Centro Cultural Banco do Brasil apresenta
ciclo inédito de shows com Jorge Mautner, Elomar, Tom Zé e Walter Franco
Mônica Loureiro & Roberta Oliveira
Inovadores, loucos, rebeldes,
malditos. Rótulos como esses costumam ser impostos àqueles artistas que não se adequam
às regras da grande indústria fonográfica. Passam períodos no ostracismo, em outros
são "redescobertos", mas nunca são abandonados por seu público fiel.
Notável, entretanto, é a chance que o Centro Cultural Banco do Brasil está dando para
este mesmo público - de conferir num único evento um ciclo de shows históricos,
reunindo Jorge Mautner, Elomar, Tom Zé e Walter Franco. A série Trangressores,
que já passou pelo CCBB de Brasília, está em cartaz na filial do Rio de Janeiro e deve
ir em maio para São Paulo, reúne esses quatro nadadores contra a corrente dando
um panorama rico do atual momento de suas carreiras.
Jorge Mautner fez sua participação na série, num show que culminou com a
apresentação, em primeira mão, da inédita Sensibilidade Criadora, composta em
parceria com o carioca Joel Cabral. Ainda seguem-se as participações de Elomar (dia 18),
Tom Zé (dia 25) e Walter Franco (dia 1/4) - cada um "transgressor" a seu modo.
"Mautner foi um dos mentores da Tropicália; Walter tem passagens bombásticas em
festivais e é pioneiro da vanguarda paulista; Elomar eleva a música do sertão de forma
sublime; e Tom Zé dispensa comentários", descreve Carlos Belém, diretor artístico
e responsável pela concepção do projeto.
O processo de inovação na linguagem artística, em particular na música
popular, foi o que motivou Belém a concretizar a série. Quanto aos músicos, ele diz que
a escolha teve a ver com as afinidades de postura de suas carreiras. "Eles não se
submeteram aos caprichos da indústria", observa. A série é uma oportunidade para
os que ainda não conhecem o trabalho dos músicos - o roteiro vai mostrar um pouco da
história deles - ou fãs que querem buscar novidades. A série já passou pelo CCBB de
Brasília, onde o sucesso foi surpreendente - todos os shows ficaram lotados. "É
interessante o grande número de jovens na platéia. Apareceu, por exemplo, um menino de
17 anos que levou todos os discos - em vinil - do Walter Franco, que nem o próprio
tem!", lembra.
"Walter canta uma parceria inédita com Arnaldo Antunes, músicas do
último CD Tutano e sucessos como Serra do Luar. Elomar apresenta seu
cancioneiro e trechos de óperas. Tom Zé junta músicas dos últimos Com Defeito de
Fabricação e Jogos de Armar, marcos como Made in Brazil (Parque
Industrial) e algumas inéditas. E Mautner relê as parcerias com Caetano Veloso, a
obrigatória Maracatu Atômico e outras canções", resume Belém sobre as
contribuições de cada um dos "trangressores" ao ciclo.
Tom Zé: acerto aos 60 anos
"Estou até
preocupado em participar desse ciclo... Sou ultra-transgressor e tenho que ficar na bitola
certa para não descarrilhar!", brinca Tom Zé sobre sua participação no dia 25 na
série "Transgressores". Tom promete inéditas e surpresas com seus instrumentos
experimentais para a apresentação. "Eles são como uma linha de montagem, de vez em
quando uma coisa se mostra capaz de sintaxe e sobe ao palco", diz.
O baiano radicado em São Paulo diz que sua maior transgressão foi trabalhar
na fronteira do que é e não é música. "Acabei me direcionando ao encontro do
nível cognitivo das pessoas, treinei tanto que, tal qual os irmãos Villas Bôas, me
aproximei da região selvagem e, ao mesmo tempo, polida do homem. Mas por fatalidade, não
por escolha estética", filosofa.
Esse caminho diferenciado custou a Tom Zé anos de ostracismo - de 73, com o
não-entendimento de Todos os Olhos, até 90, quando David Byrne o
"descobriu" e o lançou no exterior. "Tive uma vida difícil, mas deu para
me manter com os shows solicitados pelos universitários em São Paulo. Na época eu
cortei todo o Estado com minha Brasília, ia onde os diretórios me chamavam. Engraçado
que não tinha a menor infra-estrutura: um levava o microfone, outro o amplificador... A
passagem de som demorava mais que o próprio show!", diverte-se. Nem assim o cantor e
compositor encontra motivos para se lamentar: "No Brasil a queixa é um hábito muito
querido e difundido. Não me considero vítima, cometi erros e sempre me responsabilizei
por eles".
Tom Zé teve uma outra virada em sua vida ao se apresentar no festival
pernambucano Abril Pro Rock em 99. "Até então eu estava fazendo sucesso nos Estados
Unidos, havia uma boa repercussão por aqui, mas eu ainda era considerado um artista
difícil. Foi com o público do APR que esse estigma caiu", lembra. Com fãs cada vez
mais jovens - segundo a Trama, o público médio de seu último disco (Jogos de Armar,
de 2000) é de 18 anos -, Tom Zé diz que só "acertou a mão" aos 60 anos.
