João Bernardo Caldeira
Repórter do JB Online
Em 2001, tudo era lindo para o Cordel do
Fogo Encantado, ano em que a banda de Arcoverde, interior de Pernambuco, colocou na praça
seu primeiro CD, apresentou-se no finado Free Jazz e conquistou público e crítica
misturando som, poesia e performances circenses. Mas o título do segundo disco, O
palhaço do circo sem futuro, que terá show de lançamento no Teatro Rival, amanhã,
exibe marcas de uma mudança: depois de rodar mundo, o olhar agora contém um pouco de
angústia e temor.
- Na primeira história que
contamos, as músicas foram compostas quando ainda morávamos em Arcoverde, de onde nunca
tínhamos saído. Esse trabalho traz a convivência que tivemos em Recife e em cidades do
exterior, por isso, há um olhar de conflito, de impaciência - explica Lirinha, vocalista
e letrista do grupo.
Ainda que a percussão do
Cordel continue firme, sem recorrer a instrumentos como baixo, bateria e guitarra, um tom
pessimista e árido tomou conta da sonoridade da banda.
- A geração de nossos pais
viveu uma situação de sonhos e esperanças bem diferente da nossa. E o que herdamos de
presente foi uma dificuldade sem tamanho, essa globalização adversa e um futuro
extremamente nebuloso - desabafa.
Na faixa-título, que já
vem sendo tocada em shows recentes dos pernambucanos por aqui, Lirinha expõe a ferida:
''Sou palhaço do circo sem futuro/ um sorriso pintado a noite inteira/ o cinema do fogo/
numa tarde embalada de poeira/ circo pegando fogo''.
A grandiloqüência de
Lirinha acabou rendendo para o conjunto um convite para atuar no mais novo filme de Cacá
Diegues, Deus é brasileiro, que estréia na próxima sexta-feira. O filme traz uma
música do Cordel, Os anjos caídos, cantada pelos próprios numa cena com Antônio
Fagundes, que interpreta Deus.
- A música manda uma
mensagem para Deus, que reflete sobre seus versos - diz o vocalista.
(© JB Online)