Ethel de Paula
da Redação
Um cego na platéia, a bengala
marcando o ritmo. Porque, de fato, a voz da Marrom é algo quase palpável, tem
consistência, malemolência, temperatura. Daí a suadeira coletiva no anfiteatro do
Centro Dragão do Mar. A maranhense vestiu amarelo-ouro e cobriu com luz própria o samba,
gênero transformador. Para os clássicos, assim chamados porque ela os tornou atemporais
e obrigatórios, novos arranjos, delicados a ponto de valorizar ainda mais sua potência
vocal: ''Sufoco'', ''O Surdo'', ''Estranha Loucura'', ''O Que Faço Amanhã'', ''Nem
Morta'', ''Qualquer Dia Desses'' e ''Não deixe o Samba Morrer'' abriram alas para as
confissões de Alcione, que um dia, saibam, chegou a se operar mediunicamente com dr.
Fritz para não calar de vez.
Roda de samba e conversa. Ao cantar ''Cajueiro Velho'', Marrom também
reverenciou a figura do pai músico que ensinou os filhos a ganhar a vida com fé e
honestidade. ''Morria de pena quando achava dinheiro na rua porque papai fatalmente
mandava a gente devolver'', riu-se. O Maranhão prenhe de tradições também animou a
festa. Apesar de já ter firmado compromisso com os baianos de, esse ano, abrilhantar o
carnaval do Ilê Aiyê, Alcione não deixou de esquentar os tambores na terra-natal, onde
integra o bloco Fuleragem. Assim é que a fuleira-mor fez questão de cantar em Fortaleza
o samba-enredo que os maranhenses já levam na ponta da língua. Para a bainidade nagô,
um pout porri de responsa, contemplando desde Araketu a ''Ilha da Maré'',
de Valmir Lima e Lupa.
Entre pérolas, duas pepitas: ''Retalho de Cetim'', de Benito de Paula, e
''As Rosas não Falam'', de Cartola, chance para a Marrom homenagear, com direito a solo
de piston, a amiga e companheira do compositor, D. Zica. Para a Mangueira do coração
cantou ainda o samba-enredo que no ano passado fez a escola levar a melhor no carnaval
carioca, ''Brasil com Z é pra Cabra da Peste, Brasil com S é Nação do Nordeste''.
Performance impagável em ''Entidade'', a cabocla incorporando o genuíno espírito do
samba. Por fim, água na boca: quem esperava pelo bis, talvez ''Garoto Maroto'', talvez
''Olha'', do Rei Roberto, ou mesmo ''Pedra de Responsa'', do conterrâneo Zeca Baleiro,
frustrou-se. Pelo menos na noite de sexta-feira, a Marrom não voltou ao palco. Foi bom.
Durou pouco.
(© O
Povo-NoOlhar.com.br)