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O descompasso do FREVO

28/01/2003

O Galo da Madrugada, pelas ruas do Recife

 

por JOSÉ TELES

   Houve uma época em que os frevos eram levados em partituras para serem gravados no Rio de Janeiro, por orquestras regidas por músicos renomados como Pixinguinha. Os resultados raramente agradavam aos pernambucanos. Geniais em sambas, valsas ou choros, os músicos do sudeste não conseguiam apreender as peculiaridades do frevo, tratado por eles como “marcha do Norte”. O frevo não é só uma música que nenhuma terra tem, como só se dá bem com músicos de sua terra.

   Entrevistamos músicos que falam a linguagem do frevo com perfeição. Os maestros José Menezes, Clóvis Pereira (foto à esquerda), Guedes Peixoto (à direita), Edson Rodrigues, Duda, todos já consagrados em sua profissão, e Spok, que, aos 32 anos, é um dos poucos maestros de frevo de sua geração. O mais jovem dos maestros da velha geração, Edson Rodrigues, está com 60 anos. O mais velho, José Menezes, com 79. Sem o aprendizado de suas regras, pode ser que o idioma dominado por eles esteja fadado ao desaparecimento. Tem futuro o frevo? Começamos essa reportagem com as opiniões dos maestros Clóvis Pereira, Guedes Peixoto e Spok.

(© Jornal do Commercio)


Frevo segue o caminho do folclore

Clóvis Pereira teme que o frevo seja, daqui a alguns anos, reduzido a uma representação folclórica, devido ao não surgimento de novos maestros

por JOSÉ TELES

   Clóvis Pereira veio de Caruaru para o Recife, no final dos anos 40, para fazer o curso científico. Em 1950, foi contratado, como gaitista, pela Rádio Jornal do Commercio (atual Rádio Jornal), e descobriu que queria mesmo era ser músico. Sua iniciação no frevo aconteceu nos programas carnavalescos da emissora. Com a saída do maestro Nozinho da Orquestra Paraguary, ele passou a regê-la: “Claro que estudei também, tive lições com Guerra Peixe, mas aprendi a reger com a prática”, conta ele. A título de curiosidade. É de Clóvis Pereira o arranjo da gravação original de Micróbio do Frevo, com Jackson do Pandeiro, seu colega na Paraguary.

   Em meados dos anos 50, ele passou a trabalhar também para a gravadora Rozenblit. Fez de bossa nova (foi um dos pioneiros em disco de bn instrumental) a boleros (com o cubano Bievenido Granda). Clóvis Pereira animou carnavais de clube entre 1956 e 1990. Hoje em dia, não dirige mais orquestras. Também estão fora de catálogo os discos que lançou pela Rozenblit, ou pela Barsa, esquecida gravadora que existiu no Recife nos anos 50. Um dos álbuns que Clóvis Pereira gravou pela Barsa, Ritmos Alucinantes, de 1956, traz a estréia em disco de Hermeto Pascoal e de Heraldo do Monte.

   O fato de não dirigir orquestras não implica que tenha aposentado-se ou desistido da música. Entre seus projetos, está montar um estúdio. Quanto ao frevo, o maestro não lhe preconiza um futuro auspicioso. “Às vezes eu encontro Duda e ele me pergunta: ‘quando a gente se for, quem continuará a fazer frevo?’” Para Clóvis Pereira, o destino incerto desta que já foi a música mais popular de Pernambuco é uma decorrência natural das mudanças da sociedade. E as mudanças começaram já no início dos anos 60, quando o romantismo dos frevos-canção deram lugar às expressões populares, ao pitoresco. “Carnaval era uma época em que ou se acabava um namoro ou se começava outro. As músicas passavam uma nostalgia tal que o folião ficava esperando o próximo Carnaval, para começar um novo namoro, reatar o que acabou. Desaparecendo esta temática, quem trabalhava com isto ficou para trás. Capiba fez muitas músicas lindas, mas quando acabou o romantismo, acabou também para ele. Dizem que ele não se atualizou, isto porque viveu mais do que os outros compositores.”

