Município que revelou Cordel do Fogo
Encantado também tem bandas de punk e hard core
Arcoverde, no Sertão pernambucano, cidade
conhecida nacionalmente por ter projetado um dos grupos mais originais da
contemporaneidade brasileira, o Cordel do Fogo Encantado, oculta uma cena musical capaz de
fazer inveja a qualquer roqueiro de carteirinha. O município, que tem pouco mais de 60
mil habitantes, abriga uma dezena de bandas de diversos estilos, organizadas dentro de uma
espécie de cooperativa, o Sistema Calango. Sem misturas com ritmos regionais ou sotaque
necessariamente sertanejo, os músicos não se intimidam com o conservadorismo da
sociedade interiorana e levantam com audácia as principais bandeiras da contracultura.
O movimento que fazemos aqui é de
resistência mesmo. O preconceito contra nós é enorme e sofremos muita perseguição
pelo nosso modo de nos vestir e de nos comportar, disse Rubens Alcides, aliás
Pastor, de 29 anos, vocalista dos Cobaias de Sisal. A banda participou, no fim de semana
passado, do I Lual Rave do Sertão, realizado no Bar do Soró, na Serra das Microondas, de
onde se tem uma vista privilegiada de Arcoverde. O evento serviu de vitrine para os grupos
da cidade e foi uma prova da capacidade de organização e subsistência autônoma da
cena.
Contrariamente ao que sugeria o nome, o
evento não foi marcado pela música eletrônica. Chamamos de rave porque a festa
devia durar até o amanhecer, mas acabou interrompida pela chuva, observou Fernando
Albuquerque, 26, um dos organizadores. Com dancing, palco, galeria de arte, studio de
tatuagem e um espaço denominado cantinho do amor, onde torchas foram espalhadas na
vegetação da caatinga, o que predominou mesmo foi a vocação punk da cidade.
A maioria das bandas tem influência
do punk, grunge e do hard core, mas não há sectarismo, comentou Pastor, que já
foi de igreja evangélica e hoje mudou de rebanho. Durante a rave, reggaeiros, skatistas e
metaleiros conviviam amigavelmente no mesmo recinto, coisa pouco comum no Recife.
Como somos poucos, temos que estar unidos para manter a força, cooperando uns com
os outros, explicou.
(© Jornal do Commercio-PE)