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No trio com Moraes Moreira

28/02/2003

Moraes Moreira

 
 

Luxo: amanhã, o cantor que primeiro subiu em trio-elétrico no Brasil dá o ar da graça no carnaval de Aracati, a 160 Km de Fortaleza. O repertório de Moraes Moreira perpassa carnavais, segue sacudindo multidões. Em entrevista, relembra os primeiros passos de carnavalesco, conta sobre os Novos Baianos e homenageia Zico

Ethel de Paula
da Redação

   Um susto na massa. Último dia 6 de fevereiro, no Rio de Janeiro, o cantor e compositor Moraes Moreira foi operado com urgência por conta de uma crise de apendicite. Assim, pairou latente a possibilidade do elétrico baiano, cria da escola de Dodô e Osmar, ficar de fora da folia nacional. Qual nada. Nove dias depois, o carnavalesco de carteirinha já estava fazendo show. ''Estou ótimo. Na cirurgia foi usada uma técnica supermoderna, não houve nem corte'', disse ao telefone. Melhor para nós. Antes de comandar a festa popular em cima dos trios-elétricos de Salvador, na Bahia, Moraes passa o sábado de carnaval em Aracati, a 160 Km de Fortaleza. Ele faz show junto com o filho Davi Moraes, prometendo sacudir a multidão com clássicos de seu repertório atemporal, como ''Pombo Correio'', primeiro grande sucesso, ''Chão da Praça'', ''Vassourinha'', ''Bloco do Prazer'' e ''Parou por que'', entre outros.

   ''Devo cantar pelo menos seis canções minhas com o Fausto Nilo, compositor cearense que admiro muito e de quem sinto muita saudade, por conta de nossa afinidade como amigos e parceiros musicais. É o arquiteto da música'', elogiou. Pioneirismo inconteste: Moraes Moreira foi o primeiro cantor de trio-elétrico do Brasil. ''Comecei produzindo os discos de Dodô e Osmar, fiz cinco deles e era um entusiasta. Comecei a subir no trio, mas naquela época não havia equipamento que possibilitasse a colocação da voz, era tudo instrumental. Aos poucos, a parafernália foi aumentando. E passei a cantar. ''Pombo Correio'' foi o primeiro sucesso do carnaval baiano que explodiu nacionalmente. Mas para pegar manha precisei aprender muito mais. Um cantor de trio deve saber se dirigir ao público e, se preciso, controlar uma briga no meio da multidão. Você é um condutor, tem responsabilidade sobre aquelas pessoas, não é fácil comandar a massa, como dizia o velho Chacrinha'', observou.

O POVO - Nos anos 80 você chegou a se afastar do carnaval de Salvador por conta da descaracterização da festa, a comercialização demasiada, a perda das tradições. Com que olhos vê o carnaval de rua hoje?
Moraes Moreira - Quando começou esse negócio de blocos de corda, como a gente chama, que vendem abadá, esse condomínio na via pública, eu reclamei bastante. Não que eu fosse contra, isso poderia existir, mas não monopolizando o carnaval, como aconteceu naquela época. Briguei muito por isso. Inclusive briguei sozinho porque as pessoas na Bahia só falavam nos bastidores, na hora de encarar a mídia ninguém falava. Sofri retaliações por conta disso. Mas acabou sendo providencial porque aí fui conhecer o carnaval pernambucano, que eu amo. Cheguei a passar três anos consecutivos lá, conhecendo aquela cultura maravilhosa, o que enriqueceu muito meu trabalho de carnavalesco inveterado. Torço para que o carnaval de Pernambuco continue lindo como é. Já tenho um projeto de voltar no ano que vem a Recife, para o Galo da Madrugada, vai ter um trio elétrico - Moraes Moreira e convidados. Mas a minha briga naquela época em Salvador era porque a festa popular, para o povo, que é o espírito do carnaval, estava sendo esquecida. Hoje em dia, em relação a isso, o carnaval de Salvador melhorou muito. Os trios independentes, que não têm corda nem vendem abadá, cresceram absurdamente. Hoje tem os trios do Gilberto Gil, de Dodô e Osmar, de Margareth Menezes, vários e vários. O povo tem o seu trio independente para brincar seu carnaval, além dos trios de blocos. A gente também sabe que a axé music não é o que está dominando, existe uma tendência muito grande para um carnaval cultural. O problema também é que a mídia não dá importância para as grandes tradições do carnaval baiano. A Band, por exemplo, faz transmissão direta do carnaval da Bahia, mas você não vê as grandes entidades como o Ilê Ayê ou os blocos afros. Só mostra o carnaval das grandes estrelas, como se diz, o carnaval pela metade, aquele que, supostamente, interessaria a audiência.

OP - Como eram os carnavais de sua infância em Ituaçu, cidade-natal, no interior da Bahia?
MM - Na minha cidade tinham duas bandas, Lira e Jandira. Sempre me interessei por música, desde criança, onde tinha música eu tava por perto, lembro das alvoradas, das festas da Padroeira com aquelas tubas, trompas, trompetes, clarinetes tocando dobrados. Gostava mesmo, no carnaval, era de ficar perto das orquestras, quando sobrava um tamborim já tocava... Na época, ouvia-se muito Lamartine Babo, Braguinha, esses mestres é que fizeram com que eu tivesse vontade de compor para o carnaval. Mas compor como eles fizeram. Músicas que ficassem por anos e anos, atravessassem muitos carnavais. Hoje em dia faço um carnaval inteiro com 99% de músicas minhas com meus parceiros. E graças a Deus essas músicas ficam. ''Pombo Correio'' continua sendo tocada, ''Bloco do Prazer'', ''Chão da Praça'', ''Vassourinha'', se for dar a lista a gente chega a 30 músicas. Fico feliz por isso.

