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 Jazz e blues agora em Fortaleza

06/03/2003

Hermeto Pascoal enfeitiçou a platéia em Guaramiranga e promete repetir a dose hoje em Fortaleza


 

Depois de lotar as cidades do Maciço do Baturité no período do carnaval, as principais atrações do IV Festival de Jazz e Blues de Guaramiranga tocam de hoje até domingo em Fortaleza. O bruxo Hermeto Pascoal abre a programação hoje no anfiteatro do Centro Dragão do Mar, com abertura da Marajazz

Christiane Viana
Especial para O POVO

   O homem é uma usina sonora ambulante. Não pára de fazer música um só minuto. Com ele, até o ato mais prosaico pode virar inspiração para um improviso. Foi assim que, de banho tomado, depois de percorrer uma trilha no meio da mata em Guaramiranga, Hermeto Pascoal sentou-se no sofá do hotel para conversar com a reportagem do O POVO e, na hora, tirou um som de sua xícara de café!

   Hoje, o público local pode conferir toda essa versatilidade do músico alagoano em duas oportunidades. A primeira, às 11 horas, durante o workshop que realizará no auditório do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. À noite, ele faz show no anfiteatro com abertura da banda cearense Marajazz. Os eventos são parte do Festival de Jazz & Blues de Guaramiranga que, desde sua segunda edição, em 2001, acontece em versão compacta também em Fortaleza.

   Hermeto aproveita as apresentações no Ceará - ele tocou ainda no sábado, em Guaramiranga, na abertura do festival - para lançar seu novo CD, Mundo Verde Esperança. O disco estará à venda no local do show.


O POVO - Qual a sua memória mais antiga relativa à música?
Hermeto Pascoal - Ah, é justamente o dia em que eu nasci, 22 de junho de 1936. Então, quando perguntam quanto tempo tenho de música, digo que cronologicamente e musicalmente 66 anos. Eu tenho um filme em minha mente. Até, antes de falecer, a minha mãe chorou quando fui dizendo pra ela como era o lugar onde nasci, o quarto... é como se eu estivesse assistindo de fora pra dentro, minha aura registrando tudo isso. Então, esse foi meu primeiro som, meu primeiro degrau pra minha vida aqui na Terra.

OP - E o que primeiro se tornou instrumento nas suas mãos?
HP - O primeiro foi meu corpo. Depois, vieram as coisas do mato, né? Eu, aqui, (em Guaramiranga) tô no céu, porque meu mundo sempre foi assim; até os 14 anos era o dia todo no mato, andando, subindo e descendo árvores, fazendo os instrumentinhos, tocando com as folhas. Isso foi muito bom pra minha formação. Então, eu posso tocar com uma sinfônica, posso tocar todo tipo de música, mas sempre com a minha essência, a essência do Norte e do Nordeste do Brasil. Aí, foi espalhando pelo mundo e essa música, hoje, chamo de música universal... Antigamente, a minha música era um cesto que eu podia encher e segurar. Hoje em dia, ela se ampliou tanto que não cabe mais... é de todo mundo. Minha música é nossa.

