| Sylvia Verônica É fácil reconhecê-los. A começar pela cor da
pele, muito clara e depois de dias sob o sol e o calor, provavelmente, mais forte
que já sentiram em suas vidas bem vermelha. Com pouca roupa, os homens sacam as
camisas e as usam para proteger a cabeça. As mulheres abusam dos shorts, blusas e
sandálias, trajes que pouco usam em seus países de origem por causa do inverno rigoroso.
Com modernas máquinas fotográficas e câmeras de vídeo, passam horas, sol
a pino, caminhando por ruas, becos e ruelas, atrás de pontos turísticos, de gente que
encarna a baianidade nas roupas e adereços, de apresentações artísticas e fugindo do
assédio, por vezes irritante, dos vendedores de peças de artesanato e fitinhas do Senhor
do Bonfim.
Os turistas invadiram as ruas do Pelourinho esta semana, ávidos por conhecer
a cultura de uma terra exótica. As ruas do Centro Histórico, decoradas com fitas brancas
e peças com o tema do Carnaval a baiana de acarajé nas cores vermelha e
azul, estão cheias de cariocas, paulistas, cearenses, curitibanos, alemães, americanos,
italianos, ingleses, japoneses.
Eles se interessam por quase tudo que represente a cultura local. Na praça
do Cruzeiro de São Francisco, a atração, ontem, eram as roupas de baiana e Filhos de
Gandhy. Pagando R$ 2 por pessoa, o turista poderia tirar quantas fotos quisesse com as
fantasias. Foi o que fez o casal de publicitários Manuela Tomas, 26 anos, e Rodrigo
Costa, 27 anos. Eles vieram do Rio de Janeiro, estão hospedados na casa de uma amiga e
pretendem sair no Bloco Camaleão.
Salvador tem um alto astral contagiante, que não há em nenhum outro
lugar, disse Manuela. Para Rodrigo, esta é a primeira experiência no Carnaval de
Salvador. Estou preparado psicologicamente para ficar horas pulando embaixo de sol.
Quero ter essa experiência no meu currículo e vou voltar aqui depois, para conhecer mais
da cidade, revelou.
A foto com as fantasias típicas também interessa a baianos. A cantora
Cerise Gomes ela está na programação do Carnaval e deve se apresentar no
Abaeté, na madrugada da terça-feira fez questão do registro. Acho lindas
as baianas de acarajé.
Quem toma conta do negócio é a manicure Kátia de Araújo Santana, 31 anos.
Ela diz que o movimento só aumentou agora, às vésperas do Carnaval. Quando muito,
levo R$ 10, R$ 11 para casa por dia. É a comissão de 10%. Já é alguma coisa para quem
está desempregada, revelou.
Muitos turistas demonstram irritação com o assédio dos vendedores
ambulantes e rejeitam a supervalorização dos produtos de artesanato. Outros, contudo,
pagam absurdos pelas peças. Colares de contas azuis e brancas, aqueles usados pelos
Filhos de Gandhy e que custam R$ 1, são oferecidos por até R$ 20. Três colares de
madeira pintados de vermelho e marrom, nas mãos de um vendedor veterano, são encontrados
por um valor impagável por gente da terra: R$ 100.
O italiano Mauro Mariani, 43 anos, está em Salvador pela segunda vez, já
conhece o Carnaval, mas prefere se refugiar em Morro de São Paulo. Ele e a prima, Maria
Tereza, ficam na Bahia até dia 20 de março. Ao contrário do americano Ralph Andrews, 27
anos, que veio com um grupo de quatro amigos e pretende aproveitar ao máximo toda a
festa.
É a primeira vez que estamos aqui, não falamos quase nada de
português. Está difícil se virar, mas é uma grande aventura. Só tomo cuidado porque o
pessoal cobra muito caro por tudo. Quero aproveitar de tudo no Carnaval, afirmou.
A aposentada Marília Silveira e a neta Taís Ferreira voltam para o Rio de
Janeiro hoje, só porque as férias acabaram, fazem questão de frisar: Infelizmente
temos que voltar. Ainda assim, gostei muito do clima pré-carnavalesco. A cidade é uma
festa, falou Marília.
O casal curitibano Jair e Vera Baggio também volta hoje para casa. Eles vão
passar o Carnaval na Ilha de São João, em Santa Catarina, onde, garantem, a festa
também é muito animada nos clubes. Adorei Salvador, é muito linda. As pessoas
são muito alegres. Quero voltar e trazer meus filhos (de 12 e 18 anos), prometeu
Vera.
(© A Tarde) |