   Assim como Valdemar Oliveira observou em Frevo, Capoeira & Passo, Clóvis Pereira também é de opinião de que o frevo não não se dá bem fora de sua terra. “É uma música de caráter agressivo. Surgiu nas ruas, com as bandas de músicas, então, tinha que se tocar forte para poder ser ouvido. Precisava destas frases agressivas. Tem que se tocar agredindo mesmo”, explica, dando como exemplo Vassourinhas, cuja origem é uma singela marchinha portuguesa, que ganhou agressividade quando transposta para o compasso do frevo.

   “A dificuldade que os músicos de outros Estados têm para tocar frevo, não tem a ver com notas, está na interpretação. Fui tocar no Rio Grande do Norte, era uma peça erudita minha, que terminava com um frevo. Quando começaram, eu perguntei pelos metais. Acontece que um trompetista era da Paraíba, o outro de Pernambuco. O problema é que eles estavam há muito tempo tocando outro tipo de música, perderam o referencial”,

   No escritório do seu apartamento, em Boa Viagem, cercado de discos, computador, aparelho de som, livros de música (Clóvis Pereira é um dos verbetes do importante dicionário editado na Inglaterra, International Who’s Who in MusicQuem É quem na Música Internacional) e vídeos, o maestro faz uma última observação sobre a música à qual dedicou grande parte de sua vida. “Tenho impressão que o frevo, não agora, mas daqui a algum tempo, vai virar peça de folclore.”

(© Jornal do Commercio)


Guedes Peixoto desafia Governo e Prefeitura a deixar maestros fazerem o “melhor Carnaval”

   O maestro Guedes Peixoto, na década passada, esteve várias vezes nas páginas dos jornais por um assunto que pouco tem a ver com sua profissão. Como presidente da Ordem dos Músicos em Pernambuco. Sua exigência da carteira da ordem para integrantes de bandas da cena mangue, gerou polêmicas e protestos. Mas, além de ser o bicho-papão para músicos sem registro na Ordem, ele ostenta uma longa folha de serviços prestados à música, tanto em Pernambuco quanto no Sudeste. “Eu tenho 70 anos, aos 15 anos já era músico. Comecei em banda (nota da redação: foi da lendária Saboeira, de Goiana), como a maioria dos músicos. Isto acontecia porque não havia escolas para formação desses profissionais. Aqui no Recife, existia o Conservatório Pernambucano de Música, que o Governo quer acabar inconscientemente”, aproveita para o protesto.

   Para ele, frevo não é privilégio de maestros pernambucanos. “Não é verdade. Pernambuco foi exportador, era o dono do frevo, mas no Carnaval de Alagoas sempre teve boas orquestras de frevo. Na paraíba, era um duelo, tinha também boas orquestras, se bem que lá o básico fosse o caboclinho.” No entanto, Guedes Peixoto não alimenta otimismo em relação ao futuro do frevo. “Inexistem o mercado de trabalho, grandes orquestras, capacidade de pagá-las. A prefeitura entra aí como a vilã da história, oferecendo, com outros sabidos, música baiana de graça, esnobando a capacidade do povo pernambucano. Então, acabou-se o frevo, porque as rádios só tocam se pagarem”, lastima.

   O último Carnaval que Guedes Peixoto animou com sua orquestra foi há 19 anos. Ele ressalta que parou por decisão própria, aproveitando para mais uma estocada na invasão da música axé: “Só toco para ganhar dinheiro e com músico bom. Houve oportunidade de bandas baianas renderem dois, três milhões. Eles levam 50%, a outra metade fica com o sabido intermediador. Enquanto o dinheiro pago pela prefeitura às orquestras é irrisório. Às vezes passam seis, oito meses para pagar. Mas Alceu Valença e os baianos já saem na quarta-feira de cinzas com o dinheiro no bolso, isso descaracterizou o Carnaval de Pernambuco. Graças a ganância dos empresários, e a inércia dos administradores públicos, o Carnaval de pernambuco ficou como está”, continua.