"Eu ficava confuso, não tinha certeza se o que eu fazia prestava. Em certos momentos
tinha verdadeiro pavor em relação à música. Mas depois que vi o interesse do público
do exterior e o daqui também passei a acreditar novamente", confessa.
Tom Zé avisa que esse ano tem disco novo. "Eu não sou capaz de fazer
um disco por ano... Por um acaso fiz em 2002 o Santagustin (trilha do espetáculo
do grupo Corpo) e agora estou preparando um CD que será lançado pela Trama e Luaka Bop
(selo de Byrne)". Mas detalhes do novo trabalho, ele não dá: "É igual a
intestino de criança e urna eleitoral, ninguém sabe o que pode sair de dentro..."
A consagração do 'maldito'
Sob a alcunha de
`maldito', o cantor Jorge Mautner conquistou o coração dos fãs e suas obras alcançaram
amplidão tanto na MPB como na literatura. Sua produção cultural carrega vários Brasis
unidos numa mesma língua, que segundo ele, proclama a harmonia, a fusão e a fraternidade
da miscigenação. "Sou a favor do amor, da alegria e da libertação. Faço uma
literatura para libertar os demônios em direção à salvação. Sempre fui um autor
revolucionário. Combater a hipocrisia, para mim, é uma questão de honra", diz.
Em plena adolescência, Jorge Mautner já era dono de uma intelectualidade
brilhante lapidada através da leitura de vários autores, entre eles, Dostoievisky,
Heidegger, Nietzche, Faulkner, Guimarães Rosa, Augusto do Anjos e muitos outros. Mas foi
nos textos de Padre Antônio Vieira que encontrou a máxima inspiração: "Eu me
inspirava muito no naturalismo, e foi com ele que consegui o estalo certo. Desde então, a
minha prosa é naturalista, mas a visão é arquetipal e muito expressionista".
Sua carreira teve início como escritor e jornalista aos 21 anos, logo que
publicou seu primeiro livro Deus da Chuva e da Morte - que conquistou o
"Prêmio Jabuti". Três anos mais tarde, lança seu primeiro compacto (Radioatividade
e Não Não Não). "Com esse disco fui exilado em Nova York, onde vivi sete
anos de minha vida", conta. Nos EUA teve uma intensa atividade literária, musical e
cinematográfica - dirigiu e atou no filme O Demiurgo, em 1970, com a
participação de Gil, Caetano e José Roberto Aguilar. Além de escritor e cantor,
Mautner é poeta, violinista, pianista, bandolinista, compositor, cineasta e artista
plástico.
Mas garante que entre essas atividades, a música e a literatura são as mais
vitais. No ano passado, numa tacada só, lançou o CD Eu Não Peço Desculpa, em
parceria com Caetano Veloso, e também teve toda suas obras publicadas numa única caixa.
"Um belo dia Caetano me ligou e disse que queria fazer um trabalho inteiro comigo.
Soube que um crítico em Nova York colocou esse disco como o segundo maior disco do
ano".
Depois de passar o Carnaval na casa do amigo e Ministro da Cultura, Gilberto
Gil, Jorge Mautner retornou ao Rio para abrir a série "Transgressores" ao lado
de Nelson Jacobina (seu parceiro há 32 anos) e do grupo Sacanagem com Farinha, produzido
por Ben Gil (filho de Gil) e dirigido pela cantora Carla Visi. "Aproveitei que estava
na Bahia e fui prestigiar o grupo, tocando algumas composições com eles. Agora, foram
eles que vieram me prestigiar", conta ele. O show foi dividido em duas partes, a
primeira com as canções que foram consagradas nas vozes de outros cantores como Maracatu
Atômico, Orquídea Negra, Lágrimas Negras e O Vampiro. A segunda parte ficou
por conta das canções do CD com Caetano.
(© CliqueMusic.com.br)
Mautner abre série sobre transgressores na MPB
Hugo Sukman
Num país em que, para ficar na frase famosa, até as superproduções são underground
, falar em artistas marginais pode parecer piada, quando não pleonasmo. Por isso faz
sentido que os organizadores da série de shows Transgressores, que começa
hoje no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), com duas apresentações de Jorge Mautner,
tenham trocado o pejorativo termo marginal pelo positivo transgressor
para qualificar os artistas selecionados.
Inicialmente, apresenta-se Mautner e, nas terças-feiras seguintes Elomar,
Tom Zé e Walter Franco. O que eles têm em comum? Segundo o compositor e crítico Carlos
Sandroni, no catálogo do evento, eles trabalham longe dos grandes holofotes e dos
grandes movimentos, com os quais também não deixam de flertar ocasionalmente.
Ainda Sandroni: eles têm a influência decisiva dos formadores de opinião, dos
músicos apreciados por músicos, poetas apreciados por poetas.
Mautner sempre flertou com os grandes movimentos
Tirando isso, é difícil achar algo em comum entre os Transgressores:
Elomar com sua sinfonização da música nordestina de tradição ibérica; Tom
Zé com seus experimentalismos musicais e poéticos de matriz tropicalista; Walter Franco
com a simplicidade infantil de nítida influência concretista.
