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Jorge Wanderley, o poeta capaz de acordar demônios ocultos

14/02/2003

JORGE WANDERLEY: poeta, ensaísta, tradutor de Dante, fino leitor / Foto arquivo"/

 
 

Antologia poética, de Jorge Wanderley. Editora Ateliê Editorial, 248 páginas. R$ 26.

Antonio Carlos Secchin

   O criador de poesia Jorge Wanderley (1938-1999) não pode ser dissociado do leitor de poesia que ele, incansavelmente, foi: fino leitor de si mesmo, na gradativa consolidação e no consistente aperfeiçoamento de uma obra que a morte houve por mal sustar, à época em que Jorge acedia ao ponto mais alto de sua produção. Leitor/tradutor, em elevado nível, de Dante, Shakespeare e Valéry, entre outros, colaborou ainda, como editor adjunto, na consolidação da revista “Poesia sempre”, da Biblioteca Nacional.

   Vinculado ao grupo de “O gráfico amador”, foi no seu Recife natal que Jorge estreou com “Gesta e outros poemas”, em 1960. Pela Universidade Federal de Pernambuco saíram os “Adiamentos” (1974). Seguiram-se, já no Rio de Janeiro, “A casa navega” (1975), “Coração à parte” (Achiamê,1979), “Mesa/musa” (1980-5), o primeiro e o terceiro desses títulos publicados, em 1986, pela Taurus, em “A foto fatal e poemas anteriores”. Pela mesma editora saiu, em 1987, “Anjo novo”, com prefácio de Silviano Santiago. Os dez sonetos de “Homenagem” (1992) integraram a coleção Poesia na UERJ. Finalmente, foram editados pela Topbooks, em 1995, “Manias de agora”, e pela Bertrand Brasil, em 1999, “O agente infiltrado”. Postumamente, com o selo da Ateliê Editorial e organização de Márcia Wanderley, veio a lume a “Antologia poética”, numa bem-cuidada edição que nos revela (quase) por inteiro a dimensão poética de Jorge Wanderley.

   Destaca-se em Jorge, desde o livro de estréia, uma tensa convivência entre o domínio das formas fixas e o desejo de experimentação, às vezes exercido no próprio terreno das formas fixas, às vezes transposto para o espaço do verso livre. Esse confronto entre o antigo e o novo comparece também na temática de vários poemas, a exemplo do que se lê nos versos iniciais de “Entardecer. Recife, domingo”, do livro “Adiamentos”: “Varandas, já sem as redes./ Quintais que se encurtam”. Os signos de um plácido passado — varandas, quintais — surgem desfalcados e desfigurados, promovendo um curto-circuito no (des)conhecimento da paisagem familiar.

   Talvez esteja por aí — na capacidade de despertar os demônios ocultos na ordem — uma das chaves de compreensão da poesia de Jorge. Os exemplos são inúmeros: “As pessoas deviam morrer em berços”(1975); “Começo a pensar poemas/ que trazem seu contrário na barriga”(1980); “Sou cruzado, mas esqueci meu rei”(1999); “Tenho aqui em casa um anãozinho que é quem faz, na realidade, minhas traduções de poesia”(1999).

   Tais registros, de uma percepção, digamos, desestabilizadora do real não obstam a que, ainda assim, seja a realidade a grande fonte de onde emana o verso de Wanderley (“preciso da árvore/ para escrever a palavra árvore”). Mas toda paisagem é invenção ou dádiva do olhar, e a consciência da inacessibilidade do real em sua “pureza” é matéria reiteradas vezes tratada em sua poesia: “Nada do que tocamos permanece/ como era antes”.

   Não parece haver salvação fora da poesia. Ou — talvez mais trágico — nem mesmo dentro dela. Uma suave ironia perpassa a obra de Jorge, que desdramatiza, quando possível, as próprias mazelas: a incerteza do lugar do poeta, as agruras de uma renitente insônia, a confrontação com a morte. Esta, a companheira temida, é também , de certa forma, afagada, tratada num à-vontade que só se encontra em alguns poemas de Bandeira. Leiamos os antológicos versos de Jorge, em seu “Epitáfio”: “Chegar já foi a partida/ De onde estive até nascer./ Viver só custou a vida. / Não custa nada morrer”.

   Muitos outros aspectos podem ser relevados em sua poesia: o diálogo, em carinhosa sintonia, com grandes escritores estrangeiros, sobretudo de língua inglesa e espanhola, sem que a erudição se tornasse pesada ao leitor; o tom contido de sua lírica amorosa; os exercícios de “despersonalização”, quando assume a máscara do Outro, com resultados notáveis, conforme se lê no soneto “Robinson”( “toda a glória que a solidão semeia/ e agora essa pegada aqui na areia”.) e em “Lear”: “Meu reino é nenhum e é imenso,/ Nenhum reino doei às minhas filhas, /Nem reino tive/ E não teria filhas se reinasse.//Teria vinhos ácidos na mesa/ E um cão feroz que um dia me matasse/ Para galgar a minha realeza”.

   Um tema particularíssimo em Jorge é o do cachimbo (e de seus eflúvios), representado, na antologia, por “Permitido fumar” e “Cachimbos”. Tão amorosa convivência levou-o a escrever, em “Cachimbeiro”: “Aprendi a fumar cachimbo./ Agora Shakespeare não leva/ nenhuma vantagem”. Não apenas a fumar : Jorge aprendeu a fazê-los. Criador de poemas e de cachimbos (“Eles vão se arrumando sozinhos: são mais de cinqüenta, / cachimbos dotados de histórias individuais”), um objeto parecia remeter irreprimivelmente ao outro: “a literatura não se escreve com/ dicionários, mas com cachimbos”. Como Jorge, o cachimbo possui “uma alma que conhece a nuvem”. O poder embaçante da fumaça é aviso ao poeta para não acreditar sempre no que vê: há um filtro entre o eu o e aquilo. E de Jorge, pela qualidade de sua obra, seguramente podemos dizer que o uso do cachimbo não lhe fez a rima torta.

ANTONIO CARLOS SECCHIN é poeta, autor de “Todos os ventos”

(© O Globo On Line)


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