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20/01/2003
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A biografia Verger - Um
Retrato em Preto e Branco, fartamente ilustrada, narra a trajetória do fotógrafo que
se encantou com o mundo sagrado da Bahia
São Paulo - Em 1937, o fotógrafo da agência Alliance Photo Pierre Verger é
escalado, pela agente Maria Eisner, para a cobertura da ocupação da China pelos
japoneses. Era a Segunda Guerra Mundial em seu início - na Ásia. O francês, para chegar
até Xangai, teria dificuldades para atravessar a Rússia: a profissão informada pelo seu
passaporte - fotógrafo - geraria fortes suspeitas de espionagem. Verger, então, foi
aconselhado a tirar um novo documento, com a palavra etnólogo preenchendo o espaço
destinado à profissão.
A necessidade, assim,
antecipou em uma década a realidade. É na segunda metade da década de 1940, depois de
muitas outras viagens e peripécias, que Pierre Verger (1902-1996) chega a Salvador (BA) e
passa a viver e registrar as relações entre o candomblé da Bahia e o africano, no atual
Benin. Como defende Rosane de Andrade em Fotografia e Antropologia (Estação
Liberdade, 132 págs., R$ 28), é a profissão de fotógrafo que vai, progressivamente,
levando Verger à etnologia.
A história do
passaporte, no entanto, é relatada em Verger - Um Retrato em Preto e Branco
(Corrupio, 484 págs., R$ 90), lançado com um pequeno atraso para marcar as
comemorações do centenário de nascimento do fotógrafo. A obra é assinada pela editora
Cida Nóbrega e pela jornalista Regina Echeverria.
"Procuramos
mostrar como ele conseguiu construir seu próprio caminho, partindo do nada", afirma
Cida Nóbrega. "É uma biografia viva, porque, além de ouvirmos muitos de seus
amigos e de gente de santo, éramos muito próximos: viajávamos com ele, cuidávamos dele
quando ficava doente." Cida, quando usa o plural, refere-se à turma da editora
Corrupio, criada por Arlete Soares para editar em português as obras de Verger (e da qual
ainda se deve citar Rina Angulo) - que, apesar de viver no Brasil e de ter trabalhado como
fotógrafo de periódicos do País, só havia publicado seus estudos sobre o candomblé na
França.
Regina não conheceu
Verger pessoalmente. "Sabia dele o que todos sabiam: que era um fotógrafo que se
interessou pela cultura negra da Bahia", conta. "Conheci um homem livre e
despojado."
A biografia,
fartamente ilustrada, procura descrever como a vida de Verger o levou à Bahia. Respeita,
em grande medida, a vida pessoal do etnólogo, especialmente quando o assunto é sua
sexualidade. "Contamos só o que era necessário para descrever sua
personalidade", diz Cida. "Ele era muito reservado."
A biografia de Verger
também recupera a importante história da Corrupio - a responsável pela publicação no
Brasil de livros como Orixás e Fluxo e Refluxo do Tráfico de Escravos entre o Golfo
de Benin e a Bahia de Todos os Santos.
Liberdade - Nascido
em Paris, descendendo de uma família burguesa belga, Verger vivia no bairro mais caro da
capital francesa. Sua vida começa a mudar em 1930, quando conhece Eugène Huni e Maurice
Baquet, e vai morar com eles num subúrbio parisiense.
Em 1932, morre a
mãe, seu último elo com o mundo da alta burguesia parisiense. Aproxima-se de jovens
esquerdistas e artistas e chega a freqüentar, em 1936, o Groupe Octobre, mas seu caminho
é, claramente, mais individual. Em julho do 1932 mesmo, parte a pé pelo sul da França,
com Pierre Boucher, que lhe inicia na fotografia. Ainda neste ano, em dezembro, embarca
para a Polinésia francesa, para encontrar o amigo Huni.
Ainda nos anos 1930,
Verger passa a viver como fotógrafo profissional, trabalhando para várias publicações.
Usa, cada vez mais, a profissão para financiar suas viagens pelo mundo. E, de viagem em
viagem, ele desembarca em Salvador, em agosto de 1946.
Verger, como lembra o
museólogo e artista plástico Emanoel Araújo no prefácio, não foi o único francês a
se encantar com o mundo sagrado da Bahia. Araújo cita o sociólogo Roger Bastide, o poeta
surrealista Benjamin Peret e o também fotógrafo Marcel Gautherot. Mas nenhum deles
passou a viver tão de acordo com as normas do candomblé quanto Verger - que, apesar da
cor da pele, se dizia negro por dentro.
Uma das questões por
que passa a biografia é a dúvida que sempre existiu e sempre existirá sobre se Verger,
de fato, acreditava no candomblé. Ele mesmo se dizia cartesiano. "O fato é que ele
cumpria todas as obrigações e vivia como um filho de santo; era absolutamente devoto e
leal aos compromissos."
Verger entrou para a
hierarquia do candomblé, incorporou o Fatumbi ao nome e procurou, sempre, respeitar as
obrigações de segredo da religião. Também não fazia perguntas, ou pelo menos dizia
que não fazia perguntas. Na verdade, ele mesmo diz em outros momentos, que gostava de
saber o como e não o porquê.
O fato é que as
fotos e o conhecimento da religião de Verger levam Théodore Monod, diretor de um
instituto de pesquisa francês sobre a África negra, a propor uma bolsa para Verger. Aos
poucos, o fotógrafo vai aceitando a condição de etnólogo - e registrando as
proximidades entre os cultos iorubas da Bahia e da África. Não apenas isso, Verger atua
como uma espécie de "pombo-correio" entre as duas tradições, distanciadas no
final do século 19, depois de dois séculos de intensa troca. (Haroldo Ceravolo
Sereza)
(© estadao.com.br)
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Com relação a este tema, saiba mais
(arquivo NordesteWeb)
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