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Reedição lembra 50 anos sem Graciliano

24/03/2003

O projeto gráfico das novas edições da obra de Graciliano Ramos mantém ilustrações já clássicas, além de posfácios escritos por figuras do mundo literário


 

Obra do escritor alagoano volta às livrarias com novos estudos críticos

UBIRATAN BRASIL

  Em um sucinto auto-retrato, escrito em 1948, além de revelar que não gostava de vizinhos, odiava a burguesia e adorava palavrões escritos e falados, o escritor Graciliano Ramos dizia que esperava viver só mais um ano. A resistência física garantiu-lhe, porém, alguns meses mais e Graciliano morreu na madrugada de um dia 20 de março, há exatamente 50 anos.

   Naquela época, aos 60, ele já era consagrado como um dos principais escritores brasileiros, fama aliás que considerava "chinfrim". A importância persiste e a editora Record, que detém os direitos de publicação, decidiu reeditar a obra de Graciliano com um novo projeto gráfico. Por ocasião dos 50 anos de sua morte, quatro títulos deverão chegar às livrarias até o fim do mês: Vidas Secas, São Bernardo, Infância e Insônia. Ao mesmo tempo, continua aberta ao público a exposição Chão de Graciliano, no Sesc Pompéia (Rua Clélia, 93), que conta a história do escritor alagoano por meio de registros e fotos raros.

   Os livros serão reeditados conforme um cuidadoso trabalho editorial - além de uma nova diagramação que valoriza as ilustrações (como as de Aldemir Martins), cada volume será posfaciado por figuras do mundo literário, como Godofredo de Oliveira Neto (São Bernardo), Marilene Felinto (Vidas Secas), Cláudio Leitão (Infância) e Letícia Malard (Insônia).

   No segundo semestre, está previsto o relançamento de Viagem (posfácio de Dênis de Moraes), Caetés (Ieda Dias Lima), Angústia (Silviano Santiago) e Linhas Tortas (Ruy Espinheira Filho). Os demais títulos ainda não têm previsão de chegarem às livrarias. A editora promove também um trabalho de fixação de texto, comparando o que é publicado com o último revisado por Graciliano, material que está arquivado no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo.

   Já a exposição no Sesc Pompéia, com curadoria de Audálio Dantas, permite ao visitante um contato com imagens, documentos e objetos de uso pessoal do escritor, como manuscritos, cartas e exemplares de edições nacionais e estrangeiras. É exibido também um ensaio fotográfico feito por Tiago Santana, com imagens colhidas nas cidades onde Graciliano passou os primeiros anos de vida e que o influenciaram decisivamente.

   O escritor nasceu em 1892, em Quebrangulo, interior de Alagoas, onde a água era pouca e a fome muita. "Meu pai não tinha vocação para o ensino, mas quis meter-me o alfabeto na cabeça", contou Graciliano em Infância. "Resisti, ele teimou - e o resultado foi um desastre." A partir daí, as lições eram feitas na presença de um pedaço de madeira, usado para agredir a palma de sua mão quando errava na leitura.

   Severidade - O rigor, além das condições do ambiente em que viveu, talhou sua alma de forma permanente, influenciando sua obra, composta por observações colhidas de sua vivência pessoal e marcada pela rudeza da paisagem nordestina. Sob um estilo severo de escrever, Graciliano conseguiu um equilíbrio profundo entre a investigação psicológica e a situação social de seus personagens.

   É o caso, por exemplo, de Vidas Secas, último romance escrito por Graciliano e sua única experiência com foco narrativo na terceira pessoa. Criado a partir de um conto, Baleia, o livro consumiu seis meses de árduo trabalho e, segundo o próprio autor, pretendia apresentar a dilacerante consciência da condição humana rarefeita na caatinga. "O que me interessa é o homem daquela região aspérrima", disse, em uma rara entrevista. "Julgo que é a primeira vez que esse sertanejo aparece em literatura (...) porque os escritores regionalistas comumente não conhecem o sertão, não são familiares do ambiente que descrevem."

   A publicação de Vidas Secas, em 1938, assombrou a crítica e reforçou a importância de Graciliano Ramos, cuja presença na literatura brasileira já estava definitivamente marcada desde 1934, com o lançamento de São Bernardo.

   "Comedido, enxuto, implacável consigo mesmo, direto na forma, Graciliano era um ousado de porte e viria, pelo talento e pela contundência, revelar ao País, com força irrespondível e nunca demagógica, a consciência da miséria e atirar de frente, às chamadas elites, a notícia funda da existência de brasileiros de 'vidas secas'", testemunhou o também escritor João Antônio.

