Antologia poética, de Jorge
Wanderley. Editora Ateliê Editorial, 248 páginas. R$ 26.
Antonio Carlos Secchin
O criador de poesia Jorge
Wanderley (1938-1999) não pode ser dissociado do leitor de poesia que ele,
incansavelmente, foi: fino leitor de si mesmo, na gradativa consolidação e no
consistente aperfeiçoamento de uma obra que a morte houve por mal sustar, à época em
que Jorge acedia ao ponto mais alto de sua produção. Leitor/tradutor, em elevado nível,
de Dante, Shakespeare e Valéry, entre outros, colaborou ainda, como editor adjunto, na
consolidação da revista Poesia sempre, da Biblioteca Nacional.
Vinculado ao grupo de O gráfico amador, foi no seu Recife natal
que Jorge estreou com Gesta e outros poemas, em 1960. Pela Universidade
Federal de Pernambuco saíram os Adiamentos (1974). Seguiram-se, já no Rio de
Janeiro, A casa navega (1975), Coração à parte (Achiamê,1979),
Mesa/musa (1980-5), o primeiro e o terceiro desses títulos publicados, em
1986, pela Taurus, em A foto fatal e poemas anteriores. Pela mesma editora
saiu, em 1987, Anjo novo, com prefácio de Silviano Santiago. Os dez sonetos
de Homenagem (1992) integraram a coleção Poesia na UERJ. Finalmente, foram
editados pela Topbooks, em 1995, Manias de agora, e pela Bertrand Brasil, em
1999, O agente infiltrado. Postumamente, com o selo da Ateliê Editorial e
organização de Márcia Wanderley, veio a lume a Antologia poética, numa
bem-cuidada edição que nos revela (quase) por inteiro a dimensão poética de Jorge
Wanderley.
Destaca-se em Jorge, desde o livro de estréia, uma tensa convivência entre
o domínio das formas fixas e o desejo de experimentação, às vezes exercido no próprio
terreno das formas fixas, às vezes transposto para o espaço do verso livre. Esse
confronto entre o antigo e o novo comparece também na temática de vários poemas, a
exemplo do que se lê nos versos iniciais de Entardecer. Recife, domingo, do
livro Adiamentos: Varandas, já sem as redes./ Quintais que se
encurtam. Os signos de um plácido passado varandas, quintais surgem
desfalcados e desfigurados, promovendo um curto-circuito no (des)conhecimento da paisagem
familiar.
Talvez esteja por aí na capacidade de despertar os demônios ocultos
na ordem uma das chaves de compreensão da poesia de Jorge. Os exemplos são
inúmeros: As pessoas deviam morrer em berços(1975); Começo a pensar
poemas/ que trazem seu contrário na barriga(1980); Sou cruzado, mas esqueci
meu rei(1999); Tenho aqui em casa um anãozinho que é quem faz, na realidade,
minhas traduções de poesia(1999).
Tais registros, de uma percepção, digamos, desestabilizadora do real não
obstam a que, ainda assim, seja a realidade a grande fonte de onde emana o verso de
Wanderley (preciso da árvore/ para escrever a palavra árvore). Mas toda
paisagem é invenção ou dádiva do olhar, e a consciência da inacessibilidade do real
em sua pureza é matéria reiteradas vezes tratada em sua poesia: Nada
do que tocamos permanece/ como era antes.
Não parece haver salvação fora da poesia. Ou talvez mais trágico
nem mesmo dentro dela. Uma suave ironia perpassa a obra de Jorge, que desdramatiza,
quando possível, as próprias mazelas: a incerteza do lugar do poeta, as agruras de uma
renitente insônia, a confrontação com a morte. Esta, a companheira temida, é também ,
de certa forma, afagada, tratada num à-vontade que só se encontra em alguns poemas de
Bandeira. Leiamos os antológicos versos de Jorge, em seu Epitáfio:
Chegar já foi a partida/ De onde estive até nascer./ Viver só custou a vida. /
Não custa nada morrer.
Muitos outros aspectos podem ser relevados em sua poesia: o diálogo, em
carinhosa sintonia, com grandes escritores estrangeiros, sobretudo de língua inglesa e
espanhola, sem que a erudição se tornasse pesada ao leitor; o tom contido de sua lírica
amorosa; os exercícios de despersonalização, quando assume a máscara do
Outro, com resultados notáveis, conforme se lê no soneto Robinson(
toda a glória que a solidão semeia/ e agora essa pegada aqui na areia.) e em
Lear: Meu reino é nenhum e é imenso,/ Nenhum reino doei às minhas
filhas, /Nem reino tive/ E não teria filhas se reinasse.//Teria vinhos ácidos na mesa/ E
um cão feroz que um dia me matasse/ Para galgar a minha realeza.
Um tema particularíssimo em Jorge é o do cachimbo (e de seus eflúvios),
representado, na antologia, por Permitido fumar e Cachimbos. Tão
amorosa convivência levou-o a escrever, em Cachimbeiro: Aprendi a fumar
cachimbo./ Agora Shakespeare não leva/ nenhuma vantagem. Não apenas a fumar :
Jorge aprendeu a fazê-los. Criador de poemas e de cachimbos (Eles vão se arrumando
sozinhos: são mais de cinqüenta, / cachimbos dotados de histórias individuais),
um objeto parecia remeter irreprimivelmente ao outro: a literatura não se escreve
com/ dicionários, mas com cachimbos. Como Jorge, o cachimbo possui uma alma
que conhece a nuvem. O poder embaçante da fumaça é aviso ao poeta para não
acreditar sempre no que vê: há um filtro entre o eu o e aquilo. E de Jorge, pela
qualidade de sua obra, seguramente podemos dizer que o uso do cachimbo não lhe fez a rima
torta.
ANTONIO CARLOS SECCHIN é poeta, autor
de Todos os ventos
(© O Globo On
Line)