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Festa toma as ruas do centro de Salvador

28/02/2003

Baianas, tema do carnaval 2003 da Bahia

 
 

Cláudio Bandeira

   Nada de axé music ou pagode. Foi o alambeiro de Mãe Maiamba, do Terreiro do Candeal, e um bloco com 400 baianas, puxado ao som de atabaques trio eletrizados e pelo cantor Gerônimo, que abriu, ontem à noite, o Carnaval de Salvador. Antes disso, como não poderia deixar de ser no Carnaval das Baianas, três famosas quituteiras, Dinha, Cira e Regina receberam a chave da cidade do prefeito Antonio Imbassahy, no camarote oficial do Campo Grande.

   Como vem ocorrendo nos últimos três anos, o Rei Momo apesar de estar no camarote, ficou mais uma vez isolado de uma festa em que reinava absoluto. O Momo da vez, Ivonilson Queiroz de Oliveira, 33 anos, 160 quilos, preferiu nada comentar. Feliz da vida estava Negra Jô, a personagem-símbolo da folia e também mestre das tranças e penteados afros no Pelô.

   Vestida de baiana típica e cercada de personalidades, como os ministros da Cultura do Brasil e da França, Gilberto Gil e Jack Lang, ela desejou que este fosse o Carnaval da fartura. Nem o empurra-empurra de afoitos cinegrafistas, que irritou o prefeito, tirou o axé de Negra Jô e tampouco da baiana Cira.

   No ambiente ameno do camarote refrigerado, entre um salgadinho e outro, o ministro Lang, convidado do ministro Gil, comentava com a escritora e imortal Zélia Gatai sobre a “fascinante festa popular que é o Carnaval baiano”, revelando nunca ter visto algo semelhante nos locais onde já esteve.

   O exótico Carlinhos Brown apareceu com uma máscara confeccionada com garrafas plásticas de refrigerante, munido de um xequerê, instrumento musical africano. Discursou do meio do povão, pedindo que não seja tolerado o turismo sexual e a exploração de crianças e adolescentes. Mas o povão estava mesmo interessado em pipocar o que só aconteceu quando apareceu um trio, sem cordeiro, com Xandy e Harmonia do Samba.

(© A Tarde)

Turistas invadem Salvador
Sylvia Verônica

   É fácil reconhecê-los. A começar pela cor da pele, muito clara e – depois de dias sob o sol e o calor, provavelmente, mais forte que já sentiram em suas vidas – bem vermelha. Com pouca roupa, os homens sacam as camisas e as usam para proteger a cabeça. As mulheres abusam dos shorts, blusas e sandálias, trajes que pouco usam em seus países de origem por causa do inverno rigoroso.

   Com modernas máquinas fotográficas e câmeras de vídeo, passam horas, sol a pino, caminhando por ruas, becos e ruelas, atrás de pontos turísticos, de gente que encarna a baianidade nas roupas e adereços, de apresentações artísticas e fugindo do assédio, por vezes irritante, dos vendedores de peças de artesanato e fitinhas do Senhor do Bonfim.

   Os turistas invadiram as ruas do Pelourinho esta semana, ávidos por conhecer a cultura de uma terra exótica. As ruas do Centro Histórico, decoradas com fitas brancas e peças com o tema do Carnaval – a baiana de acarajé – nas cores vermelha e azul, estão cheias de cariocas, paulistas, cearenses, curitibanos, alemães, americanos, italianos, ingleses, japoneses.

   Eles se interessam por quase tudo que represente a cultura local. Na praça do Cruzeiro de São Francisco, a atração, ontem, eram as roupas de baiana e Filhos de Gandhy. Pagando R$ 2 por pessoa, o turista poderia tirar quantas fotos quisesse com as fantasias. Foi o que fez o casal de publicitários Manuela Tomas, 26 anos, e Rodrigo Costa, 27 anos. Eles vieram do Rio de Janeiro, estão hospedados na casa de uma amiga e pretendem sair no Bloco Camaleão.

   “Salvador tem um alto astral contagiante, que não há em nenhum outro lugar”, disse Manuela. Para Rodrigo, esta é a primeira experiência no Carnaval de Salvador. “Estou preparado psicologicamente para ficar horas pulando embaixo de sol. Quero ter essa experiência no meu currículo e vou voltar aqui depois, para conhecer mais da cidade”, revelou.

   A foto com as fantasias típicas também interessa a baianos. A cantora Cerise Gomes – ela está na programação do Carnaval e deve se apresentar no Abaeté, na madrugada da terça-feira – fez questão do registro. “Acho lindas as baianas de acarajé”.

   Quem toma conta do negócio é a manicure Kátia de Araújo Santana, 31 anos. Ela diz que o movimento só aumentou agora, às vésperas do Carnaval. “Quando muito, levo R$ 10, R$ 11 para casa por dia. É a comissão de 10%. Já é alguma coisa para quem está desempregada”, revelou.

   Muitos turistas demonstram irritação com o assédio dos vendedores ambulantes e rejeitam a supervalorização dos produtos de artesanato. Outros, contudo, pagam absurdos pelas peças. Colares de contas azuis e brancas, aqueles usados pelos Filhos de Gandhy e que custam R$ 1, são oferecidos por até R$ 20. Três colares de madeira pintados de vermelho e marrom, nas mãos de um vendedor veterano, são encontrados por um valor impagável por gente da terra: R$ 100.

   O italiano Mauro Mariani, 43 anos, está em Salvador pela segunda vez, já conhece o Carnaval, mas prefere se refugiar em Morro de São Paulo. Ele e a prima, Maria Tereza, ficam na Bahia até dia 20 de março. Ao contrário do americano Ralph Andrews, 27 anos, que veio com um grupo de quatro amigos e pretende aproveitar ao máximo toda a festa.

   “É a primeira vez que estamos aqui, não falamos quase nada de português. Está difícil se virar, mas é uma grande aventura. Só tomo cuidado porque o pessoal cobra muito caro por tudo. Quero aproveitar de tudo no Carnaval”, afirmou.

   A aposentada Marília Silveira e a neta Taís Ferreira voltam para o Rio de Janeiro hoje, “só porque as férias acabaram”, fazem questão de frisar: “Infelizmente temos que voltar. Ainda assim, gostei muito do clima pré-carnavalesco. A cidade é uma festa”, falou Marília.

   O casal curitibano Jair e Vera Baggio também volta hoje para casa. Eles vão passar o Carnaval na Ilha de São João, em Santa Catarina, onde, garantem, a festa também é muito animada nos clubes. “Adorei Salvador, é muito linda. As pessoas são muito alegres. Quero voltar e trazer meus filhos (de 12 e 18 anos)”, prometeu Vera.

(© A Tarde)


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