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Disputa desigual no mercado literário

05-06-2008

Academia Pernambucana de Letras

Escritores pernambucanos emcampam movimento para fazer chegar às prateleiras as produções locais

Augusto Pinheiro
Da equipe do DIARIO

   "As literaturas nordestina e pernambucana estavam entre as mais importantes do Brasil no século 20. Até hoje geram efeito e fazem escola. Não podemos colocar essa riqueza, tradição e potencialidade no ralo", desabafa Vital Corrêa de Araújo, presidente da UBE (União Brasileira dos Escritores), seção Pernambuco, um dos seis signatários do recém-lançado manifesto do Movimento em Defesa do Livro Pernambucano.

  O documento critica a ausência de publicações de autores e editoras locais nas "livrarias que têm matrizes situadas no eixo Rio-São Paulo", o que considera uma "atitude discriminatória", segundo o texto (leia a íntegra do manifesto ao lado). Assinam também o petardo os escritores Jacques Ribemboim, Olímpio Bonald, Carlos Bezerra Cavalcanti, Humberto França e Lourdes Sarmento.

  "Sabemos que o problema é a truculência do mercado, mas livro não é chocolate nem sapato. É um bem meritório, tem componente cultural muito forte e representa os valores culturais do lugar. As matrizes dessas livrarias têm que ter essa sensibilidade", diz Jacques Ribemboim.

  Os seis escritores já sentiram na pele a falta de receptividade para as publicações locais. Humberto França diz que seu livro foi recusado pois "só aceitavam poesia de autor nacional" e Lourdes Sarmento diz que "chorou por dentro" quando a Siciliano recusou suas coletâneas, com poetas e ensaístas do Norte e Nordeste. "Na época, em 2000, disseram que não aceitavam livros em consignação", conta.

  Mas eles fazem questão de frisar que o movimento não trata de uma questão pessoal. "Não foram apenas nossos casos. Ouvimos diversas reclamações de outros autores", explica Ribemboim. Entre as livrarias criticadas estão a já citada Siciliano e a Sodiler.

  Vital Corrêa de Araújo acrescenta que as discussões acerca do manifesto começaram há seis meses, com reuniões na sede da UBE. "Estudamos a questão, fomos às livrarias, conversamos com os gerentes para descobrir que realmente é uma situação precária".

  Membro da APL, Olímpio Bonald acha que o que falta para deslanchar a produção pernambucana é boa distribuição. "Temos uma literatura forte com uma produção grande. A editora Bagaço, por exemplo, tem mais de cem títulos, temos cerca de 18 associações literárias, entre academias, institutos e centros, o que falta é a ponta."

  A partir do problema das livrarias, o movimento pretende abarcar objetivos mais amplos, como descritos nas 14 ações que acompanham o manifesto, que incluem a proposta de adoção de livros de autores locais nas escolas e nos vestibulares, criação de um site e a organização periódica de eventos. Segundo França, a Fundação Joaquim Nabuco já está à disposição para a realização de um colóquio sobre a questão do autor pernambucano e a distribuição.

  "O manifesto é catalisador de um movimento mais amplo. Queremos motivar os escritores e a sociedade para a importância de voltar a ler prioritariamente, ou em paridade, o livro pernambucano", diz Ribemboim.

   A subgerente da Siciliano, Carla VirgÍnia, diz que a livraria não recusa um livro por se tratar de uma produção local. "Temos uma estante apenas com autores regionais, inclusive contemporâneos, como Lenivaldo Aragão e Paulo Salgado Filho", diz.

  Segundo a gerente, Tatiana Coutinho, os livros locais são enviados para a matriz a fim de que sejam analisados. "Nós fazemos uma pré-seleção aqui, mas eles têm que aprovar o tipo de papel, a parte gráfica, que têm de ter qualidade", diz.

  Para ela, o que falta é o investimento por parte dos autores e das editoras em divulgação. "Tem que se fazer tarde de autógrafos, banners, convites." A Siciliano trabalha em sistema de consignação com os autores locais, cobrando um percentual de 50%, o que acaba afastando editoras, como a Bagaço. "Até arriscaria praticar esse percentual se nossos livros fossem para outros Estados, pois aí ganharia também a distribuição", diz Arnaldo Afonso, diretor da Bagaço.

  Segundo ele, esse valor é incompatível com a realidade local. "O ideal é que chegue, no máximo, a 35%. O percentual cobrado também é uma forma de recusa." Afonso também critica a Sodiler: "Eles mandam o exemplar para o Rio para análise e nunca dão resposta", diz. A livraria foi procurada pela reportagem para rebater as críticas, mas não se manifestou.

  Para o editor, o Movimento em Defesa do Livro Pernambucano, "composto por pessoas com credibilidade", vai garantir mais respaldo para escritores e editoras e "fazer com que as livrarias pensem duas vezes antes de dizer não".


Manifesto

   Nós, escritores e editores abaixo-assinados, vimos a público externar nossa insatisfação contra a atitude discriminatória de algumas livrarias em relação ao autor pernambucano.

  Livrarias que têm matrizes situadas no eixo Rio-São Paulo, com raras exceções, alegam estar proibidas de adquirir, mesmo em consignação, livros editados em nosso Estado, ainda que sejam de comprovado êxito comercial. Suas vendas concentram-se quase exclusivamente em autores do Sul e Sudeste. Exigimos respeito e reciprocidade.

  O livro é o mais completo instrumento de preservação e difusão da cultura regional. Por isso, a nossa preocupação. O Nordeste abriga considerável número de escritores, editores e livreiros da melhor qualidade, que necessitam espaço e apoio para a comercialização de suas obras.

  Conclamamos a sociedade a envidar esforços para que o livro pernambucano ocupe o merecido destaque nas livrarias, nos meios de comunicação e no gosto do público em geral e convidamos a todos para que se engajem na constituição de umamplo Movimento em Defesa do Livro Pernambucano.

Encorajamos escritores dos demais Estados a tomarem iniciativas semelhantes.  

Recife, 23 de dezembro de 2003  

Jacques Ribemboim (Civitate), Vital Corrêa de Araújo (União Brasileira dos Escritores - PE), Olímpio Bonald (Academia Pernambucana de Letras),
Carlos Bezerra Cavalcanti (Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano), Humberto França (Centro de Literatura Mauro Mota) e Lourdes Sarmento (Academia de Letras e Artes do Nordeste Brasileiro).

(© Pernambuco.com)

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