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Obra de Cícero Dias volta a dar ar da graça

07/02/2003

O pintor pernambucano Cicero Dias, que morreu em Paris dia 28: amizade e influência de mestres como Matisse e Pablo Picasso, “seu compadre”

 
 

Exposição em São Paulo, mostra em Curitiba e documentário recuperam trabalho do artista modernista

CASSIANO ELEK MACHADO
DA REPORTAGEM LOCAL

   Aqui e ali a obra de Cícero Dias volta a dar o ar da graça pelo Brasil. Pouco mais de uma semana depois da morte do artista modernista, que tinha 95 anos e morava em Paris, seus trabalhos começam a retornar às galerias e se aproximam também do cinema.

   A homenagem ao pernambucano, enterrado na segunda no cemitério de Montparnasse, na capital francesa, começou pelo Sul.

   Um dia depois da morte do artista, a galeria Simões de Assis, de Curitiba, que representa sua obra no Brasil, encheu três de suas salas com pinturas que Dias fez desde os anos 20 até os 70.

   Agora, é a vez de São Paulo. A cidade, que já tinha à disposição o trabalho mais emblemático do artista, o painel "Eu Vi o Mundo... Ele Começava no Recife", atualmente na exposição "Da Antropofagia a Brasília", na Faap, recebe hoje uma mostra com 26 gravuras do pintor.

   "Memória Viva - A Gravura de Cícero Dias", que a Portal Galeria exibe até o dia 19 de abril, reúne impressões recentes de trabalhos que Cícero fez por cinco décadas.

   O período mais rico de sua produção, os anos 20, são pouco representados. Esses tempos de lirismo e namoro com o que se classificou como surrealismo estão recuperados em apenas duas gravuras. O eixo da exposição é uma fase menos valorizada da obra de Dias, seus anos 60 e 70. De Paris, onde se radicou em 1937, ele voltava a imaginar os cenários de seu querido Pernambuco.

   Com cores um pouco mais fortes e sem a leveza das primeiras obras, o artista mostra que suas experiências pioneiras entre brasileiros com a arte abstrata geométrica, nos anos 40 e 50, tornara as formas de sua pintura mais volumosas e definidas. De mais bonito fica a expressão da saudade do Brasil quente, que Dias procurava todos os anos.

   Foi em seu último verão pernambucano, em 2002, por sinal, que ganhou corpo outra das homenagens que devem aparecer em breve ao pintor.

   Na visita que fez a Recife, o artista de então 94 anos conversou durante dez dias com o cineasta Mário Carneiro e sua câmera. Amigo de Dias desde os anos 40, esse que é tido como um dos maiores nomes da fotografia na história do cinema brasileiro preparava um documentário sobre o artista.

   "Aqui Começa o Recife" (título inspirado no painel "Eu Vi o Mundo..."), de 40 minutos, agora está pronto. Segundo o cineasta (que faz palestra em São Paulo no próximo dia 18, no CCBB), o filme deve ser exibido pela primeira vez em março. "Cícero chegou a ver a versão em vídeo e estava muito empolgado", diz Carneiro.


MEMÓRIA VIVA - A GRAVURA DE CÍCERO DIAS. Onde: Portal Galeria (r. Estados Unidos, 2.241 (tel. 0/xx/11/ 3081-0339). Quando: hoje, a partir das 10h; de segunda a sexta, das 10h às 20h; sábado, das 10h às 13h; até 19 de abril. Preços: de R$ 1.000 a R$ 3.000 (gravuras)

CÍCERO DIAS. Onde: galeria Simões de Assis (al. Dom Pedro 2º, 155, Curitiba, tel. 0/xx/41/232-2315). Quando: de segunda a sexta, das 10h às 19h. Preços: sob consulta

(© Folha de S. Paulo)

Um testamento em tons de verde

 

A gravura do quadro ‘Mulheres na Varanda’’: as mulheres, musas inspiradoras de Cicero Dias, foram retratadas em épocas e estilos diferentes

A cor da memória do pintor Cicero Dias, morto em janeiro em Paris, é a predominante na exposição 'Cicero Dias - Memória Viva, Gravuras', que reúne, na Portal Galeria, 27 trabalhos do artista produzidos entre as décadas de 20 e 70

   Cicero Dias dizia que o verde era a cor de sua memória. Era uma alusão à infância em meio aos canaviais e aos passeios na Praia de Boa Viagem, em Pernambuco, seu estado natal. As várias tonalidades de verde retratadas pelo artista podem ser vistas a partir de hoje em 27 gravuras na Portal Galeria de Arte, nos Jardins.

