05-06-2008
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Personagem de reisado: a brincadeira de ‘‘Tirar Reis’’ ainda agita os
bairros de Fortaleza |
Tradição não se acaba.
Transforma-se, incorpora novos temas, deixa outros de lado. Mas a essência
permanece. É o caso dos pastoris e reisados, folguedo que tem quase um
milênio de idade
Tradição não se acaba.
Transforma-se, incorpora novos temas, deixa outros de lado. Mas a essência
permanece. É o caso dos pastoris e reisados, folguedo que tem quase um
milênio de idade.
A programação de autos
natalinos se encerra no dia seis de janeiro, consagrado aos três Reis Magos
que visitaram Jesus Menino em Belém. O Dragão do Mar apresenta, desde
dezembro, reisados e pastoris do interior do Ceará. Já no Mercado das Artes
acontecem autos natalinos e exposição de lapinhas, promovidos pela Funcet,
que também apóia a tradicional Festa dos Caboclos da Parangaba.
Sem aporte oficial,
brincantes do Pirambu e Barra do Ceará também saúdam o nascimento de Cristo.
Confira programação e veja, nas páginas centrais, a memória do mais famoso
reisado do Mucuripe, em relato de antigos brincantes. Na última página,
Oswald Barroso fez um poema de Reis especial para os leitores.
(©
NoOlhar.com.br)
Pastorinhas, ciganos galegos e o diabo na
folia do Zé Taé
Lembrança de antigos reisados do Mucuripe,
vividos na infância, começos da juventude. O tempo era outro, mais ameno e
calmo, na cidadezinha vestida de chita e sol. Para lembrar um dos mais
famosos pastoris que Fortaleza já teve, fomos atrás dos participantes da
velha brincadeira comandada por Zé Taé
Eleuda de Carvalho
da Redação
''Ó senhor, dono da casa
abra a porta, acenda a luz
Ô, abra a porta, acenda a luz
pelo nome de Jesus'' (cantiga popular de Reis)
Diz quem tem boa memória e viu e
viveu, que nunca houve, em Fortaleza, pastoril mais bonito do que o do
Mucuripe. À frente da brincadeira, um filho de jangadeiro que nunca se
arvorou na lida marítima. Zé Taé tinha no sangue era arte e, enquanto viveu,
cada mês tinha uma festa diferente no velho bairro dos pescadores. Quem sabe
tudo dali é Vera Lúcia Marcelino Miranda, que por sua conta mantém em casa
um museu vivo do lugar. ''Zé Taé, que se chamava José Jacinto, foi uma
pessoa autêntica. Fazia coroação de Nossa Senhora, pastoris, reisados. Eu
brinquei duas vezes e tirava muito Reis. Ô tempo bom!', recorda Vera. E dá a
dica: procure Valdelys Balaio, que brincou no reisado do Zé Taé.
Então, na manhã da véspera do Ano
Bom, fomos atrás da rua Santana, que agora é uma avenida imensa de larga,
pedaço da via expressa que ligará todos os recantos da cidade. Entre buzinas
e carros estridentes, chegamos na casa grande, arejada, com jardim de
inverno e móveis que dizem de toda uma vida. À espera, os manos Valdelys e
Valmir, dois dos 15 filhos da professora Aída Balaio. Na varanda, dois
quadros coloridos retratam cenas do Mucuripe que não existe mais, o farol
entre dunas brancas, casinhas de palha, os homens do mar, as mulheres e
crianças ao sol. Arte de Verinha Miranda.
Valdelys tem suas vaidades, diz de
idade ''setenta e tantos'', o mano Valmir tem gosto em dizer de suas 86
primaveras, 27 delas vividas no glamour da Cidade Maravilhosa, como
figurinista da companhia de teatro de revista de Carlos Machado, onde
brilharam vedetes do porte de Virgínia Lane. Lá pelo meio da conversa,
temperada com um suco de manga, chega uma vizinha e amiga para uma visita.
Que surpresa, dona Iracema também brincou no pastoril do Zé Taé.
''A gente morava na
Dom Manuel, mas papai tinha uma casa aqui, onde era delegado. Mamãe foi a
primeira professora do Mucuripe, viu? Tanto que tem rua, tem creche, com o
nome dela'', diz Valdelys. ''Ave-maria, mamãe tinha 369 afilhados! Ela veio
pra cá com 18 anos, pra ensinar. Aqui era como uma aldeia de índios, só
tinha pescador, casa de palha'', recorda. Quanto à brincadeira, Valdelys
participou já rapazinho. ''O pastoril do Zé Taé era conhecido, vinha gente
de longe pra assistir. Ele fez um pastoril de rapazes e moças. Fiz papel de
cigano, de pastor, do Cão, dançava a dança do fogo... Era uma maravilha. Os
cânticos, tudo moderno. A gente escolhia músicas da atualidade com letra
diferente, compreendeu?'. Ainda não, mas quando Iracema chegar...
