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Samba e fuleragem

20/02/2003

 Alcione: de amarelo-ouro, um pout porri de clássicos atemporais e obrigatórios (Foto: Marcos Campos)

 
 

Ethel de Paula
da Redação

   Um cego na platéia, a bengala marcando o ritmo. Porque, de fato, a voz da Marrom é algo quase palpável, tem consistência, malemolência, temperatura. Daí a suadeira coletiva no anfiteatro do Centro Dragão do Mar. A maranhense vestiu amarelo-ouro e cobriu com luz própria o samba, gênero transformador. Para os clássicos, assim chamados porque ela os tornou atemporais e obrigatórios, novos arranjos, delicados a ponto de valorizar ainda mais sua potência vocal: ''Sufoco'', ''O Surdo'', ''Estranha Loucura'', ''O Que Faço Amanhã'', ''Nem Morta'', ''Qualquer Dia Desses'' e ''Não deixe o Samba Morrer'' abriram alas para as confissões de Alcione, que um dia, saibam, chegou a se operar mediunicamente com dr. Fritz para não calar de vez.

   Roda de samba e conversa. Ao cantar ''Cajueiro Velho'', Marrom também reverenciou a figura do pai músico que ensinou os filhos a ganhar a vida com fé e honestidade. ''Morria de pena quando achava dinheiro na rua porque papai fatalmente mandava a gente devolver'', riu-se. O Maranhão prenhe de tradições também animou a festa. Apesar de já ter firmado compromisso com os baianos de, esse ano, abrilhantar o carnaval do Ilê Aiyê, Alcione não deixou de esquentar os tambores na terra-natal, onde integra o bloco Fuleragem. Assim é que a fuleira-mor fez questão de cantar em Fortaleza o samba-enredo que os maranhenses já levam na ponta da língua. Para a bainidade nagô, um pout porri de responsa, contemplando desde Araketu a ''Ilha da Maré'', de Valmir Lima e Lupa.

   Entre pérolas, duas pepitas: ''Retalho de Cetim'', de Benito de Paula, e ''As Rosas não Falam'', de Cartola, chance para a Marrom homenagear, com direito a solo de piston, a amiga e companheira do compositor, D. Zica. Para a Mangueira do coração cantou ainda o samba-enredo que no ano passado fez a escola levar a melhor no carnaval carioca, ''Brasil com Z é pra Cabra da Peste, Brasil com S é Nação do Nordeste''. Performance impagável em ''Entidade'', a cabocla incorporando o genuíno espírito do samba. Por fim, água na boca: quem esperava pelo bis, talvez ''Garoto Maroto'', talvez ''Olha'', do Rei Roberto, ou mesmo ''Pedra de Responsa'', do conterrâneo Zeca Baleiro, frustrou-se. Pelo menos na noite de sexta-feira, a Marrom não voltou ao palco. Foi bom. Durou pouco.

(© O Povo-NoOlhar.com.br)


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