(© O Estado de S. Paulo)

Imagens secas


Uma das 50 fotografias que compõem o ensaio de Tiago Santana, destaque na mostra O Chão de Graciliano, em cartaz em São Paulo. Nesta edição, a partir da capa, você confere outros registros do fotógrafo cearense

Um dos destaques da mostra O Chão de Graciliano, principal evento em homenagem ao aniversário de morte do escritor alagoano, é um ensaio fotográfico do cearense Tiago Santana. Em entrevista ao Vida & Arte, Tiago fala da experiência de traduzir em imagens o universo que serviu de inspiração para o autor de Vidas Secas

   A idéia era refazer a trajetória de Graciliano Ramos pelo sertão de Alagoas e de Pernambuco, percorrendo os locais onde o escritor nasceu, onde passou sua infância, onde escreveu seus primeiros livros etc. Mas para além de um esforço meramente documental, o ensaio do fotógrafo cearense Tiago Santana incorporado à mostra O Chão de Graciliano procurou interpretar essas paisagens e seus tipos humanos, mergulhando no universo que serviu de inspiração ao autor de Vidas Secas para transformá-lo em fotografia.

   ''Guardando as devidas proporções, esse trabalho é como se eu estivesse querendo fazer nas fotos o que ele fez em livro'', explica Tiago, que, no final do ano passado, percorreu as cidades de Quebrangulo, Viçosa e Palmeira dos Índios, em Alagoas; e Buíque, em Pernambuco. Esses quatro municípios formam os principais vértices da trajetória de Graciliano no sertão nordestino. Quebrangulo é sua cidade natal; Buíque, o município onde passou a maior parte da infância; Viçosa, onde se estabeleceu na adolescência; e Palmeira dos Índios, a cidade da qual se tornou prefeito.

   Depois de vinte dias de trabalho, a jornada originou as 50 fotos que formam o ensaio. O Chão de Graciliano fica em São Paulo até o final do mês e depois deve seguir para Alagoas. Por enquanto, não há previsão de passagem da exposição por Fortaleza. Mas, segundo Tiago, o ensaio pode ser desmembrado do conjunto da mostra e poderá excursionar sozinho. Ainda de acordo com o fotógrafo, até o final do ano, a idéia é realizar novas viagens ao sertão alagoano, para que o ensaio se transforme em livro. (Felipe Araújo)

O POVO - Como surgiu a idéia desse ensaio?
Tiago Santana - Ele surgiu a partir de um convite do Audálio Dantas, que é um jornalista alagoano bem conhecido lá em São Paulo. Eu o conhecia já há algum tempo. Ele também conhecia o meu trabalho e é o curador desse projeto, uma exposição maior chamada O chão de Graciliano. Ele não queria que fosse um ensaio meramente jornalístico, uma coisa documental, que eu fosse lá e mostrasse o lugar onde nasceu o Graciliano, o lugar onde ele morou na infância etc. Ele queria que alguém fizesse uma interpretação desses locais e de seus tipos humanos.

OP - Você já tinha um interesse especial sobre a obra de Graciliano?
TS - Eu conhecia a obra dele, já tinha lido alguns livros, mas nunca tinha me aprofundado tanto. Foi com esse convite que fui mergulhar mesmo. E mergulhei também na figura, ou seja, em livros sobre ele. O Audálio já conhecia as coisas sobre o Graciliano. Então, caminhar com ele naquela região foi uma experiência muito rica. Nós nos emocionamos muito; ele mais do que eu pelo fato de ele ser alagoano, de ter uma relação com aqueles locais. Foi emocionante conhecer aquelas pessoas, que conheceram Graciliano, que conviveram com ele.

OP - Qual o percurso feito? O que orientou esse percurso?
TS - Os quatro lugares básicos desse projeto foram Quebrangulo, Viçosa e Palmeira dos Índios, em Alagoas; e Buíque, em Pernambuco, onde Graciliano passou a infância dele. As memórias da seca e da infância dele vêm todas desse lugar. Esses foram os quatro lugares básicos, que demarcaram o projeto, mas eu também fui para cidades vizinhas. Na realidade, o universo dele não é especificamente nesses lugares, é na região como um todo.

OP - O que mais te marcou nessa experiência?
TS - Uma coisa interessante que a gente constatou, e que conversei muito sobre isso com o Audálio, é que o sertão hoje, o sertão de Alagoas, de Pernambuco, quer dizer, esse universo que foi retratado em Vidas Secas, ele é atual. É impressionante. Claro que nas cidades muita coisa mudou, tem coisas da modernidade, elas são cheias de parabólicas etc; mas no sertão mesmo, nas comunidades mais afastadas, no próprio Buíque, onde nós fomos na fazenda onde ele morou, a coisa mudou muito pouco ao longo desses anos todos. Parecia que as personagens dos livros dele estavam ali. As mesmas cenas.