OP - É uma música muito livre. O senhor teve alguma influência? Escutava-se muita música na sua casa?
HP - Não. Na minha terra não tinha luz elétrica. Até eu sair de lá, ainda não tinha chegado. Minha vida era como te falei, no mato, com os animais de cima e de baixo. Eu ficava na água com os sapos, que são muito inteligentes; com os passarinhos... No rio, os sapos já me conheciam. Quando eu chegava com os instrumentos, tocando na beira do rio, os sapos faziam aquela orquestra! Nas ávores, eu dava duas notinhas na flautinha, que fazia com cano de mamona, e as árvores ficavam escuras de tanto passarinho, de todos os tipos. E, quando eu ia embora, eles iam também, davam tchau pra mim; eu pra eles. Parece brincadeira. É uma coisa assim... minha comunicação com boi, vaca, jumento, todo tipo de animal. Eu tocava, eles vinham e ficavam escutando. Mas não tinha divulgação nem nada. E vim aprender teoria mais ou menos com uns 42 pra 43 anos de idade. Então, foi muito bom desenvolver a mente para, depois, aprender teoria. Muita gente diz que teoria é música, mas não é, não. Música você nasce com ela. Todo mundo tem música na cabeça. Teoria você aprende fácil. Eu só fui me alfabetizar, musicalmente falando, com 42 anos. Tava com a cabeça cheia de idéia, de coisas, ave Maria! Aí, não parei mais de compor. Hoje, tenho aproximadamente 4000 músicas, fora as que eu perco, faço viajando, não escrevo, deixo pra lá, vem outra. E minha vida é essa, tocar sem parar. E tudo veio desse alicerce, que foi ter nascido no mato.

OP - E quanto às influências? Tem alguém que o senhor gosta ou gostava de escutar?
HP - Eu gostava... gostava, não, gosto demais, até falei que é uma injustiça muito grande não ter uma estátua de Luiz Gonzaga em todos os lugares do Brasil, pelo que ele fez pela nossa música. Então, eu me influenciei muito por ele, porque na minha terra tinha as feiras com aqueles gramofones, a gente pagava um cruzado pra tocar uma vez o disco do Luiz Gonzaga. Quem tinha um cruzado escutava uma vez, quem tinha dois escutava duas. Mas eu, como tinha o ouvido muito bom, deixava os outros pagando e ficava de longe, escutando um monte de vezes! Então, a influência mesmo, mais diretamente, sempre foi com Luiz Gonzaga. Todo mundo conhece o trabalho dele. Se a gente começar a cantar ''Asa Branca'', pode ser no Japão que vão reconhecer.

OP - Queria que o senhor falasse um pouco sobre seu novo disco.
HP - O CD tá muito bonito, modéstia à parte. São 14 faixas, 13 dedicadas aos meus netos e uma dedicada ao Victor Assis Brasil, músico já falecido. Mais do que nos meus trabalhos anteriores, este tem uma participação grande de vocal. Tem três cantoras maravilhosas da orquestra do Itiberê (Zwarg), meu baixista. É a melhor orquestra do Brasil. Inclusive, tenho um livro chamado Calendário dos Sons, em que fiz uma música para cada um dos dias. São 366 pra também homenagear os bissextos. E o Itiberê tá gravando com a orquestra dele 32 músicas dessas.

OP - A denominação de multiinstrumentista agrada ao senhor?
HP - Eu fico encabulado, porque não sou tanto assim, não. Existe um pouco de exagero. Mas é bonito, né? Às vezes me chamam de bruxo, de mago. Gozado é que, quando eu tava com um barrigão desse tamanho, me chamavam de mago. Agora, emagreci um pouquinho não estão me chamando mais, não. Esses apelidos bonitos são bons pra mim. Por exemplo, eu faço um CD, ninguém diz que gostou de uma música só. Cada um diz que gostou de uma música diferente. Isso é uma prova de que tenho muita versatilidade. Quando é um disco que todo mundo gosta só de uma música, o negócio tá ruim.

OP - Como o senhor vê, então, esse esquema das grandes gravadoras em usar faixa de trabalho pra puxar a divulgação de um disco?
HP - Isso é comercial. Por isso que a música não é boa, é descartável. Eles querem dinheiro, não querem mostrar qualidade, não querem evoluir culturalmente. Então, pra eles tanto faz. É fácil. Num dia, você faz 20 CDs desses ou mais. Agora, eles não pensam no povo, nas crianças, que deveriam ter influência de algo de qualidade. Mas a gente tá lutando pra isso.

