
Um dos
destaques da mostra O Chão de Graciliano, principal evento em homenagem ao
aniversário de morte do escritor alagoano, é um ensaio fotográfico do cearense Tiago
Santana. Em entrevista ao Vida & Arte, Tiago fala da experiência de traduzir em
imagens o universo que serviu de inspiração para o autor de Vidas Secas
A idéia era refazer a trajetória de
Graciliano Ramos pelo sertão de Alagoas e de Pernambuco, percorrendo os locais onde o
escritor nasceu, onde passou sua infância, onde escreveu seus primeiros livros etc. Mas
para além de um esforço meramente documental, o ensaio do fotógrafo cearense Tiago
Santana incorporado à mostra O Chão de Graciliano procurou interpretar
essas paisagens e seus tipos humanos, mergulhando no universo que serviu de inspiração
ao autor de Vidas Secas para transformá-lo em fotografia.
''Guardando as devidas proporções, esse trabalho é como se eu estivesse
querendo fazer nas fotos o que ele fez em livro'', explica Tiago, que, no final do ano
passado, percorreu as cidades de Quebrangulo, Viçosa e Palmeira dos Índios, em Alagoas;
e Buíque, em Pernambuco. Esses quatro municípios formam os principais vértices da
trajetória de Graciliano no sertão nordestino. Quebrangulo é sua cidade natal; Buíque,
o município onde passou a maior parte da infância; Viçosa, onde se estabeleceu na
adolescência; e Palmeira dos Índios, a cidade da qual se tornou prefeito.
Depois de vinte dias de trabalho, a jornada originou as 50
fotos que formam o ensaio. O Chão de Graciliano fica em São Paulo até o
final do mês e depois deve seguir para Alagoas. Por enquanto, não há previsão de
passagem da exposição por Fortaleza. Mas, segundo Tiago, o ensaio pode ser desmembrado
do conjunto da mostra e poderá excursionar sozinho. Ainda de acordo com o fotógrafo,
até o final do ano, a idéia é realizar novas viagens ao sertão alagoano, para que o
ensaio se transforme em livro. (Felipe Araújo)
O POVO - Como surgiu a idéia desse ensaio?
Tiago Santana - Ele surgiu a partir de um convite do Audálio Dantas, que é
um jornalista alagoano bem conhecido lá em São Paulo. Eu o conhecia já há algum tempo.
Ele também conhecia o meu trabalho e é o curador desse projeto, uma exposição maior
chamada O chão de Graciliano. Ele não queria que fosse um ensaio meramente
jornalístico, uma coisa documental, que eu fosse lá e mostrasse o lugar onde nasceu o
Graciliano, o lugar onde ele morou na infância etc. Ele queria que alguém fizesse uma
interpretação desses locais e de seus tipos humanos.
OP - Você já tinha um interesse especial sobre a obra de Graciliano?
TS - Eu conhecia a obra dele, já tinha lido alguns livros, mas nunca tinha
me aprofundado tanto. Foi com esse convite que fui mergulhar mesmo. E mergulhei também na
figura, ou seja, em livros sobre ele. O Audálio já conhecia as coisas sobre o
Graciliano. Então, caminhar com ele naquela região foi uma experiência muito rica. Nós
nos emocionamos muito; ele mais do que eu pelo fato de ele ser alagoano, de ter uma
relação com aqueles locais. Foi emocionante conhecer aquelas pessoas, que conheceram
Graciliano, que conviveram com ele.
OP - Qual o percurso feito? O que orientou esse percurso?
TS - Os quatro lugares básicos desse projeto foram Quebrangulo, Viçosa e
Palmeira dos Índios, em Alagoas; e Buíque, em Pernambuco, onde Graciliano passou a
infância dele. As memórias da seca e da infância dele vêm todas desse lugar. Esses
foram os quatro lugares básicos, que demarcaram o projeto, mas eu também fui para
cidades vizinhas. Na realidade, o universo dele não é especificamente nesses lugares, é
na região como um todo.
OP - O que mais te marcou nessa experiência?
TS - Uma coisa interessante que a gente constatou, e que conversei muito
sobre isso com o Audálio, é que o sertão hoje, o sertão de Alagoas, de Pernambuco,
quer dizer, esse universo que foi retratado em Vidas Secas, ele é atual. É
impressionante. Claro que nas cidades muita coisa mudou, tem coisas da modernidade, elas
são cheias de parabólicas etc; mas no sertão mesmo, nas comunidades mais afastadas, no
próprio Buíque, onde nós fomos na fazenda onde ele morou, a coisa mudou muito pouco ao
longo desses anos todos. Parecia que as personagens dos livros dele estavam ali. As mesmas
cenas.
