mitos, aquele temor e aquela adoração
religiosa, naquela precisa linguagem.
O sertão que o
presidente Lula ainda não foi visitar vive à margem do tempo, num limbo mais próximo da
Idade Média do que do século 21. Esse estado de coisas incitou Ariano Suassuna a criar o
Movimento Armorial, move o brincante Antônio Nóbrega, afasta dos grandes centros o
genial compositor paraibano Vital Farias e tem sua expressão maior na obra de Elomar, um
homem que abdicou do calendário para expor esse Brasil dentro do Brasil que obsedou
Euclides da Cunha e deu o rumo à obra de Guimarães Rosa. Gênio da raça, Elomar é um
criador à altura desses dois, um dos intelectuais mais importantes da cultura brasileira
de todos os tempos. (Mauro Dias)
(© O Estado de S.
Paulo)
Cineasta
registra obra de Elomar
O estudante de
música Manitou Felipe mobiliza suas energias para deixar registrada a obra de Elomar no
cinema
São Paulo - Aos 29 anos, estudante de música, diretor de filmes
publicitários ligado à produtora Vertical Filmes, Manitou Felipe mobiliza suas energias
para deixar registrada a obra de Elomar, pela qual está fascinado. "Em 1990 Carlos
Manga Júnior (filho do cineasta Carlos Manga) colocou um disco de Elomar para eu ouvir.
Fiquei assustado. Nunca tinha ouvido nada parecido." Quase 13 anos depois, tomou como
missão pessoal sensibilizar o Brasil para a importância desse artista.
"Elomar não
quer a captação de imagens para um documentário nos moldes tradicionais, cujo formato
ele não aprova. Segundo ele, seria mais um documentário para ser consumido por alguém
que, por acaso, zapeando na TV, toparia com aquele sujeito de chapéu, viola e botas,
acharia interessante e, ao fim, teria retido uma sinopse como se fosse real
conhecimento." Qual seria então o caminho? "Elomar permite horas, meses e anos
de gravações em áudio. Vamos fazer isso, o registro. E sensibilizar as pessoas certas
para conseguirmos criar a Escola de Música do Sertão e ainda gravar pelo menos mais
três discos com obras ainda inéditas."
Na avaliação de
Manitou, a existência de um artista como Elomar é coisa quase impossível no dias de
hoje. "Eu sou um urbanóide. Vivo na cidade e meu tempo é o tempo da urbe. Passei 12
dias na casa de Elomar, um lugar onde o dia não acaba nunca. Só num tempo assim é
possível criar uma obra em grande escala, como fizeram Mozart, Beethoven, Schumann. É
fascinante a existência de uma obra desse porte e qualidade. As orquestras brasileiras
deveriam estar brigando para executá-la." (Beth Néspoli)
(© O Estado de S.
Paulo)
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