OP - O reconhecimento internacional, como chegou?
HP - É interessante. Porque, quando comecei, o pessoal dizia: ''Rapaz, vai embora daqui, santo de casa não faz milagre''. E eu: ''Então não é santo, é diabo''. Tem que fazer milagre é em casa primeiro! Eu fui um dos músicos que tiveram mais oportunidade de ir morar lá fora, mas nunca quis, porque sempre quis mostrar meu trabalho aqui no Brasil. Sempre saí daqui pra fazer show no Exterior com a passagem de ida e volta já pra garantir.

OP - O que o público de Fortaleza pode esperar de seu show no Centro Dragão do Mar? Vai ser parecido com o daqui de Guaramiranga?
HP - Nunca é parecido, porque os dias também não são iguais (risos). Então, o que eles podem esperar é que o som vai acontecer, mas como e o que vai ser, só se sabe na hora em que eu botar o pé, sentir o terreno e Deus me dê intuição, porque música tem sobrando. Agora, devo tocar coisas do disco novo, porque estamos lançando.

OP - Como foi a experiência de participar do documentário Janela da Alma (de Walter Carvalho e João Jardim)?
HP - Eles foram filmar lá em casa. Eu contando histórias, conversando... A minha vista corre muito, né, e, no tempo que era mais novo, ia namorar uma menina e via três de uma vez. Aí, você não sabe, eu olho pra você, mas a outra pode pensar que tô olhando pra ela. Então, tinha uma brincadeira que ficavam cinco meninas de um lado e cinco rapazes do outro. E era no piscar do olho. Ora, eu piscando, quem é que vai saber pra onde tô olhando? Então, eu piscava e levantavam logo três e, aí, eu escolhia, tinha essa vantagem. Foi ótimo ter participado. Pela primeira vez fiz alguma coisa assim.

SERVIÇO:
Festival de Jazz & Blues de Guaramiranga em Fortaleza - O evento acontece de hoje a domingo, no Centro Dragão do Mar (Rua Dragão do Mar, 81 - Praia de Iracema). Workshops às 11 horas e shows a partir das 21 horas. Ingressos: R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (meia). Informações pelo fone: 488.8600.

(© O Povo-NoOlhar.com.br)

Festival de jazz no Ceará teve sete mil pessoas
 

Por Helton Ribeiro, especial para a Reuters

   GUARAMIRANGA, Ceará (Reuters) - O 4o Festival de Jazz & Blues de Guaramiranga, na serra cearense, terminou na terça-feira de Carnaval com a estimativa de que sete mil pessoas tenham assistido aos mais de trinta shows em quatro dias.

   O evento prossegue na capital do Estado, onde os principais shows serão reprisados de quinta-feira a domingo, no centro cultural Dragão do Mar.

   Hermeto Pascoal, Traditional Jazz Band, Baseado em Blues e Fernando Noronha & Black Soul estarão ao lado de quatro bandas eleitas pelo público de Guaramiranga. O resultado da votação será divulgado quarta-feira.

   Contrariando a imagem de sisudez associada ao gênero, a Traditional Jazz Band encerrou o festival com o show mais bem-humorado do evento.

   O grupo paulistano -- que segue o estilo original do jazz, como era tocado há cem anos em New Orleans --, fez muitas brincadeiras e piadas. Três integrantes chegaram a vestir perucas coloridas para simular um corinho feminino.

   A cantora paulista Izy Gordon também fez um show de jazz clássico, interpretando standards como "Summertime", "Georgia on My Mind", "Take the A Train" e "Satin Doll". A voz privilegiada e bem afinada teve o acompanhamento de cinco integrantes da Traditional.

   O Tributo a John Coltrane foi liderado pelo saxofonista carioca residente em Fortaleza Márcio Resende. Na banda destacava-se o baixista Jamil Joanes, que foi da banda Black Rio.

   Houve ainda participações de vários outros músicos como o guitarrista carioca Dino Rangel, que tinha se apresentado no domingo. O quinteto Marajazz, de Fortaleza, reforçado por percussão, representou o jazz fusion, mais contemporâneo.

(© UOL Música)

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