OP - Na obra do Graciliano, em especial em Vidas Secas, as
paisagens aparecem de uma forma muito inclemente, sempre vitoriosa sobre o homem. Como
você se posicionou diante dessa relação entre a paisagem e o elemento humano desse
universo?
TS - As fotos foram focadas no homem, quer dizer, a paisagem era pano de
fundo para o homem. Apesar da força da paisagem, o foco estava no homem. Eu quis deixar
isso bem demarcado. Não gosto de repetir muito essa coisa de dizer que o nordestino é um
forte porque acho um clichê. Mas a força humana dessas pessoas me emociona, a relação
que elas têm com a paisagem. Elas são pessoas com uma fisionomia dura, sofrida, mas ao
mesmo tempo são pessoas meigas.
OP - A prosa do Graciliano é conhecida por ser substantiva, anti-retórica.
Você levou essa preocupação para as fotos? Foi possível fotografar sem ''adjetivar''
as imagens?
TS - A fotografia já é essa síntese. É um exercício que, de certa
forma, o Graciliano fazia, com sua prosa. Acho que a fotografia é um pouco esse desafio:
você sintetizar em uma imagem um momento que poderia ser registrado em centenas de
imagens. A própria fotografia tem esse poder de síntese. Claro que eu não quero me
comparar com ele, não há nem como. Mas, guardando as devidas proporções, esse trabalho
é como se eu estivesse querendo fazer nas fotos o que ele fez em livro.
OP - Qual a imagem do Graciliano que você passou a ter depois dessa
experiência?
TS - O que me impressiona é que por um lado ele era essa pessoa muito dura,
muito rígida, que tinha dificuldade de relacionamento com as pessoas, e ao mesmo tempo é
de uma grande delicadeza nos textos. Mesmo que as situações que ele descreva sejam
duras, a forma como ele escreve é feita de uma maneira muito delicada, muito humana. Uma
pessoa que era tão trancada nela mesma só se soltava através da literatura. A
literatura era um caminho dele liberar um pouco essa delicadeza.
(© O Povo/NoOlhar.com.br)
A
letra da revolta
Um passeio
pelos romances de Graciliano Ramos através da análise da professora Celina Fontenele
Garcia, da UFC, que vê na opressão da sociedade contra o indivíduo o cerne da obra do
escritor alagoano
Celina Fontenele Garcia
Especial para O POVO
O romance de Graciliano Ramos é fruto de
uma sensibilidade revoltada e reflete a sociedade de seu tempo e de seu meio. Em suas
obras e principalmente através de suas personagens parece estar presente o aforismo ''Eu
me revolto, logo existo'', base da filosofia de Camus. Às vezes, é na impossibilidade de
se opor ao meio social e físico, na impossibilidade de escapar do labirinto em que estão
presas, que as criaturas de Graciliano Ramos demonstram sua revolta.
A gênese de toda a sua obra se encontra em Infância. É nesse
livro, sua autobiografia (depois completada com Memórias do Cárcere, onde
narra sua prisão na ditadura Vargas), que ele transmite ao leitor todas as sensações e
experiências de sua vida infantil, e principalmente o sofrimento da criança oprimida
pelos pais, surrada e castigada sem explicação aparente. Nesse livro, o narrador
descreve suas impressões registradas de maneira longínqua, etérea, retiradas do fundo
da memória.
Mas apesar de todas as proibições, de rir, de falar alto, de brincar com os
vizinhos e de ter opiniões, essa cadeia em que ele vivia começava a mostrar uma pequena
abertura: ''Enxergara a libertação adivinhando a prosa difícil do romance. O pensamento
se enganchava trôpego no enredo: as personagens se moviam lentas e vagas, pouco a pouco
se destacavam, não se distinguiam dos seres reais. E faziam-me esquecer o código medonho
que me atenazava. De repente as interdições alcançavam o mundo misterioso onde me havia
escondido.[...] Os caixeiros, ouvindo-me, resmungariam ou soltariam gargalhadas; Fernando
me insultaria; minha mãe me trataria com indiferença ou aspereza. E eu ficaria só no
mundo''.
Em São Bernardo, o narrador é o próprio personagem
principal, Paulo Honório (uma das personagens de Infância). Mostra sua
verdadeira força na medida em que seria capaz de configurar o nível de consciência de
um homem que, tendo conquistado a duras penas um lugar ao sol, absorveu na sua longa
jornada toda a agressividade latente em um sistema de competição. O romance é
a narrativa da ascensão social de Paulo Honório, desde menino abandonado, criado pela
velha Margarida doceira, até o fazendeiro, dono de São Bernardo.
