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Paisagens do tempo de Nassau

24/03/2003

Forte Frederik Hendrik, feita no Brasil, retrata a Ilha de Antônio Vaz,


 

A maior coleção particular de telas do holandês Frans Post é exposta no Recife

EDUARDO BURCKHARDT, do Recife

   Sempre que perguntado sobre quantos quadros do pintor holandês Frans Post (1612-1680) tem em sua coleção particular, o empresário pernambucano Ricardo Brennand dispara a mesma resposta: 'Mais que dez e menos de 100!'. A saída pela tangente, além de alimentar sua fama de excêntrico, contribui para deixar de orelha em pé colecionadores de arte do mundo todo. Com a proximidade da abertura da exposição Frans Post e o Brasil Holandês, mostra na qual pela primeira vez vai exibir seu acervo particular ao público, o segredo começou a ser revelado.

   Os curadores da exposição afirmam que são 15 quadros. Mesmo assim, mantendo sua já célebre discrição, o empresário não confirma o número e avisa que os mais curiosos devem aguardar até a sexta-feira 28, data em que inaugura oficialmente a mostra na pinacoteca do Instituto Ricardo Brennand (IRB), no Recife, em cerimônia com a presença da rainha Beatriz da Holanda e seu filho, o príncipe de Orange. A abertura ao público será no dia 9 de abril. A coleção apresentada no IRB tem particularidades que prometem causar êxtase no mercado de arte mundial.

   Confirma-se agora que Ricardo Brennand é, de fato, o dono da maior coleção de óleos de Frans Post no mundo - à frente do Museu do Louvre, em Paris, e do Museu de Belas-Artes, no Rio de Janeiro, ambos com oito telas cada um. Além disso, seu acervo é o único com quadros das quatro fases da carreira artística de Post. O mais raro da coleção intitula-se Forte Frederik Hendrik. Retrata a Ilha de Antônio Vaz, em Pernambuco, e faz parte da primeira fase do artista, composta de quadros pintados no período em que viveu no Brasil.

   Nessa fase, sabe-se que fez 18 telas, 11 delas desaparecidas. Essas obras representam as primeiras visões de um pintor europeu sobre o Novo Mundo e, por isso, tornaram-se tremendamente valiosas. Em 1997, um dos quadros da mesma fase foi arrematado por US$ 4,1 milhões em um leilão em Nova York, o valor mais alto pago por um Post até hoje. Frans Post é o mais refinado dos pintores que fizeram as primeiras imagens do Brasil e da América.

   Sua arte é menos espalhafatosa que a do conterrâneo Albert Eckhout, cuja exposição itinerante tem feito sucesso pelo Brasil, mas possui mais técnica e mais apuro. Post veio para Pernambuco em 1637, como integrante da comitiva de cientistas e artistas que o conde Maurício de Nassau trouxe com a incumbência de registrar o desconhecido Novo Mundo. Couberam a Post os desenhos e as pinturas relacionados às edificações, às batalhas e às paisagens da região.

   Durante os sete anos que ficou no país, o jovem pintor de 25 anos atuou como a memória visual do conde e o acompanhava em todas as suas viagens e campanhas militares. 'Post esforçava-se em adaptar seus tons, formados à luz da Europa, às cores do Brasil, pelo qual estava maravilhado', analisa Bia Corrêa do Lago, especialista na obra do holandês. Além do precioso acervo de Post, a exposição do IRB conta com uma seleção de mapas, livros, tapeçarias, moedas e documentos originais do século XVII. Todos os artefatos foram adquiridos por Brennand no curto espaço de seis anos, numa garimpagem obstinada e discreta por leilões, museus e coleções particulares.

   Em sua busca, o empresário adquiriu, por exemplo, uma preciosa caneca de prata com o brasão da Companhia das Índias Ocidentais. Os artefatos permitem um passeio histórico pelo Brasil Holandês pintado por Frans Post. O empresário Ricardo Brennand não revela quanto gastou para montar todo o acervo. Os especialistas estimam que apenas o lote completo com as 15 obras do pintor seria hoje avaliado em pelo menos US$ 25 milhões.

(© Revista Época)

O dono do castelo
 

EDUARDO BURCKHARDT, do Recife

   Ricardo Brennand abre salões repletos de tesouros Filho de uma família de empresários, o engenheiro Ricardo Brennand fez fortuna comandando um complexo de empresas de produção de aço, vidro e cimento. O sucesso nos negócios permitiu que ele adquirisse, ao longo de 50 anos, um importante acervo de obras de arte e armas, sua grande paixão.

   Em 1999, ao vender por uma quantia milionária suas indústrias de cimento, o empresário decidiu criar o Instituto Ricardo Brennand. A pinacoteca do IRB abriga o acervo de Frans Post e vai receber uma mostra permanente de quadros de outros artistas fundamentais, como o francês Jean-Baptiste Debret.

   Ao lado, o Castelo São João, com portas e vitrais originais de castelos e igrejas europeus, tem um acervo de tapeçarias, esculturas, quadros e mais de 3 mil armas - de uma adaga indiana de 1700 a um conjunto de armaduras do século XVI. Em um prédio anexo, a biblioteca do IRB volta-se prioritariamente para material relativo ao período do Brasil Holandês, com preciosidades como mapas e livros originais do período.

   O acervo, associado às obras de arte daquele tempo, torna o instituto talvez a mais proeminente instituição dedicada ao estudo e à pesquisa do tema no mundo. 'Não poderia deixar o Brasil perder essa parte tão importante de sua história', diz Brennand. A pedido do empresário, os principais pilares do IRB são os projetos pedagógicos voltados para crianças e jovens carentes de Pernambuco.

(© Revista Época)

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