   Paradoxalmente, dada a sua intransigência quanto à carteira da Ordem para músicos profissionais, Guedes Peixoto, considera que o que mais o frevo exige do maestro é a prática em executá-lo. “Na época fastigiosa do Carnaval, você tinha a orquestra de Luís Gordo, de Manoel do Pandeiro, que não sabiam nada de música e dirigiam orquestras, tinham vivência. Nem isto os músicos têm mais. Tem uma banda de música da polícia militar, somente para trocar dobrado. A banda do exército, com 60 homens, está lá só para tocar heasteamento da bandeira, continência. A própria orquestra da prefeitura, não é banda de música, é uma banda de concerto.

   O maestro acredita também que o frevo ressente-se da falta, na mídia, de defensores da música, iguais aos que existiam em outros tempos, a exemplo de Mário Melo e Valdemar de Oliveira. Mas o leit motiv de sua catilinária são os governantes, independente de coloração partidária. “A música pernambucana está sendo desmoralizada por força dos Governos Estadual e Municipal, por não terem competência, não terem assessores, que lhes digam o que fazer corretamente. Dêem a nós, músicos, regentes, mestres de orquestras, como queiram chamar, a condição de darmos uma feitura para o reaparecimento do frevo. Eu desafio: se fizermos um Carnaval autêntico pernambucano ali no Marco Zero, quero ver se não vai lotar, se o povo não vai se esbaldar em vez de ficar, me permita a expressão, naquela de balançar a bundinha dos baianos. Tenho dito.” (J.T.)

(© Jornal do Commercio)


Spok é uma esperança para novas gerações

   Spok é um dos poucos músicos sua geração a dedicar-se ao frevo. Com a Orquestra de Frevo do Recife ele tem animado carnavais, gravado discos de cantores como Alceu Valença ou Fagner, e acompanhado Antônio Nóbrega em turnês. Spok iniciou a carreira tocando na banda de música da Assembléia de Deus de Abreu e Lima, aprendendo o bê-a-bá com o maestro que a dirigia, Policarpo Lira Filho. “Fui no ensaio da banda por causa de um amigo, acabei querendo aprender sax”, recorda.

   Frevo, Spok diz que entrou para valer em sua vida quando conheceu Duda, Dimas Sedícias e Edson Rodrigues. “Eles não me ensinaram formalmente, eu aprendi com a grade, um termo usado por músicos. Ali estão todos os elementos que eles escreveram para música ser executada. Então, eu levava estas grades para casa e aprendia cada item que estava ali anotado.”

   Modesto, Spok conta que vieram elogiá-lo por um arranjo do Hino de Pernambuco, gravado em um CD encomendado pelo Governo do Estado. “Eu disse que aquele arranjo não era meu, era de Duda. Aprendi tanto com ele, que me parece que todo arranjo que faço é de Duda”, revela.

   A modéstia não para por aí. Spok não se vê como único talento de arranjador e orquestrador de frevos surgido nos últimos dez anos. Ele cita dois nomes que admira: Adelmo Apolônio, assistente da Banda Municipal, e Fábio César, que rege uma orquestra de frevos na Várzea. “Eu admiro os maestros que citei, que me influenciaram, mas não se pode esquecer do Maestro Nunes, muito bom em frevo de rua, mas pouco reconhecido. Eu lembraria ainda Mário Mateus e Ademir Araújo”. Mesmo assim, admite que, hoje em dia, não está fácil para orquestras. “Eu trabalho com 18 músicos, não é barato. Então, vem um conjunto com teclados e diminui muito os custos, isto é um fato.”

   Falsa modéstia, no entanto, não é com Spok. Ele concorda que o frevo é uma música de execução difícil para quem não é pernambucano, ou que não tenha morado no Estado. “Para entender o frevo, tem que ser daqui, ou estar aqui por muito tempo. Tenho levado arranjos meus para outras cidade e sinto a dificuldade que os músicos têm para interpretar. Outro dia, eu estava no Rio com Vitor Biglione e Léo Gandelman, então, Wagner Tiso tocou Duda no Frevo. Eles diziam que dava para tocar numa boa. Porém, ele não tocou, apenas executou, faltou o sotaque”.