Paulo Honório não esconde os métodos empregados para conseguir seus
objetivos. Se dá certo é porque é bom. Até encontrar Madalena e se casar com ela,
Paulo Honório tinha consciência do seu poder de reificação. Casa com Madalena, mas ela
não se submete às suas vontades nem ao seu comando. Depois de sua morte, Paulo Honório
tem a consciência do real valor de Madalena e do sentimento que o ligava a ela.
Graciliano Ramos denuncia o sistema de competição da sociedade brasileira: a vida
agreste, a luta pela sobrevivência, a lei do mais forte, a opressão do poderoso. A
escola, ou a não-escola, é a arma mais poderosa para manter o status quo.
Em Angústia, continua a narrativa da opressão da sociedade
contra o indivíduo. É o relato da solidão de Luís da Silva, um pequeno funcionário
com veleidades literárias; é empregado de um jornal, seus artigos são assinados pelo
patrão; é condenado a esgueirar-se nas pensões poeirentas e a repetir até à náusea
os contatos com um meio onde o que não é recalque é safadeza. A existência de Luís da
Silva arrasta-se na recusa e na análise impotente da miséria moral do mundo e, não
tendo outra saída, resolve-se pelo crime e pela auto-destruição. A narrativa mostra
todos os índices de mediocrização do homem, produto dessa sociedade opressora e que é
organizada em função dos seus interesses.
Graciliano Ramos, em 1936, em plena ditadura, é preso sem
culpa formal, sem processo. Ele apreende então um outro mundo, mais violento e mais
opressor do que aquele em que vivera até então. Em 1938, escreve Vidas Secas,
obra-prima de sobriedade formal: o universo esgarçado de uma família - um homem, uma
mulher, dois filhos, uma cachorra - tangida pela seca e pela opressão dos que podem
mandar: o patrão, o soldado amarelo.
Vidas secas, secas como a terra nordestina, sem alegria nem
ternura, nem beleza. O único índice de cor, de alegria é a saia de ramagens de Sinhá
Vitória. Fabiano, um sertanejo qualquer, é um desenraizado: não possui terra que o
prenda com a chegada da seca; não possui linguagem que o defenda dos que o exploram e
oprimem (patrão, soldado amarelo), pois não freqüentou escola; tem consciência da
opressão sobre ele, mas nada pode fazer, não é capaz de se expressar, apenas grunhe
como animal; sonha em ser homem, em poder falar como seu Tomás da Bolandeira, que sabia
ler, possuía livros e jornais.
''Saber das coisas'' é a tênue linha que o separa dos animais; o governo é
uma entidade distante representada pelo soldado injusto e covarde que lhe toma o dinheiro,
prende e açoita sem justa causa; o patrão é o explorador, omisso e sem nome; como
amigos tem a cachorra Baleia e os animais; os filhos não têm nome; de profissão era
vaqueiro, cultiva a terra alheia; a religião é mítica; o destino é incerto e cruel,
pois depende da natureza. Fabiano sente a ausência de Deus e a presença constante da
morte.
Em Infância e Memórias do cárcere, Graciliano
Ramos constrói livros memorialistas e/ou autobiográficos, mas os outros, Caetés,
São Bernardo, e Angústia são livros construídos à maneira
de uma autobiografia, uma pseudo autobiografia. As personagens de Graciliano Ramos
escrevem, são jornalistas ou têm a presunção de escrever sua vida ou suas aventuras e
desventuras, à exceção de Fabiano. Em Vidas secas, o escritor faz uma
narrativa mais elaborada, na qual o narrador se utiliza do fluxo de consciência e do
discurso indireto livre.
A escola, que suas personagens não encontraram, é procurada miticamente por
Fabiano para os filhos. Ela seria um norte. No futuro.
Celina Fontenele Garcia é doutora em Literatura
Comparada e professora de Literatura Brasileira do Departamento de Literatura da UFC.
(© O Povo/NoOlhar.com.br)
Teoria da
arte, teoria da vida
Preferido dos
críticos, o romance São Bernardo projetou o nome de Graciliano entre os
grandes da nossa literatura. Em entrevista ao Vida & Arte, o professor carioca
Godofredo de Oliveira Neto, autor do prefácio que acompanha a nova edição do livro,
fala das virtudes da obra e explica por que ela é o melhor romance ''graciliânico''
Carpeaux o comparava às obras-primas de
Balzac. Mário de Andrade sempre reiterava que era um de seus livros preferidos. Para
Alfredo Bosi, trata-se de uma obra em tudo universal, muito maior do que a reputação
regionalista a que costuma ser reduzida. Antônio Cândido, que o define como um romance
excepcional, aponta um de seus capítulos - o XIX (ver trecho nesta página) - como o mais
perfeito texto de ficção da literatura brasileira da primeira metade do século XX.
