Depois de gravar um álbum
em que tocava todos os instrumentos, o músico alagoano reuniu antigos integrantes de seu
conjunto e talentos jovens no CD Mundo Verde Esperança
São Paulo - Há
pouco mais de três anos, Hermeto Paschoal (como está na carteira de identidade, ou
Pascoal, como aparece na capa de alguns trabalhos e créditos) lançou o CD que inaugurou
o selo fonográfico Rádio MEC. Chamava-se Eu e Eles, sendo Eles os instrumentos:
Hermeto tocava todos, os convencionais e os insólitos de que só ele consegue tirar
(grande) música bichinhos de borracha, chaleiras, molas, calotas, pedacinhos de
madeira.
A experiência radical de
fazer tudo sozinho rendeu um grande disco, mas Hermeto não repete fórmulas. E lança
novo trabalho pelo Rádio MEC, Mundo Verde Esperança, só que acompanhado de um
grupo (a que ele se refere, no encarte, como o Grupo, com maiúscula) que reúne antigos
companheiros de palco e gravações (Itiberê Zwarg, Vinícius Dorin, Márcio Bahia) e uma
turma jovem, boa parte dela integrante da ótima Itiberê Orquestra Família.
Mundo Verde Esperança
tem 14 composições inéditas de Hermeto. Treze delas foram batizadas com nomes dos netos
do músico. A outra é uma homenagem ao saxofonista Victor Assis Brasil. Mas não se pense
em canções para crianças ou num bebop convencional. Os títulos foram dados só na hora
de entrar em estúdio. Hermeto tinha de dar nome às músicas e bolou a fórmula da
múltipla homenagem.
São baiões, marchas,
frevos, sambas, toadas, bossas novas e até híbridos de ressonância caribenha e uma
quase-guarânia, Camila. Quase porque nada com Hermeto é convencional. O criador
irrequieto usa estruturas pré-determinadas como referência e as transcende,
reinventa-as, torna-as suas.
O ouvinte menos avisado pode
ter a impressão de estar apreciando sessões de improviso, mas há pouco improviso na
obra de Hermeto. Praticamente tudo o que se ouve nos discos como nas
apresentações em palco é escrito, partiturado. Hermeto escreve partes para, por
exemplo, dois toquinhos de madeira e tubos de PVC que devem ser jogados ao chão
num momento exato, preciso, no compasso certo e compondo a seqüência
harmônico-melódica. Em geral, guarda os espaços de improviso para si, cedendo
só no palco algum tempo para que seus músicos (sempre grandes músicos) possam
mostrar o que sabem inventar.
Não há tubos de PVC sendo
jogados ao chão, em Mundo Verde Esperança. Nem por isso, a obra é canônica (a
não ser que se queira pensar num, por princípio inclassificável, cânone hermetiano).
Por convencional que sejam os instrumentos usados no frevo Taiane, que abre o disco
(bom, há uma panela com água, batida por baixo), a sonoridade resultante não é
parecida com nada que não seja Hermeto. Combinam-se orquestra de cordas (a Família
Itiberê), percussões, vozes femininas (de Beth Dau e Mariana Bernardes) em uníssono com
a clarineta e sax alto e tudo soa como rigorosa novidade.
Nessa faixa e em algumas
outras, Hermeto não toca. Fica ausente, deixando a cargo do quinteto de base, o
impressionista tema Airan, contado em oito tempos combinação de flauta,
flautim, piano acústico, baixo elétrico, tamancos, pilões e bonecos. Mas os tamancos,
pilões e bonecos não são usados para criar atmosfera de exotismo. É que o som de dois
tamancos batendo, do pilão sendo socado, do boneco apertado, oferecem a exata sonoridade
pretendida por Hermeto para compor a atmosfera da melodia acidentada música picotada,
traduzir suas intenções emotivas.
Aliás, Hermeto jamais quis
vender a imagem de exótico, em que pese a figura. Seus experimentos obedecem à
inquietação, à impaciência com o pré-concebido, ao fluxo criativo que parece
incontível (na virada do século, propôs compor uma música por dia, durante um ano; as
partituras foram publicadas no livro Calendário dos Sons, editado pelo Itaú
Cultural, e constituem o vade mecum de jovens músicos de ambição sofisticada).
Mundo Verde Esperança
não é um disco fácil de ser ouvido, como nunca o foram os discos de Hermeto. Exige
atenção, raciocínio rápido, espírito aberto. Sivuca diz que Hermeto é o Beethoven
dos nossos tempos, o único criador original da pós-modernidade. Talvez não seja o
único. Mas, mesmo que não esteja no circuito comercial, vem espalhando sua visão ousada
pelo mundo. Há uma música instrumental DH depois de Hermeto. O tempo provará. Mauro
Dias
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