Depois de 31 anos, a Fundação Joaquim
Nabuco ganha um novo presidente, hoje, com a posse de Fernando Lyra. A instituição deve
se pautar pelas diretrizes do Governo Lula
DIANA MOURA BARBOSA
O novo presidente da Fundação Joaquim Nabuco, Fernando Lyra, toma
posse hoje, num evento prestigiado pelo ministro da Cultura, Cristovam Buarque, e o
ministro da Saúde, Humberto Costa, que comparece à solenidade representando o presidente
Luiz Inácio Lula da Silva. Também estarão presentes o governador Jarbas Vasconcelos, o
prefeito João Paulo, o acadêmico imortal Marcos Vinícius Vilaça e o chefe de gabinete
do Ministério da Cultura, Ségio Xavier, que representa o ministro Gilberto Gil. A posse
acontece às 9h, no auditório Benício Dias, na sede da instituição, em Casa Forte.
Junto com Lyra, também serão nomeados oito assessores diretos escolhidos por ele,
incluindo os cinco superintendentes dos institutos da Fundaj. Esse é um momento
histórico para o órgão, que passou os últimos 31 anos sendo presidido por uma única
pessoa, Fernando Freyre, filho do fundador da Fundaj, o antropólogo e sociólogo Gilberto
Freyre.
O novo time escolhido para comandar a Fundação é formado por nomes como
Manoel Correia de Andrade, Luciana Azevedo, Jorge Siqueira, Isabela Cribari, Luciana
Pimentel e Mário Hélio. Com exceção do último, que assume a direção da Editora
Massangana, estes serão os novos superintendentes dos institutos da Fundaj. O grupo conta
ainda com Vanja Carneiro Campos, na chefia de gabinete, e Marcelo Mário Melo, na
assessoria de imprensa. Todos chegam à instituição com o discurso uníssono de que
pretendem ouvir os funcionários da casa, trabalhar em conjunto e levar a Fundação a
cumprir seu papel social. Ouvindo isso, parece até que serão poucas as mudanças que
aguardam a instituição, mas não é bem assim.
Claro que quem está entrando numa casa respeitada como a Fundação
Joaquim Nabuco, cuja relevância é reconhecida nacional e internacionalmente, não pode
desprezar a história e o peso da instituição. Mas o fato é que as modificações na
estrutura da Fundaj já começaram a ser feitas, em Brasília, antes mesmo de Lyra tomar
posse. Entre elas, está o corte de 44 cargos comissionados, numa economia anual de R$ 1,4
milhão verba que será deslocada para programas como Bolsa-Escola e Fome Zero,
segundo informações do Ministério da Educação. Por isso, ninguém sabe ao certo quais
serão as transformações daqui para a frente. Os servidores da casa guardam apenas uma
certeza: Lyra promoverá uma mudança no modelo de gestão da Fundaj.
Os funcionários esperam que Fernando Lyra, ao deixar a instituição,
instale um processo de eleição para a escolha dos futuros presidentes. A votação
geraria uma lista de três nomes. A partir da lista, o ministro da Educação indicaria um
nome para presidente, com mandato de quatro anos. Esse sistema é semelhante ao que ocorre
nas universidades federais e evitaria que outro dirigente passasse tanto tempo no poder
quanto Freyre. Outro mérito seria a possibilidade de escolha democrática entre
funcionários da casa. Dessa forma, os servidores da Fundaj também pretendem evitar que
vinculações políticas possam atrapalhar o trabalho de pesquisa desenvolvido pela
instituição, historicamente isenta de solicitações e acordos partidários.
CARTILHA Questões partidárias à parte, a partir de hoje a
Fundação Joaquim Nabuco terá que desenvolver um projeto voltado para os temas que
norteiam o Governo Lula. Nesse caso, a instituição deve reforçar em suas pesquisas
assuntos como a miséria, a falta de perspectiva econômica regional e a necessidade de
políticas públicas que promovam inclusão social e cidadania. É verdade que esses
assuntos nunca deixaram a pauta da Fundaj, em maior ou menor grau. Mas é igualmente certo
que, de agora em diante, essa produção terá que estar muito mais próxima às
diretrizes traçadas no plano Federal.
Para o novo presidente da instituição, Fernando Lyra, a vinculação às
propostas de governo do presidente Lula não são um limitador para as pesquisas da
Fundação, pelo contrário. Lyra defende que é apenas dessa maneira que o órgão
poderá alcançar abrangência nacional, projetando o Nordeste para todo o País. É
preciso encarar o Nordeste como uma questão nacional. Temos que mostrar que os problemas
que ocorrem no Nordeste não são problemas do Nordeste, mas de todo o Brasil,
enfatizou.
O cientista social e historiador Jorge Siqueira, que assume hoje a
superintendência do Instituto de Pesquisas Sociais, reforça a tese de Lyra e defende que
cabe à Região definir o conceito de Nordeste e fazê-lo valer no restante do País, sem
esperar que outros pesquisadores venham de fora para definir o que é o Nordeste e qual é
a nossa cultura. Assim, é com os pés fincados no aspecto regional, mas com um olhar de
abrangência nacional, que Fernando Lyra espera dirigir uma das instituições mais
importantes de Pernambuco e do Brasil.