Parte da obra do curta-metragista
pernambucano ganhará edição em formato digital. O disco pode ser vendido nas bancas de
revista a preços camaradas
JAILTON MARTINS
O filósofo alemão Walter Benjamin escreveu em seu famoso texto A
Obra de Arte na Era da Reprodutibilidade Técnica que a reprodução de uma obra de
arte em série pode ser uma coisa benéfica pois possibilita as pessoas terem acesso à
obra e ainda ajuda a desenvolver nelas um outro olhar sobre a realidade daquela obra. A
reprodução de parte da filmografia do cineasta e crítico de cinema pernambucano
Fernando Spencer em DVD pode ser vista sob esse ponto de vista benjaminiano. Alguns filmes
da extensa lista de curta-metragens de Spencer serão transferidos para a bolachinha
prateada e poderão estar disponíveis nas bancas de revista dentro em breve.
A idéia partiu de comum acordo entre Spencer, dono de 16 prêmios
nacionais em festivais de cinema, e o produtor carioca Guilherme Whitaker, da Segunda
Mostra do Filme Livre, que vai homenagea o cineasta pernambucano e o curta-metragista
carioca Eduardo Nunes, de 4 a 16 de fevereiro, no Rio de Janeiro (ver matéria nesta
página).
Spencer me sugeriu a idéia e eu me propus a fazê-la, afirma
Whitaker. Vou produzir um DVD matriz e dar de presente para ele reproduzir como
quiser, continua o produtor. O produtor aguardando Spencer chegar no Rio, no
dia 4 de fevereiro, para selecionar com ele quais os filmes que poderão ser transferidos
para o DVD.
Você não pode esperar que apareça uma entidade que tome a
iniciativa de fazer um projeto como este, diz Fernando Spencer. Além do mais,
é uma saída para evitar os efeitos do tempo sobre a minha obra, prossegue. A
idéia do curta-metragista pernambucano é reproduzir o DVD para que ele esteja
disponível nas bancas de revista a um preço acessível.
Apenas os filmes que estiverem telecinados é que poderão passar pelo
processo de reprodução para virar DVD. Os filmes que estiverem telecinados são
gravados em betacam, por exemplo, em seguida são transferidos para a memória de um
micro, de onde serão copiados para o formato de DVD, ensina Whitaker, explicando o
passo-a-passo do processo.
OS INDICADOS De oito a dez curtas em 16mm poderão passar
pelo processo de reprodução para DVD. Spencer já tem uma lista com pelo menos oito
filmes, para mostrar a Whitaker assim que desembarcar no Rio, mês que vem.
Estrelas de Celulóide, História de Amor em 16 Quadros por Segundo,
Santa do Maracatu, Capiba, Ontem, Hoje e Sempre, Evocações de Nelson Ferreira,
Trajetória do Frevo, O Último Bolero no Recife, e Jota Soares, Um Pioneiro no Cinema
estão entre os candidatos de Spencer à digitalização. O DVD deve ter duração máxima
de 90 minutos.
A maioria da seleção recebeu prêmios nacionais e no exterior. Estrelas
de Celulóide, por exemplo, ganhou como melhor curta em Brasília, em 1984. O
documentário História de Amor em 16 Quadros por Segundo, parceria com Amim
Stepple, foi menção honrosa em Brasília e ganhou prêmios nos festivais de Salvador e
Recife. Já Evocações de Nelson Ferreira, parceira com Flávio Rodrigues, crusou
o Atlântico e venceu um festival de curtas em Portugal.
Agora, resta esperar o retorno de Spencer do Rio de Janeiro, na segunda
semana de fevereiro, quando o cineasta deve estar de posse da matriz do DVD, para ver o
projeto tomar corpo. Como diria Benjamin, a reprodução de uma obra de arte pode até
banalizar uma obra, tirando-lhe a sua aura original, mas abre espaços sem precedentes
para democratizá-la. E isso é o que importa.
(© Jornal do Commercio-PE)
Cineasta será homenageado no Rio de Janeiro
Será no calor dos debates e
das sessões de cinema da 2ª Mostra do Filme Livre, no Rio de Janeiro, que Fernando
Spencer vai articular a produção do seu primeiro DVD. O evento, que reúne filmes
realizados em qualquer formato, duração ou era, escolheu Spencer como homenageado da
edição deste ano.
A Mostra entrará em cartaz no Instituto Cultural Banco do Brasil, no Rio,
de 4 a 16 de fevereiro. Duzentos e cinqüenta filmes de todo o Brasil estão inscritos no
festival, entre curtas e longas, de todos os formatos, do VHS a 35mm, passando pelo Super8
e DVD.
Com o objetivo de esboçar um panorama do audiovisual experimental
independente no País, a mostra não é competitiva e se volta apenas ao debate e à
reflexão sobre a produção nacional.
Para lembrar a carreira de Spencer, que ficará na mostra nos dias 4, 5 e
6 de fevereiro, está programada uma retrospectiva da filmografia do diretor, seguida de
debate com a presença dele ao final das sessões. Além do pernambucano, o jovem diretor
e produtor de curtas carioca Eduardo Nunes será homenageado na Mostra, com uma sessão
retrospectiva da sua obra completa, também seguida de debate.
Haverá ainda a exibição de longas inéditos no circuito comercial
brasileiro, como Olho da Rua, de Sérgio Bloch, Soluços e Soluções, de
Edu Filestoque e Nereu Cerdeira, O Rei do Samba, de José Sette, Samba Canção,
de Rafael Conde, Estética da Solidão e Filme Estrangeiro, ambos de Luiz e
Ricardo Pretti.
Mais informações sobre o festival, sobre os filmes participantes, a
forma de inscrição nas oficinas ou como fazer para exibir trabalhos no evento vale
consultar o site abaixo indicado. (J.M.).
(© Jornal do Commercio)