VALMIR SANTOS
DA REPORTAGEM LOCAL
Um tanto da expressão artística brasileira
de extrato popular que vigora neste século 21 em regiões do Nordeste e do Sudeste vai
dividir a cena com grandes nomes do teatro e da dança internacional no 17º Festival de
Montpellier - Printemps des Comédiens, a primavera dos artistas, o segundo mais
importante da França depois de Avignon. O rabequeiro Mestre Salustiano, de Recife, por
exemplo, poderá ser visto no mesmo dia em que o encenador inglês Peter Brook apresenta a
montagem de "La Mort de Krishna" ou o japonês Tadashi Suzuki, com
"Dionysus".
O Brasil terá um segmento exclusivo no
evento, que acontece de 6 de junho a 3 de julho, na cidade do sul da França. Trata-se do
projeto "Gingado", que ocupa a programação de 6 a 29 de junho, sempre das 18h
às 20h.
É lá, em cinco palcos do festival, ao ar
livre, que sete atrações brasileiras apresentarão algumas faces de uma cultura popular
que se pretende não necessariamente folclórica, como observa o diretor do festival,
Daniel Bedos.
"Eu tentei deixar essa imagem
tradicional que os ocidentais têm dos artistas brasileiros [samba e Carnaval". Os 30
artistas que participam do "Gingado" são, me parece, depositários de um saber
artístico popular. Isso guiou a minha escolha", diz Bedos, 53.
Há duas décadas à frente do evento, o
diretor visitou o país em março de 2002. Assistiu a 38 espetáculos, ao lado da
produtora Julia Gomes, e convocou sete projetos para mostrar em Montpellier.
Além de Mestre Salu, que passou mais um
Carnaval comandando desfiles de maracatus rurais pelas ruas de Recife e região,
Pernambuco estará representado ainda pelo Mamulengo Só-Riso, dirigido por Fernando
Augusto Gonçalves Santos. O grupo de Olinda atua há 28 anos com os bonecos que lhe dão
nome e têm origem na tradição dos presépios.
Da Bahia, vão duas representantes de samba
de roda: Rita da Barquinha, da vila de Bom Jesus dos Pobres, em Saubara, e Ducinéia
Cardoso Paciência, a Nega, de São Francisco do Conde. Ambos os municípios são da
região do Recôncavo.
Rita da Barquinha e Nega representarão seus
respectivos grupos populares (a primeira, com o nome dela, a segunda, o Raízes de Angola,
dirigido por Alva Célia Medeiros).
O apelido de Rita se deve à barquinha que
carrega na cabeça dançando durante a cerimônia de oferendas nas passagens de Ano Novo
em Bom Jesus, onde a maioria da população sobrevive da pesca. "Leva as coisas ruins
e traz as coisas boas", diz Rita, 53.
Como ocorre com a maioria dos artistas
autodidatas, ela aprendeu os passos e os cantos na infância, com a mãe. Seu grupo (20
baianas mais dez percussionistas) também frequenta outras festas nos municípios
vizinhos.
"Nunca saí do país. Sinto que temos
que aproveitar a oportunidade para divulgar a barquinha. Fico emocionada em ser a pessoa
escolhida para representar a população daqui", afirma.
A Cia. Brasileira de Mystérios e Novidades,
dirigida por Lígia Veiga, levará excertos do espetáculo "Pajelança".
Completam a programação duas companhias voltadas para a dança, a paulista Rodagira, da
coreógrafa Tatiana Tardioli, e a carioca Cia. Aérea de Dança, do coreógrafo João
Carlos da Silva Ramos. O cantor e compositor Vinícius Cantuária vai representar a MPB no
segmento "Fête Latino" (festa latina).
(© Folha de S. Paulo)
| Mestre Salu enfatiza
percussão e coreografia no exterior |

DA REPORTAGEM LOCAL
O rabequeiro pernambucano
Manoel Salustiano Soares, Mestre Salu, 56, é uma das principais referências da cultura
popular brasileira contemporânea.
Com mais de cinco décadas de
música e dança "arredondadas pela natureza", como afirma esse autodidata
nascido e criado na Zona da Mata, ele transita com autonomia entre Chico Science e Ariano
Suassuna, Mestre Ambrósio e Antônio Nóbrega.
Em junho, Mestre Salu embarca
para a França. É um dos destaques da programação brasileira no Festival de
Montpellier. No mês seguinte, leva sua rabeca ao Lincoln Center, em Nova York.
"Até que enfim os estrangeiros estão se interessando pela nossa cultura", diz
Salu. Será a segunda vez que sai do Brasil. Na primeira, em 94, ele passou 17 dias em
Cuba e encontrou-se com Fidel Castro.
Para Montpellier, levará o
espetáculo "O Sonho da Rabeca", no qual conjuga percussão e coreografia. Para
NY, priorizará a percussão. Entre os 14 músicos ou dançarinos, há nove filhos de
Salu, que herdou do pai o dom para os instrumentos -o rabequeiro João Salu, 84, segue na
ativa.
"Mesmo para a música
tradicional é preciso ter o dom", diz. O mesmo dom que presume empregar na arte da
reprodução: são 15 filhos, entre eles a caçula, Célia Beatriz, nascida há cerca de
40 dias. Frutos de um casamento de 25 anos, divórcio assinado e nove namoradas. (VS)
(© Folha de S.
Paulo) |