OP - Na obra do Graciliano, em especial em Vidas Secas, as paisagens aparecem de uma forma muito inclemente, sempre vitoriosa sobre o homem. Como você se posicionou diante dessa relação entre a paisagem e o elemento humano desse universo?
TS - As fotos foram focadas no homem, quer dizer, a paisagem era pano de fundo para o homem. Apesar da força da paisagem, o foco estava no homem. Eu quis deixar isso bem demarcado. Não gosto de repetir muito essa coisa de dizer que o nordestino é um forte porque acho um clichê. Mas a força humana dessas pessoas me emociona, a relação que elas têm com a paisagem. Elas são pessoas com uma fisionomia dura, sofrida, mas ao mesmo tempo são pessoas meigas.

OP - A prosa do Graciliano é conhecida por ser substantiva, anti-retórica. Você levou essa preocupação para as fotos? Foi possível fotografar sem ''adjetivar'' as imagens?
TS - A fotografia já é essa síntese. É um exercício que, de certa forma, o Graciliano fazia, com sua prosa. Acho que a fotografia é um pouco esse desafio: você sintetizar em uma imagem um momento que poderia ser registrado em centenas de imagens. A própria fotografia tem esse poder de síntese. Claro que eu não quero me comparar com ele, não há nem como. Mas, guardando as devidas proporções, esse trabalho é como se eu estivesse querendo fazer nas fotos o que ele fez em livro.

OP - Qual a imagem do Graciliano que você passou a ter depois dessa experiência?
TS - O que me impressiona é que por um lado ele era essa pessoa muito dura, muito rígida, que tinha dificuldade de relacionamento com as pessoas, e ao mesmo tempo é de uma grande delicadeza nos textos. Mesmo que as situações que ele descreva sejam duras, a forma como ele escreve é feita de uma maneira muito delicada, muito humana. Uma pessoa que era tão trancada nela mesma só se soltava através da literatura. A literatura era um caminho dele liberar um pouco essa delicadeza.

(© O Povo/NoOlhar.com.br)


A letra da revolta

Um passeio pelos romances de Graciliano Ramos através da análise da professora Celina Fontenele Garcia, da UFC, que vê na opressão da sociedade contra o indivíduo o cerne da obra do escritor alagoano

Celina Fontenele Garcia
Especial para O POVO

   O romance de Graciliano Ramos é fruto de uma sensibilidade revoltada e reflete a sociedade de seu tempo e de seu meio. Em suas obras e principalmente através de suas personagens parece estar presente o aforismo ''Eu me revolto, logo existo'', base da filosofia de Camus. Às vezes, é na impossibilidade de se opor ao meio social e físico, na impossibilidade de escapar do labirinto em que estão presas, que as criaturas de Graciliano Ramos demonstram sua revolta.

   A gênese de toda a sua obra se encontra em Infância. É nesse livro, sua autobiografia (depois completada com Memórias do Cárcere, onde narra sua prisão na ditadura Vargas), que ele transmite ao leitor todas as sensações e experiências de sua vida infantil, e principalmente o sofrimento da criança oprimida pelos pais, surrada e castigada sem explicação aparente. Nesse livro, o narrador descreve suas impressões registradas de maneira longínqua, etérea, retiradas do fundo da memória.

   Mas apesar de todas as proibições, de rir, de falar alto, de brincar com os vizinhos e de ter opiniões, essa cadeia em que ele vivia começava a mostrar uma pequena abertura: ''Enxergara a libertação adivinhando a prosa difícil do romance. O pensamento se enganchava trôpego no enredo: as personagens se moviam lentas e vagas, pouco a pouco se destacavam, não se distinguiam dos seres reais. E faziam-me esquecer o código medonho que me atenazava. De repente as interdições alcançavam o mundo misterioso onde me havia escondido.[...] Os caixeiros, ouvindo-me, resmungariam ou soltariam gargalhadas; Fernando me insultaria; minha mãe me trataria com indiferença ou aspereza. E eu ficaria só no mundo''.

   Em São Bernardo, o narrador é o próprio personagem principal, Paulo Honório (uma das personagens de Infância). Mostra sua verdadeira força na medida em que seria capaz de configurar o nível de consciência de um homem que, tendo conquistado a duras penas um lugar ao sol, absorveu na sua longa jornada toda a agressividade latente em um sistema de competição. O romance é a narrativa da ascensão social de Paulo Honório, desde menino abandonado, criado pela velha Margarida doceira, até o fazendeiro, dono de São Bernardo.