Ainda que Vidas Secas - com suas 80 edições e suas
traduções em 13 países - tenda a ocupar o primado na memória do leitor comum quando o
assunto é o livro mais popular de Graciliano Ramos, entre a crítica, o posto de melhor
romance do Velho Graça tem um dono quase unânime: o romance São Bernardo
(1934). Segundo romance de Graciliano, o livro foi recebido efusivamente pelos rodapés
literários da época de sua publicação e garantiu ao mestre Graça seu quinhão de
prestígio entre a galeria dos grandes escritores brasileiros.
''Ele é o mais denso dos romances de Graciliano. Consegue
conciliar teoria da arte e teoria da vida'', afirma Godofredo de Oliveira Neto, professor
de literatura brasileira da Universidade Federal do Rio de Janeiro e responsável pelo
prefácio da nova edição de São Bernardo que está sendo lançada pela
editora Record. ''É a mais importante obra do modernismo tratando do problema agrário no
Brasil'', reforça.
Na última semana, Godofredo conversou com a reportagem do Vida & Arte e
falou sobre o lugar de destaque que São Bernardo ocupa dentro da obra de
Graciliano e explica por que os livros do Velho Graça ainda têm muito a dizer às novas
gerações. (Felipe Araújo)
O POVO - Como começou a relação do senhor com a obra de Graciliano Ramos?
Godofredo de Oliveira Neto - Era o romancista brasileiro que eu mais lia na
adolescência. Vidas Secas me emocionava. Já mais tarde é que passei a
achar São Bernardo o grande livro de Graciliano, por conta das críticas
literárias. Graciliano, Machado e Cruz e Sousa foram as minhas leituras preferidas da
literatura brasileira no curso ginasial.
OP - O senhor está prefaciando a nova reedição de São Bernardo.
O que esse livro representa dentro da obra de Graciliano Ramos?
GON - Só o capítulo XIX do romance já faz de São Bernardo o
mais importante livro de Graciliano. É o livro que lançou o autor como um dos maiores
escritores de toda literatura brasileira. É a mais importante obra do modernismo tratando
do problema agrário no Brasil.
OP - Para muitos críticos, esse é o melhor romance de Graciliano Ramos. O
senhor faz parte desse time?
GON - Ele é, sem dúvida, o melhor, o mais denso dos romances de
Graciliano. São Bernardo consegue conciliar teoria da arte e teoria da
vida. Da primeira à última página o leitor assiste ao conflito entre ficção e
realidade, ou subjetividade e objetividade. O narrador e o leitor sabem que o real nunca
será atingido na sua plenitude. O leitor e Paulo Honório choram, lutam, amam e odeiam
juntos. A mensagem de cunho social de que São Bernardo é portador se faz
dentro dessa limitação. A maestria com que Graciliano logra escrever tudo isso é
fantástica.
OP - Uma das características mais incensadas em torno da obra dele é a
secura de sua linguagem - que, de certo modo, reflete a própria relação de Graciliano
com o mundo. De que maneira isso se evidencia em São Bernardo?
GON - De fato, a aridez do sertão e o reduzido vocabulário do sertanejo
são comparados à linguagem seca e despojada do narrador Graciliânico. Essa visão
impressionista não tem real embasamento científico, ainda que obedeça a uma certa
lógica metafórica. Acho que é simplesmente um estilo dele e pronto.
OP - Essa preocupação excessiva com a ''limpeza da linguagem'', de alguma
maneira, acabou trazendo algum tipo de prejuízo à obra de Graciliano?
GON - A limpeza só pode ser bem-vinda. Analisado no computador pode-se ver
que muitos vocábulos em São Bernardo são usados em quantidade excessiva.
''Mãos'' aparece 47 vezes; ''horas'', 46; ''olhos'', 45; ''diabo'', 41; ''noite'', 39. A
série de palavras que se sobressai às demais é relativa ao corpo humano. É
interessante porque a gente pode fazer certas análises a partir daí. Mas é verdade que,
por vezes, soa algo repetitivo.
OP - O que São Bernardo e os livros do ''Velho Graça'' de um
modo geral têm a dizer à novas gerações de leitores?
GON - Uma lição de como conciliar emoção e engajamento político,
fazendo assim, uma verdadeira obra de arte.
(© O Povo/NoOlhar.com.br) |