(© Jornal do Commercio)


O adeus do último frevo-canção

   José Menezes, 79 anos, Edson Rodrigues, 61, José Urcisino, conhecido como maestro Duda, 67, são três referências musicais pernambucanas. Embora tenham feito outros tipos de música, eles são mais conhecidos por fazer frevo. Com eles, o Jornal do Commercio encerra a série de reportagens na qual se lembrou do passado, discutiu-se o presente, e fez-se conjecturas sobre o futuro do frevo. Na matéria anterior, publicamos depoimentos dos maestros Clóvis Pereira, Guedes Peixoto e Spok, apontado como uma das poucas revelações da nova geração, um jovem maestro que entende a linguagem do frevo.

   “Somos o País da vaga lembrança, não se pensa aqui em nada a longo prazo. As pessoas que trabalham com cultura seguem modismos, quem é que está preocupado com o frevo?” Quem faz a pergunta é Edson Rodrigues. Músico profissional desde 1958, quando ingressou (com 16 anos) na Banda Cidade do Recife, professor do Conservatório Pernambucano de Música, formado em jornalismo. Ele não apenas arranja e orquestra, como também é um estudioso do frevo (tema de seu mestrado). Para Rodrigues, a salvação, não apenas do frevo, mas de outras manifestações culturais, tem uma saída: as escolas. “É preciso repensar o currículo escolar. Não se ensina cultura pernambucana nas escolas. Só assim, haveria a manutenção deste caudal cultural que temos. Tem que começar com as crianças, é preciso que se ame as coisas da gente muito cedo.”

   Ao contrário de muitos defensores do frevo, Edson Rodrigues não é a favor de que se elimine a música baiana do Carnaval pernambucano: “Somos um País muito grande, há lugar para todos. Esta conversa me faz lembrar Nelson Ferreira. Numa época em que se temia que o samba poderia acabar com o frevo, foram perguntar a opinião de Nelson, e ele então respondeu que não era contra o samba, era a favor do frevo.”

   Edson Rodrigues concorda que a falta de renovação em regentes que entendam o ‘idioma’ é a grande ameaça à sobrevivência do frevo. Ou, pelo menos, do frevo que requer apuro dos executantes. “Os frevos que Zumba, falecido em 1974, fazia exigiam técnica dos músicos. Hoje, o que se toca na rua, no Carnaval, são frevos como os que o maestro Nunes faz. É um frevo sem variações, sem trabalho de colcheias, de semimínimas. Não precisa entender muito de frevo para tocar. Por exemplo, É de perder os sapatos, de Nunes, deveria ser chamado de Meu primeiro frevo”, ironiza.

   Saxofonista, Edson Rodrigues já tocou em bandas de jazz, mas ressalta que não tocava jazz como os americanos, assim como os pernambucanos não fazem samba feito os cariocas, que por sua vez jamais fizeram frevos como os pernambucanos. Em sua opinião, tem diversos motivos a estagnação do frevo e a conseqüente falta de renovação de maestros. “A priori, o frevo tem um problema, requer vivência. Cresci ouvindo Duda, Nelson Ferreira. Nem acho que saber música é fundamental. A gente teve aqui um músico de frevo, Lídio Macacão, que tocava de ouvido. Então, esta vivência não está existindo. A meu ver, um fator fundamental foi as emissoras de TV e rádio terem acabado com suas orquestras. Então, o pessoal foi para onde dava mais dinheiro. No interior, em vez de entrar nas bandas, os garotos, influenciados pelos Beatles, trocaram os instrumentos de sopro pela guitarra. Hoje, quase não há bandinhas nas cidades do interior”.

   Ele termina a conversa com uma provocação: “Curioso é que a música para Carnaval está desaparecendo e, ao mesmo tempo, o Carnaval está cada vez maior”.

(© Jornal do Commercio)


Maestro anuncia fim da música de Carnaval

   José Menezes é o decano dos maestros pernambucanos. Nas última seis décadas, ele esteve envolvido em praticamente todos os episódios importantes da música local. Em 1953, por exemplo, Boneca, parceria com Aldemar Paiva, foi escolhida para ser o primeiro lançamento da que se tornaria a Fábrica de Discos Rozenblit. “No outro lado, entrou Come e Dorme, de Nelson Ferreira. Ele, no começo, não se entusiasmou, achou que não daria certo, mas depois trabalhou até o final da vida com a Rozenblit”, historia.