   Paulo Honório não esconde os métodos empregados para conseguir seus objetivos. Se dá certo é porque é bom. Até encontrar Madalena e se casar com ela, Paulo Honório tinha consciência do seu poder de reificação. Casa com Madalena, mas ela não se submete às suas vontades nem ao seu comando. Depois de sua morte, Paulo Honório tem a consciência do real valor de Madalena e do sentimento que o ligava a ela. Graciliano Ramos denuncia o sistema de competição da sociedade brasileira: a vida agreste, a luta pela sobrevivência, a lei do mais forte, a opressão do poderoso. A escola, ou a não-escola, é a arma mais poderosa para manter o status quo.

   Em Angústia, continua a narrativa da opressão da sociedade contra o indivíduo. É o relato da solidão de Luís da Silva, um pequeno funcionário com veleidades literárias; é empregado de um jornal, seus artigos são assinados pelo patrão; é condenado a esgueirar-se nas pensões poeirentas e a repetir até à náusea os contatos com um meio onde o que não é recalque é safadeza. A existência de Luís da Silva arrasta-se na recusa e na análise impotente da miséria moral do mundo e, não tendo outra saída, resolve-se pelo crime e pela auto-destruição. A narrativa mostra todos os índices de mediocrização do homem, produto dessa sociedade opressora e que é organizada em função dos seus interesses.

   Graciliano Ramos, em 1936, em plena ditadura, é preso sem culpa formal, sem processo. Ele apreende então um outro mundo, mais violento e mais opressor do que aquele em que vivera até então. Em 1938, escreve Vidas Secas, obra-prima de sobriedade formal: o universo esgarçado de uma família - um homem, uma mulher, dois filhos, uma cachorra - tangida pela seca e pela opressão dos que podem mandar: o patrão, o soldado amarelo.

   Vidas secas, secas como a terra nordestina, sem alegria nem ternura, nem beleza. O único índice de cor, de alegria é a saia de ramagens de Sinhá Vitória. Fabiano, um sertanejo qualquer, é um desenraizado: não possui terra que o prenda com a chegada da seca; não possui linguagem que o defenda dos que o exploram e oprimem (patrão, soldado amarelo), pois não freqüentou escola; tem consciência da opressão sobre ele, mas nada pode fazer, não é capaz de se expressar, apenas grunhe como animal; sonha em ser homem, em poder falar como seu Tomás da Bolandeira, que sabia ler, possuía livros e jornais.

   ''Saber das coisas'' é a tênue linha que o separa dos animais; o governo é uma entidade distante representada pelo soldado injusto e covarde que lhe toma o dinheiro, prende e açoita sem justa causa; o patrão é o explorador, omisso e sem nome; como amigos tem a cachorra Baleia e os animais; os filhos não têm nome; de profissão era vaqueiro, cultiva a terra alheia; a religião é mítica; o destino é incerto e cruel, pois depende da natureza. Fabiano sente a ausência de Deus e a presença constante da morte.

   Em Infância e Memórias do cárcere, Graciliano Ramos constrói livros memorialistas e/ou autobiográficos, mas os outros, Caetés, São Bernardo, e Angústia são livros construídos à maneira de uma autobiografia, uma pseudo autobiografia. As personagens de Graciliano Ramos escrevem, são jornalistas ou têm a presunção de escrever sua vida ou suas aventuras e desventuras, à exceção de Fabiano. Em Vidas secas, o escritor faz uma narrativa mais elaborada, na qual o narrador se utiliza do fluxo de consciência e do discurso indireto livre.

   A escola, que suas personagens não encontraram, é procurada miticamente por Fabiano para os filhos. Ela seria um norte. No futuro.

Celina Fontenele Garcia é doutora em Literatura Comparada e professora de Literatura Brasileira do Departamento de Literatura da UFC.

(© O Povo/NoOlhar.com.br)


Teoria da arte, teoria da vida

Preferido dos críticos, o romance São Bernardo projetou o nome de Graciliano entre os grandes da nossa literatura. Em entrevista ao Vida & Arte, o professor carioca Godofredo de Oliveira Neto, autor do prefácio que acompanha a nova edição do livro, fala das virtudes da obra e explica por que ela é o melhor romance ''graciliânico''

   Carpeaux o comparava às obras-primas de Balzac. Mário de Andrade sempre reiterava que era um de seus livros preferidos. Para Alfredo Bosi, trata-se de uma obra em tudo universal, muito maior do que a reputação regionalista a que costuma ser reduzida. Antônio Cândido, que o define como um romance excepcional, aponta um de seus capítulos - o XIX (ver trecho nesta página) - como o mais perfeito texto de ficção da literatura brasileira da primeira metade do século XX.