OP - O primeiro instrumento que você ganhou de sua irmã foi uma sanfona. Você se saiu bem com ela?
MM - Sim. Em pouco tempo já animava casamento, batizado, São João. Meu professor de lá chamava-se Fidélis, era o sanfoneiro da cidade, que apesar de ser uma pessoa muito boa, cometeu um crime e acabou preso. Fiz até uma música sobre isso chamada ''O Valentão''. Ele era um dos valentões de Ituaçu. Um dia chegou um cara de fora, arrogante, e ele quis mostrar que ali era o pedaço dele. Mas era uma pessoa com um coração maravilhoso. Ficou preso por muito tempo e eu ia à cadeia municipal ouvir ele tocar sanfona. Era permitido. Pegava a sanfona dele emprestada, ele me ensinava algumas coisas e fizemos amizade. Eu tinha 9, 10 anos.

OP - Quem foram seus primeiros mestres de violão?
MM - Eram os grandes violonistas de minha cidade, Dudula e Arnunice. Eu ficava o tempo inteiro atrás deles, aprendendo. Era a noite inteira de serenatas, eu ali perturbando, quando o violão sobrava eu pegava... Daí fui para Salvador fazer vestibular para Medicina, o que obviamente não aconteceu, e encontrei um grande mestre que foi ninguém menos do que o Tom Zé. Ele dava curso de violão no Seminário de Música de Salvador, onde fui estudar. Ouviu minhas primeiras composições, deu muita força, disse que eu era musical, que ia pra frente. Foi superimportante. Aprendi muito com ele e chegamos a compor juntos.

OP - Você foi morar numa pensão em Salvador onde acabou conhecendo Paulinho Boca de Cantor e Luís Galvão. Esse foi o começo dos Novos Baianos?
MM - Inclusive foi o Tom Zé que me apresentou ao Galvão, conheci o Paulinho, fomos formando um grupo, era a época do Tropicalismo, a gente estava empolgado com isso, fizemos alguns shows em Salvador, tivemos a oportunidade de estar com Caetano e Gil na época em que eles estavam quase partindo para o exílio... e quando eles foram embora nós chegamos em São Paulo querendo manter aquela bandeira. Poderia morrer tudo ali se não tivesse quem desse continuidade. Acho que os Novos Baianos tiveram essa importância, nós fomos muito influenciados por eles, mas tínhamos também nossa personalidade. Ocupamos aquele vazio naquele momento na cultura brasileira. Começamos o grupo, gravamos nosso primeiro disco, chamado Ferro na Boneca, que teve um sucesso relativo, participamos dos festivais da Record e finalmente fizemos o segundo disco, Acabou Chorare, que foi o que nos levou para o Brasil todo, isso já depois do nosso encontro com João Gilberto, que até hoje é nosso guru musical.

OP - Como era a vida no sítio dos Novos Baianos? Por que morar juntos e o que ficou de interessante dessa experiência?
MM - Chegamos à conclusão de que morar juntos era necessário para desenvolver um trabalho mais coeso. Não tinha aquela história de pegar o guitarrista na casa dele, o baixista lá na frente... Queríamos passar 24 horas juntos, tocando, conversando, jogando futebol, tudo para que esse trabalho tivesse uma força maior. E realmente isso aconteceu. Nosso ensaio era a própria vida, a gente vivia ensaiando. Durante o tempo em que fiquei lá, por cinco anos, quase seis, a convivência com o grupo possibilitou um entrosamento, um entendimento que é notado nos discos dos Novos Baianos. A gente falava: 'Nós somos um time de futebol, concentrados o tempo todo, cada um na sua posição, encarregado de uma coisa'. Eu fazia música, o Galvão fazia letra, o Paulinho cantava e por aí vai... Construímos uma nova família, onde não havia laços de sangue, mas ideais: viver para a música brasileira, dinheiro era tudo dividido, ninguém era dono de nada, tudo em função da comunidade, do trabalho. Uma comunidade brasileiríssima, onde se fazia música e até se lia a Bíblia, claro que interpretando da maneira mais louca possível (risos).

OP - E o futebol, você ainda joga? Aliás, como flamenguista, deve estar aí às voltas com a comemoração dos 50 anos do Zico...
MM - Não jogo muito mais não, tô com a chuteira meio furada, mas gosto de futebol, componho para futebol, só para o Zico fiz três músicas... quando o Flamengo foi campeão, quando ele foi para a Europa, quando voltou da Europa e também estive na despedida dele do futebol. Dei inclusive um depoimento para um programa de televisão para marcar esses 50 anos. Disse que ele não tem idade, que é a eterna referência do futebol-arte, do Flamengo, da ética no futebol. Para completar, só faltava ser presidente do Flamengo!

OP - Seria a glória! (risos)

SERVIÇO:
Moraes Moreira e Davi Moraes
- Amanhã, sábado, dia 1º, em Aracati, a 160 Km, a partir de 21 horas. Outras atrações do dia são Ricardo Chaves e a banda Diamante Cor de Rosa, que faz show no palco armado na Praça das Comunicações. Domingo, dia 02, bandas Patrulha e DonaLeda. Segunda, 03, bandas Yobaiou, Arpoador e Dona Zefa. Terça, 04, bandas Yobaiou e Locomotiva e a cantora Elba Ramalho. Todos a partir de 20 horas.

(© O Povo-NoOlhar.com.br)


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