   Menezes lembra que, até o surgimento da Rozenblit, os frevos levados para ser gravados no Rio jamais eram fiéis às partituras que os maestros pernambucanos escreviam. “Tinham boas orquestras, como a de Zacarias, mas ficavam uma desgraça, principalmente o ritmo, não era autêntico. Com a Mocambo, manteve-se a autenticidade, comigo, Nelson, Clóvis, Duda”.

   Ele acha que a falta de renovação dos maestros e de músicos dedicados ao frevo deve-se a mudança drástica nas programações das rádios. “Era a grande escola. Quem fez nome no Carnaval de Pernambuco saiu das rádios. Elas mantinham orquestras que já começavam a tocar músicas de Carnaval em julho”. Para ele, existem jovens procurando inovar por inovar. “É preciso inovar, não se pode ficar o tempo todo parado. Mas o frevo tem que ser preservado na sua estrutura, no seu ritmo. Teve um frevo diferente, o de Jackson do Pandeiro. Ele era muito bom, não apenas como cantava, mas como se escreviam frevos para ele. Outro dia, ouvi uma cantora baiana, acho que Ivete Sangallo, cantando uma música bonita, uma coisa muito boa, mas aquilo nunca foi frevo.”

   Autor de vários clássicos do frevo, tanto de rua quanto canção (Freio a óleo, Terceiro dia), com quase 80 anos (completa em abril), ele diz que não está aposentado da música. Continua compondo, mas o que faz vai ficando armazenado no computador (no qual também escreve as partituras). Não vê porquê entregar a cantores para gravar, se as rádios não tocam. Conhecido por ser bom de papo, Menezes mostra-se jovial até quando comenta a falta de perspectiva do frevo, ou pelo menos do frevo como ele conheceu e ao qual dedicou tantos anos. “O pessoal que sabe fazer está morrendo. Só tem eu, Clóvis, Edson Rodrigues, Duda, Guedes. Desta gente nova, tem Spok, que faz uns arranjos maravilhosos, mas não tem vivência, não teve uma escola, como as das grandes orquestras de rádio.”

   Ele pára e recorda alguns dos 25 frevos-canção seus (vários com parceiros) que fizeram sucesso, até surgirem os baianos, os novos pernambucanos. “Começaram a fazer frevos-canção, músicas lindas, mas ninguém cantava toda, por causa das letras longas. Frevo-canção são duas quadrinhas e um refrão”, diz isto e passa a cantar um frevo inédito. Não mostra melancolia ao saber que este dificilmente será gravado ou tocado nas rádios: “Mas não é só o frevo, é a música para Carnaval que está acabando”.

(© Jornal do Commercio)


Falta sangue para surgir novos maestros

Aos 68 anos, 60 deles dedicados ao frevo, o maestro Duda afirma que é preciso ser pernambucano e ter esse ritmo no sangue para ser competente no assunto

JOSÉ TELES

   José Ursicino da Silva, o maestro Duda, perdeu a conta de quantos discos fez e com quem gravou. sabe que isto pode render dividendos ao ego (recebeu uma miríade de prêmios e homenagens), mas pouco dinheiro na conta. “Dos maestros de frevo, eu fui o que mais gravou. Gravei mais até do que Nelson Ferreira. Meu último recebimento da União Brasileira dos Compositores foi R$1,47, claro que nem fui buscar.” Assim como não poupa talento quando escreve seus arranjos (que lhe renderam a indicação como um dos dez maiores arranjadores do século), também não poupa o verbo ao tecer suas críticas: “Estou ameaçado de não fazer o Carnaval deste ano, da minha orquestra ficar parada, porque quem tem prestígio no Carnaval pernambucano é Jorge Ben Jor, Chico César, Elza Soares, Zeca Baleiro, que não têm nada a ver com Pernambuco. enquanto os que têm a ver, eu, Michilles, Alceu ficamos de fora?”