   Ainda que Vidas Secas - com suas 80 edições e suas traduções em 13 países - tenda a ocupar o primado na memória do leitor comum quando o assunto é o livro mais popular de Graciliano Ramos, entre a crítica, o posto de melhor romance do Velho Graça tem um dono quase unânime: o romance São Bernardo (1934). Segundo romance de Graciliano, o livro foi recebido efusivamente pelos rodapés literários da época de sua publicação e garantiu ao mestre Graça seu quinhão de prestígio entre a galeria dos grandes escritores brasileiros.

   ''Ele é o mais denso dos romances de Graciliano. Consegue conciliar teoria da arte e teoria da vida'', afirma Godofredo de Oliveira Neto, professor de literatura brasileira da Universidade Federal do Rio de Janeiro e responsável pelo prefácio da nova edição de São Bernardo que está sendo lançada pela editora Record. ''É a mais importante obra do modernismo tratando do problema agrário no Brasil'', reforça.

   Na última semana, Godofredo conversou com a reportagem do Vida & Arte e falou sobre o lugar de destaque que São Bernardo ocupa dentro da obra de Graciliano e explica por que os livros do Velho Graça ainda têm muito a dizer às novas gerações. (Felipe Araújo)

O POVO - Como começou a relação do senhor com a obra de Graciliano Ramos?
Godofredo de Oliveira Neto - Era o romancista brasileiro que eu mais lia na adolescência. Vidas Secas me emocionava. Já mais tarde é que passei a achar São Bernardo o grande livro de Graciliano, por conta das críticas literárias. Graciliano, Machado e Cruz e Sousa foram as minhas leituras preferidas da literatura brasileira no curso ginasial.

OP - O senhor está prefaciando a nova reedição de São Bernardo. O que esse livro representa dentro da obra de Graciliano Ramos?
GON - Só o capítulo XIX do romance já faz de São Bernardo o mais importante livro de Graciliano. É o livro que lançou o autor como um dos maiores escritores de toda literatura brasileira. É a mais importante obra do modernismo tratando do problema agrário no Brasil.

OP - Para muitos críticos, esse é o melhor romance de Graciliano Ramos. O senhor faz parte desse time?
GON - Ele é, sem dúvida, o melhor, o mais denso dos romances de Graciliano. São Bernardo consegue conciliar teoria da arte e teoria da vida. Da primeira à última página o leitor assiste ao conflito entre ficção e realidade, ou subjetividade e objetividade. O narrador e o leitor sabem que o real nunca será atingido na sua plenitude. O leitor e Paulo Honório choram, lutam, amam e odeiam juntos. A mensagem de cunho social de que São Bernardo é portador se faz dentro dessa limitação. A maestria com que Graciliano logra escrever tudo isso é fantástica.

OP - Uma das características mais incensadas em torno da obra dele é a secura de sua linguagem - que, de certo modo, reflete a própria relação de Graciliano com o mundo. De que maneira isso se evidencia em São Bernardo?
GON - De fato, a aridez do sertão e o reduzido vocabulário do sertanejo são comparados à linguagem seca e despojada do narrador Graciliânico. Essa visão impressionista não tem real embasamento científico, ainda que obedeça a uma certa lógica metafórica. Acho que é simplesmente um estilo dele e pronto.

OP - Essa preocupação excessiva com a ''limpeza da linguagem'', de alguma maneira, acabou trazendo algum tipo de prejuízo à obra de Graciliano?
GON - A limpeza só pode ser bem-vinda. Analisado no computador pode-se ver que muitos vocábulos em São Bernardo são usados em quantidade excessiva. ''Mãos'' aparece 47 vezes; ''horas'', 46; ''olhos'', 45; ''diabo'', 41; ''noite'', 39. A série de palavras que se sobressai às demais é relativa ao corpo humano. É interessante porque a gente pode fazer certas análises a partir daí. Mas é verdade que, por vezes, soa algo repetitivo.

OP - O que São Bernardo e os livros do ''Velho Graça'' de um modo geral têm a dizer à novas gerações de leitores?
GON - Uma lição de como conciliar emoção e engajamento político, fazendo assim, uma verdadeira obra de arte.

(© O Povo/NoOlhar.com.br)

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