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Celebre a preguiça

05-06-2008

Artesã fazendo uma rede, na Paraíba

Ela repete, dócil e macia, os movimentos do nosso corpo, disse Câmara Cascudo. Verdadeiro símbolo cultural nordestino, a rede pode ser eleita o móvel por excelência das férias. Saiba mais sobre ela aqui

MARGOT DOURADO

   “Da rede, na varanda, vejo a mulata. Penso: - ‘vou lá’. Mas, ao me imaginar levantando, sinto uma moleza, um dengo... acho que não vou mais lá, não”, recitou, certa vez, o poeta alagoano Jorge de Lima. Pois é, não há dúvidas que, para nordestino que se preza, a rede é a tradução mais regional do quinto pecado capital (leia-se preguiça). Duvida? Pois vá, pergunte a si mesmo: qual pernambucano consegue resistir ao balanço, o ventinho batendo no rosto, o ruído insistente de ‘vai e vem’? Se você já está deitado nela, nada lhe faz levantar. E não há melhor programa do que cochilar em uma rede fresquinha depois de um final de semana regado a cerveja, feijoada e praia (ou champanhe e peru, para os que ainda estão no clima de Réveillon). Jorge de Lima que o diga.

   Gostos à parte, a verdade é que o uso da rede é um costume tipicamente nordestino e que nasceu com os nossos primeiros antepassados. “Essa peça foi inventada pelos índios, mas foram as mulheres dos colonos portugueses que a aperfeiçoaram. Primeiro, substituíram o tucum pelo algodão e depois inovaram ao aplicar bordados e franjas ornamentais”, afirma o folclorista Luís da Câmara Cascudo no seu ensaio Rede de Dormir. Até 1492, a rede era conhecida apenas em terras americanas – Colombo foi o grande divulgador do hábito indígena de dormir em redes suspensas. “Os espanhóis perceberam que as redes ocupavam um espaço menor nas embarcações e passaram a usá-las como leito para os marinheiros”, continua o historiador Sérgio Buarque de Holanda no seu livro Caminhos e Fronteiras. E foi assim que a rede chegou à Europa, à África e à Ásia.

   Ao contrário do que se imagina, ela não foi bem recebida pelos outros povos. Na Ásia, por exemplo, a rede tinha a função de transportar objetos e pessoas deficientes. Dizia-se, inclusive, que a peça trazia azar para quem a usasse. Já na África, ela era usada como maca para doentes e caixão funerário dos mais pobres (essa é a origem do costume nordestino de enterrar mortos embrulhados em redes). De acordo com registros históricos, até os escravos brasileiros tinham aversão ao objeto. “Os primeiros negros que chegaram da África preferiam dormir no chão duro e repleto de formigas, ratos e cobras. Com o tempo a adaptação se tornou inevitável e as novas gerações, que conviveram com o costume desde pequenas, dificilmente largavam sua rede. Daí o ditado ‘negro que não zela sua rede, não zela seu amo’”, conta Câmara Cascudo. Naquele tempo, as redes eram confeccionadas por mulheres e deveriam ser passadas de geração à geração.

   Na Europa, a rede também não foi bem recebida. Na França e na Inglaterra, a peça era associada à falta de civilização e à barbárie. “Nos países ricos, só os pobres e imigrantes dormiam em redes”, afirma Câmara Cascudo. Por sinal, uma das explicações para o repúdio dos povos não-americanos à rede de dormir foi a maneira como essa peça foi levada ao primeiro mundo. “A rede copiada pelos europeus do século 16 e que até o século passado era confeccionada por lá seguia os padrões planos, tal como as camas onde se dorme no sentido do comprimento”, explica Sérgio Buarque de Holanda. “Na rede indígena, ao contrário, deita-se na diagonal. Esse detalhe é que torna o objeto aconchegante e acolhedor”, completa.

   Em terras tupiniquins, porém, essa herança indígena foi importantíssima para a sobrevivência da sociedade brasileira nos primeiros anos do descobrimento e durante todo o período colonial. Para se ter idéia, a peça era presença marcante tanto em casas de senhores de engenho quanto em senzalas de escravos. "Ao visitar pela segunda vez as capitanias de Pernambuco e São Paulo, no século 16, Saint-Hilaire impressionou-se com a presença de redes de dormir ou descansar em quase todas as habitações que orlavam o caminho. O apego a esse móvel pareceu-lhe uma característica marcante da gente brasileira”, ressalta Sérgio Buarque de Holanda. No século 18, com a chegada dos imigrantes europeus, a rede começou a perder sua influência nos territórios sulistas. “O clima frio do Sul e Sudeste foi outro obstáculo para a consolidação do objeto como tradição dessas regiões”, complementa Holanda.

