Luxo:
amanhã, o cantor que primeiro subiu em trio-elétrico no Brasil dá o ar da graça no
carnaval de Aracati, a 160 Km de Fortaleza. O repertório de Moraes Moreira perpassa
carnavais, segue sacudindo multidões. Em entrevista, relembra os primeiros passos de
carnavalesco, conta sobre os Novos Baianos e homenageia Zico
Ethel de Paula
da Redação
Um susto na massa. Último dia
6 de fevereiro, no Rio de Janeiro, o cantor e compositor Moraes Moreira foi operado com
urgência por conta de uma crise de apendicite. Assim, pairou latente a possibilidade do
elétrico baiano, cria da escola de Dodô e Osmar, ficar de fora da folia nacional. Qual
nada. Nove dias depois, o carnavalesco de carteirinha já estava fazendo show. ''Estou
ótimo. Na cirurgia foi usada uma técnica supermoderna, não houve nem corte'', disse ao
telefone. Melhor para nós. Antes de comandar a festa popular em cima dos trios-elétricos
de Salvador, na Bahia, Moraes passa o sábado de carnaval em Aracati, a 160 Km de
Fortaleza. Ele faz show junto com o filho Davi Moraes, prometendo sacudir a multidão com
clássicos de seu repertório atemporal, como ''Pombo Correio'', primeiro grande sucesso,
''Chão da Praça'', ''Vassourinha'', ''Bloco do Prazer'' e ''Parou por que'', entre
outros.
''Devo cantar pelo menos seis canções minhas com o Fausto Nilo, compositor
cearense que admiro muito e de quem sinto muita saudade, por conta de nossa afinidade como
amigos e parceiros musicais. É o arquiteto da música'', elogiou. Pioneirismo inconteste:
Moraes Moreira foi o primeiro cantor de trio-elétrico do Brasil. ''Comecei produzindo os
discos de Dodô e Osmar, fiz cinco deles e era um entusiasta. Comecei a subir no trio, mas
naquela época não havia equipamento que possibilitasse a colocação da voz, era tudo
instrumental. Aos poucos, a parafernália foi aumentando. E passei a cantar. ''Pombo
Correio'' foi o primeiro sucesso do carnaval baiano que explodiu nacionalmente. Mas para
pegar manha precisei aprender muito mais. Um cantor de trio deve saber se dirigir ao
público e, se preciso, controlar uma briga no meio da multidão. Você é um condutor,
tem responsabilidade sobre aquelas pessoas, não é fácil comandar a massa, como dizia o
velho Chacrinha'', observou.
O POVO - Nos anos 80 você chegou a se afastar do carnaval de Salvador por
conta da descaracterização da festa, a comercialização demasiada, a perda das
tradições. Com que olhos vê o carnaval de rua hoje?
Moraes Moreira - Quando começou esse negócio de blocos de corda, como a
gente chama, que vendem abadá, esse condomínio na via pública, eu reclamei bastante.
Não que eu fosse contra, isso poderia existir, mas não monopolizando o carnaval, como
aconteceu naquela época. Briguei muito por isso. Inclusive briguei sozinho porque as
pessoas na Bahia só falavam nos bastidores, na hora de encarar a mídia ninguém falava.
Sofri retaliações por conta disso. Mas acabou sendo providencial porque aí fui conhecer
o carnaval pernambucano, que eu amo. Cheguei a passar três anos consecutivos lá,
conhecendo aquela cultura maravilhosa, o que enriqueceu muito meu trabalho de carnavalesco
inveterado. Torço para que o carnaval de Pernambuco continue lindo como é. Já tenho um
projeto de voltar no ano que vem a Recife, para o Galo da Madrugada, vai ter um trio
elétrico - Moraes Moreira e convidados. Mas a minha briga naquela época em Salvador era
porque a festa popular, para o povo, que é o espírito do carnaval, estava sendo
esquecida. Hoje em dia, em relação a isso, o carnaval de Salvador melhorou muito. Os
trios independentes, que não têm corda nem vendem abadá, cresceram absurdamente. Hoje
tem os trios do Gilberto Gil, de Dodô e Osmar, de Margareth Menezes, vários e vários. O
povo tem o seu trio independente para brincar seu carnaval, além dos trios de blocos. A
gente também sabe que a axé music não é o que está dominando, existe uma tendência
muito grande para um carnaval cultural. O problema também é que a mídia não dá
importância para as grandes tradições do carnaval baiano. A Band, por exemplo, faz
transmissão direta do carnaval da Bahia, mas você não vê as grandes entidades como o
Ilê Ayê ou os blocos afros. Só mostra o carnaval das grandes estrelas, como se diz, o
carnaval pela metade, aquele que, supostamente, interessaria a audiência.
OP - Como eram os carnavais de sua infância em Ituaçu, cidade-natal, no
interior da Bahia?
MM - Na minha cidade tinham duas bandas, Lira e Jandira. Sempre me
interessei por música, desde criança, onde tinha música eu tava por perto, lembro das
alvoradas, das festas da Padroeira com aquelas tubas, trompas, trompetes, clarinetes
tocando dobrados. Gostava mesmo, no carnaval, era de ficar perto das orquestras, quando
sobrava um tamborim já tocava... Na época, ouvia-se muito Lamartine Babo, Braguinha,
esses mestres é que fizeram com que eu tivesse vontade de compor para o carnaval. Mas
compor como eles fizeram. Músicas que ficassem por anos e anos, atravessassem muitos
carnavais. Hoje em dia faço um carnaval inteiro com 99% de músicas minhas com meus
parceiros. E graças a Deus essas músicas ficam. ''Pombo Correio'' continua sendo tocada,
''Bloco do Prazer'', ''Chão da Praça'', ''Vassourinha'', se for dar a lista a gente
chega a 30 músicas. Fico feliz por isso.
