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As estrelas da Costa Dourada

20/02/2003

Porto de Galinhas, em Pernambuco

 
 

As estrelas da Costa Dourada
Luciano Viana

Especial para O GLOBO

   A Costa Dourada Nordestina é um dos trechos mais badalados do mapa turístico brasileiro. São 253 quilômetros entre Maceió e Recife, passando por lugares como Maragogi e Porto de Galinhas. Você vai saber a seguir como passar seis dias nesse verdadeiro paraíso, pegando estradas de terra, visitando praias quase desconhecidas e descobrindo histórias como a de Porto de Galinhas. Lá, as imagens de galinhas que ficam espalhadas pela cidade (tem galinha turista, baiana, de biquini, tradicional etc.) são todas feitas por artesãos locais usando apenas a raiz do coqueiro.

(© O Globo On Line)


Primeiro dia: Pajuçara tem dois quilômetros de mar à espera do turista

   A capital alagoana é uma das mais charmosas cidades nordestinas. E por ser relativamente pequena, é difícil se perder em Maceió, onde os pontos turísticos de maior destaque são de fácil localização. Pela manhã, o ideal é relaxar na linda Praia de Pajuçara, a principal orla da cidade. Bateu a fome? Chame o jangadeiro. Não entendeu? Em Pajuçara, existem piscinas naturais a cerca de dois quilômetros da praia, mar adentro. E, no meio delas, diversos barcos se transformam em verdadeiros bares, onde cerveja, sucos e petiscos, como camarão na brasa e peixe frito são feitos na hora. A sensação de estar com água na cintura, no meio do mar, saboreando um peixinho e vendo a cidade lá longe é indescritível.

   Depois de se refestelar nas piscinas naturais, pegue fôlego e siga a pé pela orla até a Praia de Jatiúca, a mais badalada de Maceió. Com sua avenida cercada de hotéis cinco estrelas, ela é daquelas bonitas de se ver, mas difíceis de entrar, por causa dos corais que cercam a praia desde sua parte rasa. Retornando um pouco em direção novamente à Pajuçara, a pedida é esperar o sol se pôr nas agradáveis barraquinhas da Praia de Ponta Verde, onde você pode passear de catamarã por Jatiúca ou se arriscar num dos caiaques alugados no local.

   À noite é hora de curtir a badalação da cidade. Maceió recuperou uma parte de seu centro antigo para fazer um espaço quase inteiramente dedicado aos turistas, com forró ao ar livre, bares um ao lado do outro e uma espécie de “Hard Rock Forró”, o Virgulino. No enorme bar e restaurante, os atendentes se vestem de policiais do cangaço, enquanto um personagem caracterizado de Lampião recebe e tira fotos com os turistas. É para se esbaldar sem remorsos de comer carne-de-sol e macaxeira.

(© O Globo On Line)


Segundo dia: No caminho de Maceió para Carro Quebrado, paradas em Riacho Doce e no Mirante da Sereia

   É hora de acordar cedo e começar nossa viagem de carro. Pegar a AL-10 é fácil: basta seguir a orla, passando pelas praias de Pajuçara e Jatiúca. O caminho é bem sinalizado.

   Depois de alguns quilômetros rumo ao norte, passamos por Garça Torta, onde o alagoano Djavan mantém uma casa, e chegamos a Riacho Doce, a nossa primeira parada. Famoso por ter inspirado José Lins do Rego a criar uma das maiores obras da literatura brasileira (“Riacho Doce”), o vilarejo ainda tem algumas construções fiéis à época do romance. Mas não espere encontrar as paisagens nem as habitações da série homônima apresentada pela Rede Globo (aquela mesmo, do Nô e seu corpo fechado e da “galega” Vera Fischer), pois ela foi filmada inteiramente em Fernando de Noronha. Continuando o caminho, logo chegamos ao Mirante da Sereia, na Praia de Pratagi, e seu visual belíssimo com coqueiros, piscinas naturais, além da estátua de uma sereia olhando para o mar.

   Sem perda de tempo, vamos para a Ilha da Croa (que, apesar do nome, é uma península), a caminho da Praia de Carro Quebrado. O “Croa” vem de uma corruptela da palavra “coroa”. Já a praia chama-se Carro Quebrado porque — pasmem! — uma vez uma Brasília velha enguiçou no local...