''De primeiro, começou só com moças.
Quase toda mocinha daqui, hoje estão com uma certa idade, mas tudo brincaram
na festa do Zé Taé. Depois é que ele resolveu fazer o pastoril com rapazes e
moças. Ele também fazia quadrilha, tirava Reis. O Mucuripe era uma coisa!
Depois que ele morreu, tudo se acabou'', lamenta. ''Começava a gente
cantando o nascimento de Jesus. Aí desenrolava a história, as pastoras
cantando ao redor do Menino, tinha os Reis Magos, o Herodes'', vai
debulhando os personagens, cutucando os vãos da lembrança. ''A gente ficava
até de madrugada tirando Reis. Um tocava pandeiro, outro o cavaquinho. A
orquestra do pastoril era só de rapazes daqui mesmo''.
Eles também criavam as
coreografias, recorda o caçula de Aída Balaio. ''A gente tinha muita idéia.
A gente fazia como se fosse um jerimum grandão, viu? Os galegos, que eram os
meninos, saíam de dentro, era lindo, eles vinham saudar Jesus também. A
gente fazia coisa de impressionar. Aqui também tinha fandango, mas nunca
tomei parte, era só os pescadores. Também era no mês de dezembro, os
fandangos, o navio (Nau Catarineta). No mês de maio era a coroação de Nossa
Senhora. Junho, as quadrilhas, as moças tudo de vestido rodado, os homens
com aquelas calças remendadas. Quando o Zé Taé era vivo, todos os meses
tinha uma festa diferente na igreja. Ele tomava conta, era uma criatura
maravilhosa. Era afilhado da mamãe. Zé Taé fazia favor a todo mundo, tomava
conta da igreja, ia para o Rio de Janeiro comprar santo, trazia novidades,
tecidos, retalhos...', detalha Valdelys.
''O pastoril era no palco, armado
nessa rua aí, nesse tempo não tinha a avenida. A entrada era barata. Mas era
pago, porque se gastava dinheiro. As ciganas, a gente escolhia as meninas
mais bonitinhas, charmosas. A gente tinha muito bom gosto. As floristas,
ciganas, tudo a gente escolhia as mais bonitas. A gente tem saudade...'. E a
memória dá um salto, cai em pleno carnaval. Um, em especial, no Clube Terra
e Mar. ''Era conhecido, o carnaval do clube. E meu irmão Valmir, quando
chegou do Rio, decorou as paredes com o desenho das mais lindas vedetes''.
Valmir se ajeita na cadeira, entra, enfim, na conversa.
''De Deus não peço mais nada, porque
tenho vergonha de pedir, por mim e pelos outros. Não quero nada, nada, nada,
a não ser a bênção de Deus e uma boa hora. Eu ia passar três anos nos
Estados Unidos pra ficar rico e voltar. Antes, vim visitar a minha mãe.
Quando cheguei, encontrei minha mãe ainda nova, bonita, passeando comigo,
indo a festas, reuniões. Eu digo, home, quer saber de uma coisa?, vou pros
Estados Unidos não, vou ficar no Ceará. Aí fiquei. Deixei o mundo artístico,
porque aqui não tinha nada pra mim. Ainda trabalhei com a Hiramisa Serra, na
Valsa Proibida, do Paurilo Barroso, inda fiz umas roupas pra
esta cantora maravilhosa, Ayla Maria, trabalhei pras escolas de samba''.
(©
NoOlhar.com.br)
''Era como um teatro de revista''
Sem carecer bater
palmas ou anunciar a chegada, uma senhora de sorriso amplo e jeito alegre e
sacudido vem chegando. É Iracema Lucas Ferreira, 61. Valmir faz as
apresentações, pergunta: ''Iracema, tu foi pastorinha do Zé Taé?', ela
responde, ''fui cigana e fui galega, bom-dia! Nasci, me criei e envelheci
aqui no Mucuripe. Eu tinha mais ou menos uns 14 anos quando brinquei pela
primeira vez no pastoril do Zé Taé''. Lembra das músicas? ''Da galega eu me
lembro bem''. E canta, com sotaque português e voz muito bonita, aguda e
afinada: ''Da guitarra, um doce harpejo/ que nem toda a gente entende/ fado
é tal e qual o beijo... E o resto não me lembro mais. A dança era uns
passinhos pra lá, pra cá. Agora, as ciganas faziam a dança do fogo, certo?