   Rejeitada pelos africanos, desprezada pelos europeus, descartada pelos sulistas e amada pelos nordestinos. “O clima quente da região Nordeste facilita uma preguiça natural e qualquer leito, por melhor que seja, obriga-nos a tomar seu costume, ajeitando-se nele numa sucessão de posições. A rede é a exceção”, diz Câmara Cascudo ao explicar a adoração dos nordestinos pela rede. “Ela é quem toma o nosso feito, contamina-se com os nossos hábitos e repete, dócil e macia, a forma do nosso corpo”, continua. E para quem ainda não se convenceu, o estudioso completa: “A cama dos estrangeiros é hirta, parada, definitiva. A rede não. Ela é acolhedora, compreensiva, coleante e acompanha, tépida e brandamente, todos os caprichos da nossa fadiga.” E você, já está na rede?

(© Jornal do Commercio-PE)

Resgate da herança indígena

Pesquisa de campo registra cotidiano das tribos do Norte e Nordeste

   Ele conta que já viajou por 28 países fazendo pesquisas. Diz que apenas no período de sua especialização em antropologia social e cultural, em Londres, visitou quase toda a América do Sul. Agora o pernambucano Valdécio Abílio Ferreira, formado em História pela UFPE, toca o projeto Resgate da Cultura Indígena das Regiões Norte e Nordeste do Brasil.

  "O projeto está em andamento há seis meses, com recursos próprios. O objetivo é fazer um levantamento das várias manifestações culturais dessas tribos para difundi-las nas escolas", explica Ferreira, que já trabalhou como educador ambiental para a empresa escocesa Alpina Briggs e colabora com o jornal holandês Arnon.

  Como resultado final do projeto, o antropólogo pretende lançar um livro com fotos, em preto-e-branco, feitas por ele mesmo, e um vídeo. Ele ainda corre atrás de patrocinadores.

  No seu périplo, Ferreira já esteve em estados da Amazônia, como Pará, Roraima, Amazonas e Acre. Também passou pelo Maranhão. Fica no Recife até o próximo dia 10, depois vai a Belém (PA), grande centro de pesquisa indígena, e viaja para outros estados.

  "No Pará, há uma diversidade cultural muito grande, rica em folclore. Os índios não abrem mão da sua tradição em hipótese alguma. Mas eles têm sofrido com as invasões dos posseiros e dos garimpeiros", afirma.

  Do Nordeste, ele aponta Pernambuco como o Estado com a maior concentração de índios, cerca de 19 mil. Segundo ele, no ranking brasileiro, o estado está em quarto lugar, atrás de Pará, Amazonas e Mato Grosso.

  "Mas a maioria das tribos pernambucanas já está aculturada. A que preserva melhor a própria cultura é a Fulni-ô, que mantém o idioma yate e as práticas culturais, como o toré (dança)", diz ele. "É um referencial de persistência e resistência."

  Ferreira tem um carinho tão especial pela tribo que escolheu uma foto tirada no local para ilustrar a capa da sua autobiografia, ainda em fase de finalização, batizada de Uma Vida em Movimento (Antropologia e Aventura). Ainda sem editora, ele espera lançar a publicação atémarço.

AMÉRICA LATINA - Paralelo ao projeto de resgate cultural das tribos, Ferreira faz um estudo comparativo entre a evolução do índio brasileiro e de outros países da América Latina, abordando assuntos como troncos e famílias, trabalho e lingüística. Para tanto, já esteve no Peru, onde se tornou adepto da teoria da migração dos incas para a Amazônia brasileira - chegando até a ilha do Marajó (PA), berço da sofisticada civilização marajoara.

  O trabalho de Ferreira também envolve riscos, como quando visitou uma tribo de ianomâmis em Roraima. "À noite, garimpeiros invadiram a área à procura de ouro, expulsando os índios com violência. Foi horrível", lembra.

  Na mesma região, ele participou de um ritual estranho para a cultura do homem branco. "Tive que tomar, junto com os outros, a sopa feita com os ossos de uma criança que morreu de malária."

(© Pernambuco.com)

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


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