   Para chegar lá, basta seguir as placas para Barra de Santo Antônio, atravessar com o carro por uma balsa e seguir em direção a Carro Quebrado. Depois de uns dez minutos por uma estrada de terra, chegamos à linda praia. Vazia nos dias de semana, ela tem apenas três barraquinhas de comidas típicas e bebidas, e é emoldurada por falésias e coqueiros. O lugar pede para você passar a tarde relaxando por lá, nas suas águas verdes limpíssimas. Se o espírito de Indiana Jones baixar em você, ande até a vizinha Praia do Cebola, ainda mais vazia e impossível de se chegar de carro.

   De tardinha, é hora de seguir viagem para dormir na agradável São Miguel dos Milagres, uma típica cidadezinha do interior, com seu aparelho de TV comunitário na praça (onde dezenas de pessoas se reúnem todas as noites para assistir às novelas) e simpáticos habitantes, sempre solícitos para contar seus “causos” aos visitantes.

(© O Globo On Line)


Terceiro dia: o sossego das vilas de pescadores no trajeto de São Miguel dos Milagres à Maragogi

   Depois de um belo café da manhã, partimos em direção a Maragogi, chamada em Alagoas de “a capital da Costa Dourada”. O percurso até lá é um dos trechos mais bonitos da viagem, passando por Boqueirão e Japaratinga, num trajeto de cerca de uma hora, repleto de belíssimas praias praticamente desertas e cercadas por plantações de coqueiros (onde, na maré baixa, dá para avançar centenas de metros com a água pelo joelho).

   Apesar do caminho entre São Miguel dos Milagres e Maragogi ser feito em cerca de uma hora, vale a pena reservar pelo menos a metade do dia para passear pelas pequenas vilas de pescadores que cercam a estrada. Aproveite para almoçar numa das vilas por ali mesmo, onde qualquer morador sabe indicar um restaurante bom e barato que sirva uma suculenta peixada, especialidade local.

   De barriga cheia, é hora de rumar para Maragogi. Apesar de toda a badalação em torno de seu nome, a pequena cidade alagoana ainda não dispõe de muita infra-estrutura para turistas. Melhor assim, pois o clima de tranqüilidade de vila de interior cativa todos que passeiam pela cidade. Com uma pequena orla, que pode ser percorrida a pé em menos de uma hora, a Praia de Maragogi, com sua água cristalina e suas piscinas naturais (chamadas pelos locais de galés), é um convite irresistível ao descanso pelo resto do dia.

   Aproveite para dormir em Maragogi mesmo e passear pela cidadezinha à noite, onde a hora de maior badalação é lá pelas 21h, quando os alunos da escola municipal saem da aula e se encontram com os amigos para bater papo na pracinha da cidade.

(© O Globo On Line)


Quarto dia: pausa para apreciar um futuro pólo turístico da região: Guadalupe

   Acordar bem cedo é fundamental para aproveitar bastante o dia ao chegar na Praia de Maragogi, onde rapidamente algum morador irá oferecer ao visitante passeios de barco até as piscinas naturais, a principal atração turística da cidade.

   Mais uma vez não há como não ficar impressionado: depois de quase meia hora de passeio de barco rumo a alto-mar, o turista chega a verdadeiras piscinas, onde a água cristalina bate apenas na cintura.

   Vale a pena comprar antes uma máscara de mergulho para apreciar melhor a beleza dos corais e das várias espécies de peixes. Os tripulantes dos barcos de passeio costumam vender saquinhos de comida para eles — basta jogar um pouquinho no mar para o visitante ficar imediatamente cercado por cardumes de peixinhos coloridos, num espetáculo inesquecível.

   De volta a Maragogi, é hora de pegar as malas e dar adeus a Alagoas. No caminho para Pernambuco, aproveite para deixar bem aberta a janela do carro e sentir o cheiro da cana que sai forte das usinas de açúcar da região.

   Aliás, uma das curiosidades dessa viagem são as estradas periféricas perfeitas que aparecem do nada ligando a estrada principal às plantações de cana e usinas de açúcar, usadas predominantemente pelos caminhões carregados de cana. Juntamente com os coqueiros e o mar, eles serão seus companheiros constantes durante praticamente toda a viagem.

   A caminho de Pernambuco, aproveite para apreciar a paisagem das praias quase desertas das cidadezinhas e povoados entre Maragogi e a fronteira do estado. Uma das mais bonitas é a Praia do Cachorro Peludo, onde o mar azul e os barquinhos de pescadores formam uma visão fantástica.

   Ultrapassando a fronteira entre os estados, o turista começa a encontrar placas do Centro Turístico Guadalupe. A região em torno da cidadezinha de mesmo nome tem praias lindas e quase selvagens e está sendo preparada pelo governo pernambucano para ser um dos principais pontos turísticos do Nordeste daqui a alguns anos. Não deixe de visitar a cidade e conhecer o píer que liga a estrada — onde é comum encontrar bois e vacas vagando sem rumo — à Praia de Carneiros.

