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 Festa do Ilê Aiyê conjuga ritual afro com tambores maranhenses

02/03/2003

Grupo afro Ilê Aiyê


 

da Reuters, em Salvador

   Os rituais se perpetuam e o respeito à herança negra é uma viga mestra. Defensor de raízes, o primeiro grupo afro da Bahia, o Ilê Aiyê, apresentou um tema inédito no Carnaval em seu desfile na noite de ontem, no bairro da Liberdade.

   O grupo quebrou a tradição de homenagear nações africanas e desta vez, em seu 29º aniversário, abordou um tema brasileiro: os tambores do Maranhão. O mote musical e a execução vigorosa dos 150 percussionistas, uma marca registrada do bloco, contagiaram a comunidade e os visitantes durante o desfile.

   Nem mesmo o início da jornada, com a subida de uma ladeira íngreme de pelo menos 300 metros, tirou o fervor de foliões. O cortejo se iniciou em frente ao número 233 da rua do Curuzu, onde fica a casa de mãe Hilda e onde nasceu o Ilê Aiyê pelas mãos de seu filho, Antonio Carlos dos Santos, conhecido atualmente por Vovô.

   O bairro da Liberdade é um dos mais populosos de Salvador e, com 600 mil negros -conforme dados da diretoria do grupo-, representa a maior concentração da raça negra no País.

   Todos os orixás abençoam a festa do Ilê Aiyê. A importância do ritual de abertura é tamanha que Caetano Veloso e sua mulher Paula Lavigne, além do prefeito e da primeira-dama, são habituées do evento.

   A atriz Fernanda Torres compareceu pela terceira vez consecutiva para sentir in loco as vibrações dos pais e mães-de-santo. "É impressionante", disse a atriz, depois de três bênçãos distribuídas à multidão que se espremia em frente à casa de mãe Hilda.

   Foram chuvas de milho, pipoca e pó de pemba (uma espécie de farinha utilizada para os rituais de bem-aventurança do candomblé).

   Os preparativos para a saída do bloco também tiveram pombas brancas soltas pelas entidades mais importantes do terreiro, ato combinado com cornetas e percussão. Uma saraivada de fogos completou o cenário.

Tambores

   Há 12 anos como um dos cantores do Ilê Aiyê, o soteropolitano Paulinho, batizado Walfran Santos Nascimento, enfatiza que a raiz musical do grupo preserva o som afro como base.

   "Por isso a escolha do tema dos tambores do Maranhão faz muito sentido", disse, acrescentando que a origem negra na tradição musical do Maranhão converge para a proposta do Ilê Aiyê. "Tenho confiança na aceitação do público para o tema."

   A expectativa se confirmou no desfile. Os 3,8 mil associados, sem falar de milhares de pessoas em calçadas e casas ao longo das ruas da Liberdade, entoaram em uníssono o refrão: "Lá vem o Ilê Aiyê, empurrado pela massa até o dia amanhecer."

Cores e alegria

   Nada de abadás. Como sempre, associados do Ilê desfilaram modelos de temática afro. Sementes e dizeres nas cores preto, amarelo, vermelho e branco -em contraposição a calças brancas ou a detalhes brancos nos vestidos das mulheres- compunham o visual deste ano.

   A mesma túnica exibida pelos foliões foi usada pelos músicos, que ataram faixas amarelas na cabeça, no pescoço e na cintura para contrastar com o padrão colorido escolhido neste Carnaval.

   Para o folião e doutor em economia Mamadu, que nasceu em Guiné-Bissau mas está há 22 anos no Brasil, participar do Ilê Aiyê é uma oportunidade única.

   "Até três anos atrás, sempre viajávamos no Carnaval, mas desde que viemos pela primeira vez (ao Ilê Aiyê) só temos vontade de voltar", disse ao lado de sua mulher, a soteropolitana Iara. "É um espetáculo de alegria e de devoção unidas."

(© Folha Online)

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