   'Memória Viva' é a primeira exposição de gravuras de Cicero Dias após sua morte, ocorrida dia 28 em Paris, cidade onde morava havia quase 70 anos. A exposição é uma pequena mostra do que foi produzido por ele nos anos 20, 30, 40, 50, 60 e 70 e permite que se conheça sua trajetória artística e mudança de estilo durante sua carreira.

   Algumas das gravuras que estão na galeria são das obras 'Buraco', do fim dos anos 20; 'Mulheres de Olinda', da década de 50, e 'Mulheres na Varanda', dos anos 80. Estão todas à venda e os preços variam de R$ 1 mil a R$ 3 mil.

   A dona da galeria e amiga de Cicero Dias, Malvina Gelleni, organizou a mostra em uma semana e diz que o fez para prestar uma homenagem ao artista.

   Ela conta que comprou as gravuras há um ano do editor Pedro Paulo Mendes, que em 2001 publicou um livro sobre o trabalho de Dias, que esteve em Pernambuco - pela última vez em sua vida - para o lançamento.

   Cicero Dias trocou o Brasil pela França no começo dos anos 30 e nunca mais voltou a morar aqui. Ele se dizia apaixonado pelo País, mas construiu sua carreira e vida na Europa, onde se casou com uma francesa.

   Sua primeira exposição individual no Brasil foi feita em 1928 e apresentava desenhos livres e repletos de sexualidade. Os retratos femininos feitos por ele mostravam mulheres como objetos sexuais, na melhor representação do pensamento dos anos 20 e 30. O quadro 'Sonho de uma Prostituta' é uma das referências deste período e a obra foi comparada com 'Olympia', de Edouard Manet, mas não há gravura da obra na exposição.

   Nos anos 30, segunda fase de seu trabalho, Dias fez obras em que o universo dos canaviais e o cenário nordestino estavam sempre presentes. Naquela época, o rapaz bem nascido já havia desistido de seu curso de arquitetura e, apoiado pelos amigos Di Cavalcanti e Murilo Mendes, passara a retratar imagens de sua infância, no engenho de cana-de-açúcar de seu pai.

   Sétimo filho de uma família de dez irmãos, Cícero Dias foi criado nos moldes da época: livre, correndo pelos canaviais e fazendo o que queria. Os pais delegavam às escolas a função de educar seus filhos e somente aos 13 anos Cicero entrou em contato com um universo regrado, sendo mandado ao Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro.

   A liberdade vivida na infância, no entanto, marcou sua obra para sempre.

   Suas telas são uma viagem às profundezas dos sentidos e do inconsciente.

   Cicero Dias via a realidade distorcida e retratava sua visão num colorido suave a harmonioso.

   No final dos anos 30, ele já havia se mudado para Paris e em 1938 fez sua primeira exposição individual na capital francesa, atraindo olhares e críticas positivas para o seu traço brasileiro.

   Conheceu Picasso e Matisse. Do primeiro recebeu influências do surrealismo, movimento que influenciou seus trabalhos seguintes, o que lhe valeu o título de um dos primeiros pintores surrealistas do Brasil. Picasso também foi padrinho de sua única filha, Silvia.

   A influência do 'compadre' e mestre fez com que Cicero Dias também deixasse a abstração invadir suas telas. Novas cores passaram a ser usadas por ele e, nesta fase, ele abusou do vermelho e do amarelo.

   Mas foi somente a partir dos anos 50 que o artista chegou ao estilo que acabou caracterizando suas obras até o fim de sua vida. Passou a adotar formas menos rigorosas e continuou retratando mulheres - mas não só as profissionais do sexo - em cores e situações que remetiam à exuberância brasileira.

SERVIÇO: 'Memória Viva', na Portal Galeria - Rua Estados Unidos, 2241, Jardins, tel. 3081-0339. (LARISSA SQUEFF)

(© Jornal da Tarde)


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