
A cor da memória do
pintor Cicero Dias, morto em janeiro em Paris, é a predominante na exposição 'Cicero
Dias - Memória Viva, Gravuras', que reúne, na Portal Galeria, 27 trabalhos do artista
produzidos entre as décadas de 20 e 70
Cicero Dias dizia que o verde era a cor de sua memória. Era uma
alusão à infância em meio aos canaviais e aos passeios na Praia de Boa Viagem, em
Pernambuco, seu estado natal. As várias tonalidades de verde retratadas pelo artista
podem ser vistas a partir de hoje em 27 gravuras na Portal Galeria de Arte, nos Jardins.
'Memória Viva' é a
primeira exposição de gravuras de Cicero Dias após sua morte, ocorrida dia 28 em Paris,
cidade onde morava havia quase 70 anos. A exposição é uma pequena mostra do que foi
produzido por ele nos anos 20, 30, 40, 50, 60 e 70 e permite que se conheça sua
trajetória artística e mudança de estilo durante sua carreira.
Algumas das gravuras que
estão na galeria são das obras 'Buraco', do fim dos anos 20; 'Mulheres de Olinda', da
década de 50, e 'Mulheres na Varanda', dos anos 80. Estão todas à venda e os preços
variam de R$ 1 mil a R$ 3 mil.
A dona da galeria e amiga de
Cicero Dias, Malvina Gelleni, organizou a mostra em uma semana e diz que o fez para
prestar uma homenagem ao artista.
Ela conta que comprou as
gravuras há um ano do editor Pedro Paulo Mendes, que em 2001 publicou um livro sobre o
trabalho de Dias, que esteve em Pernambuco - pela última vez em sua vida - para o
lançamento.
Cicero Dias trocou o Brasil
pela França no começo dos anos 30 e nunca mais voltou a morar aqui. Ele se dizia
apaixonado pelo País, mas construiu sua carreira e vida na Europa, onde se casou com uma
francesa.
Sua primeira exposição
individual no Brasil foi feita em 1928 e apresentava desenhos livres e repletos de
sexualidade. Os retratos femininos feitos por ele mostravam mulheres como objetos sexuais,
na melhor representação do pensamento dos anos 20 e 30. O quadro 'Sonho de uma
Prostituta' é uma das referências deste período e a obra foi comparada com 'Olympia',
de Edouard Manet, mas não há gravura da obra na exposição.
Nos anos 30, segunda fase de
seu trabalho, Dias fez obras em que o universo dos canaviais e o cenário nordestino
estavam sempre presentes. Naquela época, o rapaz bem nascido já havia desistido de seu
curso de arquitetura e, apoiado pelos amigos Di Cavalcanti e Murilo Mendes, passara a
retratar imagens de sua infância, no engenho de cana-de-açúcar de seu pai.
Sétimo filho de uma
família de dez irmãos, Cícero Dias foi criado nos moldes da época: livre, correndo
pelos canaviais e fazendo o que queria. Os pais delegavam às escolas a função de educar
seus filhos e somente aos 13 anos Cicero entrou em contato com um universo regrado, sendo
mandado ao Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro.
A liberdade vivida na
infância, no entanto, marcou sua obra para sempre.
Suas telas são uma viagem
às profundezas dos sentidos e do inconsciente.
Cicero Dias via a realidade
distorcida e retratava sua visão num colorido suave a harmonioso.
No final dos anos 30, ele
já havia se mudado para Paris e em 1938 fez sua primeira exposição individual na
capital francesa, atraindo olhares e críticas positivas para o seu traço brasileiro.
Conheceu Picasso e Matisse.
Do primeiro recebeu influências do surrealismo, movimento que influenciou seus trabalhos
seguintes, o que lhe valeu o título de um dos primeiros pintores surrealistas do Brasil.
Picasso também foi padrinho de sua única filha, Silvia.
A influência do 'compadre'
e mestre fez com que Cicero Dias também deixasse a abstração invadir suas telas. Novas
cores passaram a ser usadas por ele e, nesta fase, ele abusou do vermelho e do amarelo.
Mas foi somente a partir dos
anos 50 que o artista chegou ao estilo que acabou caracterizando suas obras até o fim de
sua vida. Passou a adotar formas menos rigorosas e continuou retratando mulheres - mas
não só as profissionais do sexo - em cores e situações que remetiam à exuberância
brasileira.
SERVIÇO: 'Memória Viva', na Portal
Galeria - Rua Estados Unidos, 2241, Jardins, tel. 3081-0339. (LARISSA SQUEFF)
(© Jornal da Tarde) |