Revista de quadrinhos alternativos de PE
aproveita os bons ventos e nacionaliza elenco e distribuição
DIEGO ASSIS
DA REPORTAGEM LOCAL
Nonsense. "Ragú", o
título da revista, não quer dizer nada. História em quadrinhos, no sentido mais
ortodoxo do termo, também não é o que o leitor vai encontrar aqui. Pouco importa, para
os pernambucanos Lin e Mascaro sua nova "antologia de quadrinhos brasileiros"
tem tudo para vingar.
"Essa é a revista que
sempre quisemos ver nas bancas. Uma coisa mais experimental para aqueles que já conhecem
e curtem uma linha mais autoral de histórias em quadrinhos", defende Mascaro, 28,
idealizador da "Ragú" e fã dos quadrinhos alternativos de Daniel Clowes e cia.
"Mandamos os números anteriores para a Fantagraphics [editora americana de HQs
alternativas] e fomos bastante elogiados pelo nosso design."
"Números
anteriores"?! Sim, a revista, que agora chega ao número quatro e comemora um
contrato de distribuição nacional com a editora Via Lettera, já vinha circulando desde
2000 em Pernambuco e, no ano passado, recebera o HQ Mix de melhor publicação
independente de 2001.
A conquista trouxe outras
novidades, mais palpáveis ainda: mudança no formato, adição de cores e de número de
páginas, preço (bem) mais salgado e a quebra da antiga "panelinha de barro",
como coloca Mascaro. Antes tocada apenas por desenhistas e roteiristas da região
Nordeste, a quarta edição da "Ragú" conta agora com artistas de todo o país,
dentre eles os mineiros Lelis e Cau, os paulistas Maxx e Bueno, o goiano Galvão, além do
cubano radicado na Bahia Simanca.
Duas homenagens completam a
publicação de 80 páginas, financiada pelo Sistema de Incentivo da Cultura, da
Prefeitura do Recife. A primeira delas, póstuma, ao cartunista Carlos Estevão, lembrado
por suas seções de humor na revista "O Cruzeiro", e a segunda, a Abelardo da
Hora, artista regional popular de 78 anos, querido no circuito das artes plásticas
pernambucanas.
Mais do mesmo
A "Ragú" não
está sozinha. Da mesma Via Lettera e também apostando no potencial do quadrinho
underground nacional está o álbum trimestral "Front", que há pelo menos cinco
edições coloca nas livrarias novos trabalhos de Orlando, Kipper, Samuel Casal, Marcelo
D'Salete, entre outros.
Aos trancos, a igualmente
premiada e esteticamente impecável "Front" tem conseguido se sustentar, mas
não deixa de suscitar uma antiga discussão: onde foram parar os roteiros de fôlego do
quadrinho nacional? Cadê a graphic novel tupiniquim?
Com o mesmo formato
conta-gotas, a "Ragú" ainda vai ficar devendo essa resposta...
RAGÚ - ANTOLOGIA DE QUADRINHOS
BRASILEIROS. Editora: Via Lettera. Preço: R$ 18 (80 págs.).
(© Folha de S.
Paulo)