Entre eles, o que mais se adequa à definição de Sandroni é Mautner, que
se apresenta hoje a bordo de seu violino e acompanhado do eterno parceiro, Nelson
Jacobina, ao violão. De todos os transgressores, ele foi o que de forma mais
contundente flertou com os grandes movimentos. Influenciador de Caetano e Gil
desde que nos anos 60 publicou o livro Deus da chuva e da morte, por toda a
vida de compositor recebeu estima e apoio dos pupilos, que consagraram canções suas como
O vampiro e Maracatu atômico. Com seu misto de canção
popularesca e filosofia, tropicalismo e canções engajadas, pop e ritmos tradicionais,
Mautner sempre foi lembrado por todos os movimentos que passaram pela MPB, do BRock de
Lulu Santos que nos anos 80 gravou Samba dos animais ao mangue beat de Chico
Science que redescobre mais uma vez Maracatu atômico, até o disco que acabou
de lançar com Caetano, Eu não peço desculpa, produzido por músicos da
novíssima geração, como Kassin.
É essa trajetória, meio à margem, meio no seio do sucesso, que ele
relembra nos shows de hoje. Semana que vem, Elomar apresenta seu Concerto grosso.
Depois, Tom Zé mostra Persistindo o médico, os sintomas deverão ser consultados,
síntese dos dois últimos discos, Com defeito de fabricação e Jogos
de armar. Coerente com o zen-concretismo do seu verso famoso (Tudo
é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranqüilo),
Walter Franco encerra o evento com Consciência e paz. Transgressão também
pode ser tranqüila.
(© O Globo On Line)
Quarteto da ousadia na MPB
Rodrigo Fonseca
Repórter do JB
Unidos pela reflexão filosófica e pelo
legado tropicalista, quatro grandes nomes da música popular brasileira vão, a partir de
hoje, aproveitar o espaço do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) para levantar a
bandeira da inversão do status quo. Todas as terças, até o dia 1º de abril, às 12h e
às 18h, Jorge Mautner, Elomar, Tom Zé e Walter Franco vão aquecer seu caldeirão
experimental de som e poesia na defesa do projeto Transgressores, uma série de
shows individuais que tem como propósito rever o que significa ser vanguardista na MPB
destes dias pós-modernos.
- Transgredir é não estar
inserido. É seguir as propostas que fizemos longe dos imediatismos - diz o cantor Walter
Franco, 58 anos, que marcou época nos anos 60 com a canção Cabeça, lotada de
saliências concretistas, e que fechará o ciclo de transgressões no início de abril.
Mesmo quando se analisa à
luz do concretismo ou de qualquer outra das vanguardas modernas o lugar da ousadia na arte
contemporânea, é difícil chegar a um consenso. Mas o evento Trangressores está
disposto a tentar.
Um dos argumentos que
justificam a tentativa do projeto é o fato de o quarteto ter ganho fama, lá nos anos 60,
de maldito, pela obstinação de cada um deles em revelar o que há de experimental e
inovador dentro da música brasileira. Durante o show, eles vão discutir os novos
caminhos da música nacional, ao mesmo tempo em que passam em revista seu repertório.
Primeiro a se apresentar no
CCBB, revendo velhos sucessos e canções do recente CD Eu não peço desculpa,
gravado em parceria com Caetano Veloso, o cantor e violinista Jorge Mautner, 62 anos, dá
às mãos à filosofia pré-socrática de Heráclito, pensador da impermanência que
sempre iluminou seus caminhos.
- O nome Trangressores é
provocativo. Mas traduzo a idéia, antes de tudo, como algo experimentalista do ponto de
vista musical. Afinal, sou um transgressor do bem. Desde que comecei minha carreira sempre
busquei ser um harmonizador entre extrema direita e extrema esquerda. Tento
freqüentemente ouvir opostos, como Heráclito ensina - explica Mautner, que apresentará
hoje no CCBB clássicos como Orquídea, Locomotiva e Vampiro.
Tom Zé fecha com o colega
Mautner. Sob a ótica da sabedoria que seus 66 anos lhe deram, ele acredita que é mais
oportuno do que nunca falar em transgressão em um país que foi às urnas, no final do
ano passado, cometer um gesto de rebeldia, sob as bênçãos das leis.
- Desde a formação da
democracia, na Grécia Antiga, país algum ousou tanto como o Brasil, que elegeu um
torneiro mecânico como presidente da República - diz Zé, que, para seu espetáculo, no
próximo dia 25, separou as letras A volta do trem das onze, onde brinca com a
importância do transporte ferroviário no Brasil, e Os poderosos querem sabotar,
pensada durante as eleições que levaram Lula à vitória.
Elomar apresenta no dia 18
sua salada de xote, xaxado e baião, temperada com referências que vão da prosa de
Guimarães Rosa à melodia de Villa-Lobos. O evento Transgressores acontece
simultaneamente no CCBB de Brasília.
(© JB Online)