Com fogo mesmo, que era pra dança do Cão''.
Valdelys, o Cão em pessoa. Por que a
figura do Cão no reisado, Valdelys? ''É a tentação, né?', diz ele. Iracema
vai explicando como era o pastoril. ''Tudo era de dupla, tinha os negrinhos,
os galegos, índio não. Eu era uma cigana meio revoltada, rebelde. Porque
tinha a primeira cigana, eu era a segunda, vivia uma vida de muito
sacrifício. Na minha cena, tinha uma bacia com batatas que eu começava a
descascar. Aí me aborrecia, jogava a bacia, batata descia de palco afora. Eu
dizia: - Qualquer dia desses, deixarei a caravana e Zara que aguente e fique
com ele - que era o primeiro cigano. Era a Antonilza e eu''.
Quer dizer que tinha uma parte
cantada e outra falada? Valmir atalha: ''Era como um teatro de revista''.
Iracema retoma o fio da história. ''Por sinal, no começo, era Nossa Senhora
já bem pesadinha pra ganhar Jesus, procurando um lugar pra ficar. Aonde ela
batia, não encontrava abrigo. Era eu que dizia: - Não há mais lugar,
senhores! Vejam, ali adiante há um estábulo''. Valmir parece que está vendo
a cena: ''Os cenários eram lindíssimos, menina, tudo pintado''. E Valdelys
completa: ''Tinha até uma cortina, grande assim, pra fechar e abrir, entre
um ato e outro''. E Iracema: ''E os jogos de luzes? Tudo isso tinha, ficava
bonito, sabe? Na hora que os ciganos dançavam, era muito lindo, aquelas
chamas ficavam bonitas devido aquela tonalidade''.
Durava uma hora a apresentação?
Iracema responde, ''era mais, era mais, era bem umas três horas. E tinha um
intervalo, pra deixar as pessoas naquela expectativa do que ia vir. Tinha
também os rapazes que tocavam cavaquinho, violão, os músicos. As letras eram
feitas em cima das músicas mais conhecidas. Por exemplo, aquela ''Besame
Mucho'': - Eis-me aqui, ajoelhada/ venho pedir ao seu coração / dai, à minha
alma amargurada/ a felicidade do teu perdão. Porque eu já estava arrependida
e pedia perdão por ter abandonado a caravana. A florista era lindíssima,
vinha com aquela cesta de flores, dançava com um pastor, a florista sempre
era bonitinha e benfeitinha. Lembro que a Marinete foi florista, a Magui,
que também é da minha idade... Menina, a gente adorava. Porque naquela
época, pense, não existia tanto lazer, tanto divertimento. Véspera de Natal,
até meia-noite a gente estava ali, era nosso divertimento''.
As apresentações
começavam na semana do Natal. ''Quando terminava o pastoril, a gente ia nas
casas tirar Reis'', diz Iracema. E Valdelys completa, ''davam galinha, davam
frango, davam ovos. E no outro dia o dono do pastoril fazia um leilão de
prendas e um jantar pro pessoal''. Iracema: ''Era muito bondoso, o finado Zé
Taé. Ele mesmo dava uma gratificação às meninas, aos pastores''. Valmir, o
Zé Taé era um homem de teatro, intuitivo? ''Era, era. Era um homem simples
mas muito inteligente e muito participativo''.
O auto natalino do Zé Taé atraía
muita gente, recorda Iracema. ''Lotava, ficava tudo cheinho lá, a platéia,
né não?', os irmãos concordam. Diz Valdelys: ''Cada um levava seu banquim de
casa pra se sentar''. E saiu muito namoro, durante esses pastoris? Iracema
responde: ''Saía não, porque eram poucos rapazes que participavam. E o Zé
era muito cuidadoso com a gente, porque ficava sob a responsabilidade dele,
né? Ele era muito severo''. E muda de assunto, olhos postos em imagens de
mais de três décadas. ''Nunca esqueci o último ano que brinquei de cigana.
As roupas eram lindíssimas. Muitas saias, muito babado, muito brilho. As
mangas vaporosas, a gente bastante maquiada, brincos grandes, muito adorno.
