A maior coleção
particular de telas do holandês Frans Post é exposta no Recife
EDUARDO BURCKHARDT, do Recife
Sempre que perguntado sobre quantos quadros
do pintor holandês Frans Post (1612-1680) tem em sua coleção particular, o empresário
pernambucano Ricardo Brennand dispara a mesma resposta: 'Mais que dez e menos de 100!'. A
saída pela tangente, além de alimentar sua fama de excêntrico, contribui para deixar de
orelha em pé colecionadores de arte do mundo todo. Com a proximidade da abertura da
exposição Frans Post e o Brasil Holandês, mostra na qual pela primeira vez vai
exibir seu acervo particular ao público, o segredo começou a ser revelado.
Os curadores da exposição afirmam que são
15 quadros. Mesmo assim, mantendo sua já célebre discrição, o empresário não
confirma o número e avisa que os mais curiosos devem aguardar até a sexta-feira 28, data
em que inaugura oficialmente a mostra na pinacoteca do Instituto Ricardo Brennand (IRB),
no Recife, em cerimônia com a presença da rainha Beatriz da Holanda e seu filho, o
príncipe de Orange. A abertura ao público será no dia 9 de abril. A coleção
apresentada no IRB tem particularidades que prometem causar êxtase no mercado de arte
mundial.
Confirma-se agora que Ricardo Brennand é,
de fato, o dono da maior coleção de óleos de Frans Post no mundo - à frente do Museu
do Louvre, em Paris, e do Museu de Belas-Artes, no Rio de Janeiro, ambos com oito telas
cada um. Além disso, seu acervo é o único com quadros das quatro fases da carreira
artística de Post. O mais raro da coleção intitula-se Forte Frederik Hendrik.
Retrata a Ilha de Antônio Vaz, em Pernambuco, e faz parte da primeira fase do artista,
composta de quadros pintados no período em que viveu no Brasil.
Nessa fase, sabe-se que fez 18 telas, 11
delas desaparecidas. Essas obras representam as primeiras visões de um pintor europeu
sobre o Novo Mundo e, por isso, tornaram-se tremendamente valiosas. Em 1997, um dos
quadros da mesma fase foi arrematado por US$ 4,1 milhões em um leilão em Nova York, o
valor mais alto pago por um Post até hoje. Frans Post é o mais refinado dos pintores que
fizeram as primeiras imagens do Brasil e da América.
Sua arte é menos espalhafatosa que a do
conterrâneo Albert Eckhout, cuja exposição itinerante tem feito sucesso pelo Brasil,
mas possui mais técnica e mais apuro. Post veio para Pernambuco em 1637, como integrante
da comitiva de cientistas e artistas que o conde Maurício de Nassau trouxe com a
incumbência de registrar o desconhecido Novo Mundo. Couberam a Post os desenhos e as
pinturas relacionados às edificações, às batalhas e às paisagens da região.
Durante os sete anos que ficou no país, o
jovem pintor de 25 anos atuou como a memória visual do conde e o acompanhava em todas as
suas viagens e campanhas militares. 'Post esforçava-se em adaptar seus tons, formados à
luz da Europa, às cores do Brasil, pelo qual estava maravilhado', analisa Bia Corrêa do
Lago, especialista na obra do holandês. Além do precioso acervo de Post, a exposição
do IRB conta com uma seleção de mapas, livros, tapeçarias, moedas e documentos
originais do século XVII. Todos os artefatos foram adquiridos por Brennand no curto
espaço de seis anos, numa garimpagem obstinada e discreta por leilões, museus e
coleções particulares.
Em sua busca, o empresário adquiriu, por
exemplo, uma preciosa caneca de prata com o brasão da Companhia das Índias Ocidentais.
Os artefatos permitem um passeio histórico pelo Brasil Holandês pintado por Frans Post.
O empresário Ricardo Brennand não revela quanto gastou para montar todo o acervo. Os
especialistas estimam que apenas o lote completo com as 15 obras do pintor seria hoje
avaliado em pelo menos US$ 25 milhões.
(© Revista Época)
| O dono do castelo |
| EDUARDO BURCKHARDT, do
Recife
Ricardo Brennand abre salões repletos de
tesouros Filho de uma família de empresários, o engenheiro Ricardo Brennand fez fortuna
comandando um complexo de empresas de produção de aço, vidro e cimento. O sucesso nos
negócios permitiu que ele adquirisse, ao longo de 50 anos, um importante acervo de obras
de arte e armas, sua grande paixão.
Em 1999, ao vender por uma quantia
milionária suas indústrias de cimento, o empresário decidiu criar o Instituto Ricardo
Brennand. A pinacoteca do IRB abriga o acervo de Frans Post e vai receber uma mostra
permanente de quadros de outros artistas fundamentais, como o francês Jean-Baptiste
Debret.
Ao lado, o Castelo São João, com portas e
vitrais originais de castelos e igrejas europeus, tem um acervo de tapeçarias,
esculturas, quadros e mais de 3 mil armas - de uma adaga indiana de 1700 a um conjunto de
armaduras do século XVI. Em um prédio anexo, a biblioteca do IRB volta-se
prioritariamente para material relativo ao período do Brasil Holandês, com preciosidades
como mapas e livros originais do período.
O acervo, associado às obras de arte
daquele tempo, torna o instituto talvez a mais proeminente instituição dedicada ao
estudo e à pesquisa do tema no mundo. 'Não poderia deixar o Brasil perder essa parte
tão importante de sua história', diz Brennand. A pedido do empresário, os principais
pilares do IRB são os projetos pedagógicos voltados para crianças e jovens carentes de
Pernambuco.
(© Revista Época) |