   No píer, é possível, na alta temporada, estacionar o carro e pegar um barco para Carneiros. Esse é o melhor caminho para conhecer a praia, já que, de automóvel, a estrada é mal sinalizada (a partir de Tamandaré não existem mais placas) e está em péssimas condições.

   O ideal é aproveitar o dia para conhecer a região e, quando o sol estiver mais baixo, continuar a viagem até Porto de Galinhas, a cerca de 40 minutos. Chegando lá, não caia na tentação de se hospedar numa das dezenas de pousadas e hotéis da estrada que liga a Maceió-Recife à entrada da cidade. Vale a pena se hospedar dentro da cidadezinha, uma espécie de Búzios, menor e bem mais charmosa. Apesar do tamanho, bons restaurantes e lugares para badalação é o que não faltam. Portanto, aproveite a noite.

(© O Globo On Line)


Quinto dia: Passeios de buggy em Porto de Galinhas

   Ao acordar, caminhe até o pequeno centro da cidade, em frente ao píer, e combine um passeio com um dos bugreiros. O mais recomendado é o que corta toda a extensão da praia e leva duas horas.

   O que se convencionou chamar de Porto de Galinhas na verdade é um conjunto de cinco praias, de Muro Alto ao Pontal de Maracaípe. Saindo de Porto de Galinhas, o visitante passa pelo mangue, que também se pode visitar em companhia de grupos turísticos locais especializados.

   Ao contrário do mangue de Recife, o de Porto é limpo e ainda mantém seu ecossistema bem conservado. A primeira parada é na Praia de Muro Alto, onde estão localizados os resorts mais badalados da cidade. Depois de o buggy fazer um caminho por dentro das plantações de coco (pois é proibido o trajeto de veículos na faixa de areia), logo se chega à Praia do Cupe.

   A próxima parada é Merepe, a praia onde está localizada a maioria dos hotéis e pousadas da região. Para quem gosta de badalação, esse é o lugar certo. De volta a Porto de Galinhas, visite as piscinas naturais, que na maré baixa podem ser atingidas a pé. Rumo à outra ponta da região, chegamos a Maracaípe, o pedaço mais bonito de toda a viagem. Local de surfistas, o mar bravo espanta a maioria dos turistas, que acabam não descobrindo o melhor ponto de Porto de Galinhas: o Pontal do Maracaípe, onde o mar encontra o mangue. É sentar e curtir, saboreando um belo queijo coalho e petiscos diversos de peixe e frutos do mar.

   Cansado de fazer nada? Na entrada do mangue, há jangadas para levar os turistas a um passeio de meia hora, com direito a mergulho no mangue junto com o jangadeiro — que caça cavalos-marinhos na sua frente, para espanto de todos.

(© O Globo On Line)


Sexto dia: badalação na orla de Recife

   Saindo de Porto de Galinhas, a viagem para a capital pernambucana é relativamente rápida (40 minutos de carro, aproximadamente). No caminho, passamos pelo movimentado Porto do Suape, pelo Cabo de Santo Agostinho e por praias badaladas como a de Calhetas, além do tradicional ponto histórico de Jaboatão dos Guararapes.

   Diferentemente de Maceió, Recife é uma cidade que corre acelerada. Não podemos deixar de passar algum tempo da nossa estada pela orla da Praia de Boa Viagem, com seus prédios modernos e hotéis luxuosos. Com uma grande extensão de areia entre o mar e o calçadão, a praia é, para os cariocas, uma mistura de Aterro do Flamengo com Copacabana — ao lado dos turistas com suas máquinas fotográficas passeando pelo calçadão, Boa Viagem também recebe esportistas de toda a cidade, com diversas quadras de futebol, basquete e tênis espalhadas por sua extensão.

   Depois de um bom almoço (a capital de Pernambuco está recheada de bons restaurantes típicos), é hora de seguir para o Recife Antigo, para curtir o entardecer na badalada Rua da Moeda. Nesse horário, a rua vira uma espécie de happy hour ao ar livre, quando dezenas de executivos, estudantes e turistas lotam as mesas dos bares da região.

   Se ainda sobrar algum tempo, a dica é atravessar a ponte e fazer um passeio turístico em Olinda com um dos guias locais da prefeitura da cidade. Mas isso já é uma outra viagem...

(© O Globo On Line)


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