Libelo do diretor contra a produção
nacional, "Revisão Crítica do Cinema Brasileiro" demarca plano estético
SILVANA ARANTES
DA REPORTAGEM LOCAL
Antes de tomar de vez a câmera na mão, o
cineasta baiano Glauber Rocha (1939-1981) quis colocar as idéias no lugar.
Em 1963, aos 24 anos, sem haver ainda
concluído o filme que entraria em sua biografia como obra-prima e um dos marcos do cinema
novo -"Deus e o Diabo na Terra do Sol", de 1964-, o diretor atacou (quase) todos
e (quase) tudo na história do cinema nacional, com a publicação de "Revisão
Crítica do Cinema Brasileiro", que ganha nova edição neste mês pela editora Cosac
& Naify.
"É um livro de arestas, uma
obra-manifesto, feita para gerar polêmica e divisões. Há um gesto radical de Glauber no
sentido de demarcar terrenos no plano estético", diz Ismail Xavier, professor e
crítico de cinema, que assina o prefácio da obra.
No livro, Glauber "convoca os cineastas
a caminhar numa direção que não é apenas a do engajamento político e de um modo de
produção pautado pelo baixo orçamento, o cinema de autor", afirma o crítico.
A proposta militante do jovem diretor baiano
"envolve a idéia de uma criação pautada pela conexão com o espírito do
modernismo, da vanguarda do século 20 -a idéia da ruptura estilística e da busca de um
cinema poético", de acordo com Xavier.
Glauber propõe, enfim, que o Brasil
priorize um cinema novo.
As reações que o livro provocou em 1963
vão do aplauso ao desprezo e estão documentadas na fortuna crítica incluída nesta
reedição, da defesa do conterrâneo João Ubaldo Ribeiro à ironia corrosiva de Armindo
Blanco, para quem Glauber é um "profeta".
Literato e dono de uma curiosidade
intelectual que aspirava ao enciclopedismo, Glauber abre sua "Revisão" citando
Camões. "Não me interessou enumerar estatísticas e cifras, e sim interpretar os
fatos, se a tanto me ajudarem engenho e arte."
E a conclui no tom provocador de Mário de
Andrade. "Enquanto isso, os sabichões discutem se doce-de-abóbora não dá chumbo
pra canhão."
Inéditos
Em parceria com o professor Carlos Augusto
Calil, Xavier coordena a reedição comentada deste e de outros dois livros de Glauber
pelo selo Cosac & Naify.
A coleção ficará completa com a
publicação de um par de volumes inéditos de autoria do cineasta -a ficção
"Adamastor", cujo título reproduz o nome do pai do cineasta, e seu diários no
período de 1970 a 1974.
A agenda da editora prevê que antes dos
textos inéditos -que devem chegar às livrarias na primeira e na segunda metades de 2004,
respectivamente- estejam disponíveis as reedições comentadas de "A Revolução do
Cinema Novo", em setembro, e de "O Século do Cinema", prevista para o
primeiro semestre de 2004.
(© Folha de S. Paulo)