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25/01/2003
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Semana passada, em seu
novo estúdio montado na Serra de Maranguape, Manassés gravou três faixas para o novo
disco do francês Bernard Lavilliers, um dos cantores mais populares da Europa. As
gravações contaram com a participação do próprio Bernard e de Mino Cinelu, um mito
vivo da percussão que já acompanhou lendas como Miles Davis e Dizzy Gillespie.
Felipe Araújo
da Redação
Um olho d'água na fralda da serra acabou
colocando o município de Maranguape no mapa mundial da música. Há seis meses, depois da
morte de seu pai, o violonista Manassés decidiu sair de Fortaleza e ir morar com a mãe
num sítio localizado na Estrada do Pirapora, nos arredores da cidade serrana. Junto com a
mudança, levou também o seu estúdio de gravação, o ''Olho d'água'', que antes ficava
numa pequena vila na Aldeota e há três meses funciona no sopé da montanha.
Foi lá que, na última semana, o músico francês Bernard Lavilliers, um dos
artistas mais populares na Europa, com cinco milhões de discos vendidos em todo o mundo,
resolveu gravar três faixas de seu novo CD. Além do acompanhamento dos cearenses Ítalo
Almeida (acordeom), Aroldo Araújo (contrabaixo), Daniel Alencar (direção técnica) e do
próprio Manassés (que se dividiu entre viola de 12 cordas, violão, cavaquinho e
guitarra portuguesa), Lavilliers contou com a percussão do conterrâneo Mino Cinelu, um
dos maiores nomes do jazz e da chamada world music.
''Eu conheço o Manassés há vinte anos. Nós fomos apresentados quando ele
tocava numa boate nos arredores de Paris especializada em música brasileira. Desde então
nós nos tornamos grandes amigos e chegamos a gravar juntos algumas vezes'', explica
Lavilliers, numa pausa entre as gravações da última segunda-feira. Em 93, Bernard
gravou ''Solidão'' (melodia de Manassés que ganhou letra em francês) e, em 98, veio a
Fortaleza para gravar o violão do cearense em duas faixas de seu último CD.
Nessa nova passagem pelo
Ceará, Bernard está gravando ''Le chanson de marin'' (outra parceria com Manassés),
''Les main d'or'' (regravação de um antigo sucesso seu), e uma bossa nova ainda sem
nome. ''Na gravação de meus discos, viajo o mundo pesquisando, conhecendo artistas,
descobrindo novas sonoridades. E sempre procuro gravar com esses artistas em suas cidades,
em seus países, para sentir a vibração e a energia de cada local. É o caso de
Maranguape, onde o Manassés veio morar'', explica Lavilliers, que também vai gravar o
novo CD em Cabo Verde e no Congo.
''Já o Mino eu conheço há mais tempo. Ele devia ter uns 16 anos quando o
conheci em Paris ainda nos anos 70. Fiquei tão impressionado com a virtuose daquele jovem
no bongô que decidi convidá-lo a tocar comigo. Depois nós nos separamos e quando o
reencontrei em Nova York ele já estava tocando na banda do Miles Davis'', conta. ''O Mino
já foi várias vezes escolhido o melhor percussionista do mundo pelas revistas
especializadas. Ele já tocou com gente como Miles Davis, Dizzy Gillespie, Chick Corea,
Herbie Hancock, Pat Metheny, Sting, Paul Simon, Peter Gabriel e outros'', reforça
Manassés.
Dentro do estúdio, pilotando uma wavedrum, espécie de
pandeiro eletrônico, Mino não escuta os elogios mas mostra por que é tão visado.
Convidado por Lavilliers para a produção do disco, repassa a percussão de ''Les mains
d'or'' (um xote afrancesado costurado pelo acordeom de Italo), esbanjando técnica e
ritmo. ''O Mino é um grande percussionista, mas também é um contrabaixista, um
guitarrista e um cantor maravilhoso. Por isso o escolhi para produzir meu disco'', diz
Lavilliers. ''O Bernard só falou que eu seria o produtor desse disco ontem à noite, no
hotel'', Mino ri-se discreto na saída do estúdio.
''Eu já estive no Brasil algumas vezes. Com o Sting, vim na época da
campanha com o Raoni. Também participei de alguns festivais de jazz no Rio, já estive na
Bahia. No Ceará é a primeira vez'', explica. Em sua viagens pelo mundo, Mino conheceu e
já tocou com vários medalhões da MPB - de Naná Vasconcelos a Airto Moreira, passando
por Caetano Veloso, Hermeto Pascoal, Maria Bethânia, Baden Powell, Tom Jobim, Gilberto
Gil e Ivan Lins. ''A música do Manassés eu conheci através do Bernard. É uma música
muito bonita, muito delicada e um pouco diferente do que eu conhecia em termos de música
brasileira''.
(© NoOlhar.com.br)
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