Mais simpático que a maioria dos ministros e mais
politicamente concentrado que a maioria dos artistas. Assim é o Gilberto Gil
ministro da Cultura, que se equilibrou entre esses dois papéis para discutir
o presente e o futuro da cultura brasileira na Bienal de Arte da União
Brasileira dos Estudantes (UNE). Antes de se apresentar na Bienal, o
ministro cantor foi a Casa Forte pedir a bênção ao escritor e ex-secretário
Estadual de Cultura Ariano Suassuna, a quem declarou admiração pessoal,
artística e política.
Na Bienal, Gil foi convidado para palestrar sobre a cultura, mas não
resistiu e, antes mesmo de falar, deu uma palhinha de Maracatu Atômico ao lado de
Jorge Mautner, com quem dividiu a mesa de debates do encerramento do evento. O Pavilhão
do Centro de Convenções foi lotado por milhares de estudantes, além de políticos e
intelectuais como o prefeito do Recife, João Paulo, o vice, Luciano Siqueira, o
secretário de Cultura do Recife, João Roberto Peixe, a prefeita de Olinda, Luciana
Santos, o tropicalista Jomard Muniz de Britto e o dramaturgo Antônio Cadengue.
Consciente de que foi convocado para o cargo de ministro não apenas pela
sua capacidade de coordenar e articular as mais diversas camadas culturais da sociedade
brasileira, mas também pelo seu carisma artístico, Gilberto Gil acredita que não se
pode ficar só nisso. Essa aura, uma cobertura etérea e simbólica, tem que ser
utilizada a serviço de um trabalho, para que ela também não se desgaste. Esse fogo tem
que arder produtivamente, como o de Ariano Suassuna, que tem um combustível de alta
potência, comentou.
Estimular a produção cultural e ampliar o conceito que a sociedade tem
da cultura brasileira são, então, as causas nobres às quais o artista vai devotar sua
imagem pública. Para isso, ele afirmou que pretende usar de todos os mecanismos a fim de
driblar o corte de 35% da verba do Ministério da Cultura, imposto pelos novos ajustes
promovidos pelo presidente Lula. Gil garantiu que vai em busca de recursos nacionais e
internacionais, pretendendo firmar parcerias ou convênios com bancos, empresas,
ministérios da Cultura de outros países ou organizações não-governamentais. O
ministro anunciou, também, a criação de uma loteria da cultura, cujo projeto será
analisado pelo Ministério da Fazenda. A loteria seria uma maneira de captar recursos
novos, sem ônus para a União.
Atualmente, a Cultura é uma das pastas com menos recursos entre todos os
ministérios. Dispõe de apenas R$ 124 milhões, valor inferior aos gastos de marketing
cultural das estatais Petrobras e BR Distribuidora. Gil considera isso um reflexo da falta
de tradição dos ministérios culturais, que são instituições relativamente novas como
mecanismos de criação de políticas culturais. Ele argumenta que, para mudar essa
situação, conta com todos os produtores de arte e cultura no País. Nós temos que
saber ouvir. A solução não está em Brasília, no gabinete, está com o povo. Temos que
saber o que esses atores culturais querem, declarou. Depois, o ministro seguiu para
a posse festiva da delegada do Ministério da Cultura no Nordeste, Tarciana Portela, e
para um jantar com Luciana Santos e o cantor Alceu Valença. (D.M.B.)
(© Jornal do Commercio-PE)