   Ele compôs o primeiro frevo, Furacão, aos 12 anos, em Goiana, onde nasceu e começou a vida de músico. Aos 15, estava na Jazz Band Acadêmica e, pouco tempo depois, na Rádio Jornal do Commercio. Sua intimidade com o frevo tem mais de 60 anos (completa 68 este ano). Confessa-se um autodidata, embora tenha feito faculdade de música, estudado com o padre Jaime Diniz, sido diretor musical da gravadora Rozenblit por muitos anos. O frevo corre nas suas veias, mas isto não impede que ele veja com realismo o que acontece com a que já foi a mais popular manifestação musical pernambucana. “Menezes tá fazendo oitenta. Tem eu, Guedes, no ostracismo, Edson, Clovis, Mario Mateus, que foi mais um bandleader. Se a gente morrer acabou. Somos os últimos moicanos”.

   Spok também é citado por Duda como única revelação neste campo. “Novo maestro não tem não. Tem Spok, que já vem de muito tempo. Foi aluno meu desde pequeno. Os arranjos que ele faz, aprendeu comigo. Spok é um menino de futuro, se espelha em mim e em Clóvis, ele pega um arranjo meu e vai estudar.” Duda tampouco é de falsa modéstia: “Quando Miúcha foi gravar o frevo do Segura a coisa, foi me procurar na minha casa, para que eu fizesse o arranjo. Foi Chico Buarque, o irmão dela, quem aconselhou: ‘se quiser cantar frevo tem que trabalhar com Duda’”, conta.

   Outro nome famoso da MPB a procurar Duda foi Edu Lobo, filho do pernambucano Fernando Lobo, com curso de arranjo e orquestração em Los angeles, mas sem a necessária vivência para fazer frevo autêntico. “Edu Lobo não me conhecia, quando fiz os arranjos de O cordão da saideira, para ele gravar no disco produzido por Carlos Fernando, ele ficou querendo me conhecer. Queria saber como fiz os arranjos para a música dele se tornar um frevo”, jacta-se.

   Mais uma vez, o descaso das autoridades responsáveis pela política cultural é apontado como vilão no processo de estagnação do frevo. “O único cara que prestigiou foi Raul Henry, que viveu o Carnaval desde menino. Cresceu ali na Concórdia, com o frevo, o Saberé, realmente gosta. Com este PT aí, eles só convidam os deles.” Duda também aponta a dificuldade em se importar maestros, pela característica singular do frevo. “Para surgirem novos músicos, maestros, falta o sangue. E não é só maestro, são os músicos. Quem não é pernambucano não toca frevo. Eu já cheguei em lugar com orquestras maravilhosas, aí, quando ia ensaiar o frevo, o primeiro a se levantar era o baterista. Isto aconteceu em várias cidades, Londrina, São Luís do Maranhão”.

   A decadência do Carnaval de clube foi mais uma pá de cal na renovação do frevo, concorda Duda. “Os principais clubes tinham duas orquestras. Toquei 17 anos seguidos no Internacional, já vinha de oito no Sport. Antigamente, o que os maestros ganhavam no Carnaval dava para passar o ano todo, Geraldo Freire vivia dizendo isso. Passei muito tempo tocando baile, de vez em quando toco. Hoje em dia, eu tirei o time de campo porque não dá mais pé. Antigamente, você chegava num clube e tinha piano, serviço de som, isso tudo acabou. Qual é o clube que ainda tem piano?”, pergunta, com resposta pronta.

   Duda não esconde a mágoa de ter sido demitido da Banda Cidade do Recife. “A banda estava enterrada e eu levantei. Como o cargo era de confiança, pediram o cargo a mim, porque eu estava com Roberto Magalhães. Era para estar com quem, se o prefeito era ele? Eu não estou passando fome, pela categoria que eu tenho, não me falta trabalho. Em junho, fui o único músico pernambucano num festival de música de inverno em Petrópolis e Nova Friburgo. Para onde vou, levo minha música, que não é só frevo, é música nordestina, frevo, baião, maracatu, faço muita coisa. Daqui a 50 anos, minha música será considerada erudita.”

(© Jornal do Commercio)


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