OP - O primeiro instrumento que você ganhou de sua irmã foi uma sanfona.
Você se saiu bem com ela?
MM - Sim. Em pouco tempo já animava casamento, batizado, São João. Meu
professor de lá chamava-se Fidélis, era o sanfoneiro da cidade, que apesar de ser uma
pessoa muito boa, cometeu um crime e acabou preso. Fiz até uma música sobre isso chamada
''O Valentão''. Ele era um dos valentões de Ituaçu. Um dia chegou um cara de fora,
arrogante, e ele quis mostrar que ali era o pedaço dele. Mas era uma pessoa com um
coração maravilhoso. Ficou preso por muito tempo e eu ia à cadeia municipal ouvir ele
tocar sanfona. Era permitido. Pegava a sanfona dele emprestada, ele me ensinava algumas
coisas e fizemos amizade. Eu tinha 9, 10 anos.
OP - Quem foram seus primeiros mestres de violão?
MM - Eram os grandes violonistas de minha cidade, Dudula e Arnunice. Eu
ficava o tempo inteiro atrás deles, aprendendo. Era a noite inteira de serenatas, eu ali
perturbando, quando o violão sobrava eu pegava... Daí fui para Salvador fazer vestibular
para Medicina, o que obviamente não aconteceu, e encontrei um grande mestre que foi
ninguém menos do que o Tom Zé. Ele dava curso de violão no Seminário de Música de
Salvador, onde fui estudar. Ouviu minhas primeiras composições, deu muita força, disse
que eu era musical, que ia pra frente. Foi superimportante. Aprendi muito com ele e
chegamos a compor juntos.
OP - Você foi morar numa pensão em Salvador onde acabou conhecendo
Paulinho Boca de Cantor e Luís Galvão. Esse foi o começo dos Novos Baianos?
MM - Inclusive foi o Tom Zé que me apresentou ao Galvão, conheci o
Paulinho, fomos formando um grupo, era a época do Tropicalismo, a gente estava empolgado
com isso, fizemos alguns shows em Salvador, tivemos a oportunidade de estar com Caetano e
Gil na época em que eles estavam quase partindo para o exílio... e quando eles foram
embora nós chegamos em São Paulo querendo manter aquela bandeira. Poderia morrer tudo
ali se não tivesse quem desse continuidade. Acho que os Novos Baianos tiveram essa
importância, nós fomos muito influenciados por eles, mas tínhamos também nossa
personalidade. Ocupamos aquele vazio naquele momento na cultura brasileira. Começamos o
grupo, gravamos nosso primeiro disco, chamado Ferro na Boneca, que teve um
sucesso relativo, participamos dos festivais da Record e finalmente fizemos o segundo
disco, Acabou Chorare, que foi o que nos levou para o Brasil todo, isso já
depois do nosso encontro com João Gilberto, que até hoje é nosso guru musical.
OP - Como era a vida no sítio dos Novos Baianos? Por que morar juntos e o
que ficou de interessante dessa experiência?
MM - Chegamos à conclusão de que morar juntos era necessário para
desenvolver um trabalho mais coeso. Não tinha aquela história de pegar o guitarrista na
casa dele, o baixista lá na frente... Queríamos passar 24 horas juntos, tocando,
conversando, jogando futebol, tudo para que esse trabalho tivesse uma força maior. E
realmente isso aconteceu. Nosso ensaio era a própria vida, a gente vivia ensaiando.
Durante o tempo em que fiquei lá, por cinco anos, quase seis, a convivência com o grupo
possibilitou um entrosamento, um entendimento que é notado nos discos dos Novos Baianos.
A gente falava: 'Nós somos um time de futebol, concentrados o tempo todo, cada um na sua
posição, encarregado de uma coisa'. Eu fazia música, o Galvão fazia letra, o Paulinho
cantava e por aí vai... Construímos uma nova família, onde não havia laços de sangue,
mas ideais: viver para a música brasileira, dinheiro era tudo dividido, ninguém era dono
de nada, tudo em função da comunidade, do trabalho. Uma comunidade brasileiríssima,
onde se fazia música e até se lia a Bíblia, claro que interpretando da maneira mais
louca possível (risos).
OP - E o futebol, você ainda joga? Aliás, como flamenguista, deve estar
aí às voltas com a comemoração dos 50 anos do Zico...
MM - Não jogo muito mais não, tô com a chuteira meio furada, mas gosto de
futebol, componho para futebol, só para o Zico fiz três músicas... quando o Flamengo
foi campeão, quando ele foi para a Europa, quando voltou da Europa e também estive na
despedida dele do futebol. Dei inclusive um depoimento para um programa de televisão para
marcar esses 50 anos. Disse que ele não tem idade, que é a eterna referência do
futebol-arte, do Flamengo, da ética no futebol. Para completar, só faltava ser
presidente do Flamengo!
OP - Seria a glória! (risos)
SERVIÇO:
Moraes Moreira e Davi Moraes - Amanhã, sábado, dia 1º, em Aracati, a 160 Km, a
partir de 21 horas. Outras atrações do dia são Ricardo Chaves e a banda Diamante Cor de
Rosa, que faz show no palco armado na Praça das Comunicações. Domingo, dia 02, bandas
Patrulha e DonaLeda. Segunda, 03, bandas Yobaiou, Arpoador e Dona Zefa. Terça, 04, bandas
Yobaiou e Locomotiva e a cantora Elba Ramalho. Todos a partir de 20 horas.
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