As roupas das pastoras eram mais simples, mas tudo muito bonito''. Na minha
cabeça, fica rodopiando a frase da Verinha, ''ô tempo bom''. O que dirá
nossa futura saudade deste tempo de agora? (EC)
(©
NoOlhar.com.br)
O princípio da brincadeira
Do presépio, notícias
seguras. A primeira vez em que se recriou o cenário e a história do
nascimento de Cristo foi no século XII, por iniciativa de um jovem frade da
cidade de Assis, chamado Francisco. O mesmo santo protetor dos animais. Pois
foi ele, sim, quem resolveu encenar este momento maior da cristandade, com
burrinhos e vacas a espreitarem, junto com pobres pastores e sábios reis do
Oriente, aquele Menino deitado sobre palhas, num estábulo de Belém. É
durante o mesmo período, a longuíssima Idade Média, que os autos natalinos
começam a ser encenados. Primeiro, no adro das igrejas, para sensibilizar o
povo. Depois, ganhando ruas e praças, atravessando fronteiras e, já no
século XVI, dando ares por estas terras novas, descobertas por Colombo.
Espanha e Portugal, os senhores dos mares de então, ampliaram seus reinos -
além das riquezas do Novo Mundo, os católicos ibéricos se propuseram a
converter o gentio. Os padres da Companhia de Jesus utilizaram para tal
missão as técnicas teatrais codificadas por Gil Vicente, autor dos mais
belos autos (ou representações dramáticas) de Portugal.
No Brasil, os líricos pastoris e os
guerreiros reisados se mesclaram com a cultura dos nativos e dos negros.
Brigas de mouros e cristãos se cristalizaram no partido azul e encarnado; o
ciclo do couro e do gado contribuiu com novas figuras, como o Boi, a
Catirina, o Mateus. Dos indígenas e negros, vieram também as máscaras e a
figuração de bichos totêmicos, a ema, o jaraguá... Cantigas do tempo de D.
Diniz, o Rei Trovador, ainda se mantém, embora modificadas pelo tempo. Até
bem pouco tempo, a brincadeira de ''tirar Reis'' agitava todos os bairros de
Fortaleza, como lembra o pesquisador Miguel Ângelo de Azevedo, o Nirez:
''Aqui tinha esse costume de se cantar nas portas das casas. A gente dava
comida, bebida, dinheiro. Nos anos 60, os maracatus começaram a tirar Reis.
Na década de 90, ninguém mais abria a porta. - Aqui estou em vossa porta/ em
figura de raposa... Quem vai abrir? Quando o pessoal não dava esmola
nenhuma, a turma ia embora cantando o 'Sou Pão Duro', parceria de Assis
Valente e Luiz Gonzaga, que Gonzaga gravou em 1946, antes disso não sei como
era. - Eu sou pão-duro e vivo bem / Não dou esmola, não faço favor, não
ajudo a ninguém''. (EC)
(©
NoOlhar.com.br)
| Reisados e pastoris
ou que anjos são esses que andam guerreando |
Dentre tantos
bons pesquisadores da nossa cultura popular, um que se dedica faz
muito tempo às encenações, posto que ele também se fez dramaturgo, é
Oswald Barroso, que está escrevendo sua tese de doutorado em
Sociologia (UFC), com o tema dos reisados cearenses. ''Desde 1976,
até hoje, vivo fazendo isso. Tento aprender teatro com estes
folguedos do povo'', diz. Primeiro, o Reisado de Congos, que ele
debulhou no mestrado. Agora, estuda o Reisado de Caretas ou Reisado
de Máscaras. ''Eles existem (e resistem) de Maranguape a Caridade e
Canindé. Vou filmar, registrar'', alegra-se. Com tanta coisa pra
fazer, Oswald separou um tempinho para escrever um artigo para o
Vida & Arte. Nasceu este poema, que junta o antigo e o
contemporâneo, a guerra e o senso da justiça, a brincadeira e o
sério. (EC)
Nossos Reisados são épicos,
guerreiros e masculinos.
Já os Pastoris são líricos,
delicados, femininos.
Mas ambos vão a Belém.
E representam além
cortejos, em caminhada,
seguindo em longa jornada
para adorar o Divino,
pra visitar o Menino,
na manjedoura nascido.
E como é longo o caminho,
cheio de pedras, perigos,
fazem autos, nas estradas,
para beber um bom vinho
e comer boa comida.
E como é muito comprida,
a trilha do seu destino,
em honra do Deus Menino,
nas casas fazem paradas.
Aos donos pedem abrigo
para espantar a canseira.
E se encontram acolhida
em troca dão brincadeira.
Fazem festa a noite inteira.
Cantam peças, tiram loas,
alegrando a vida à toa
do povo pobre sofrido.
E sendo bem recebido,
o Reisado faz sua festa,
seja no mato ou na rua.
E mesmo não tendo lua
dança, canta, faz seresta,
e mostra tanto espetáculo:
drama, comédia, teatro,
entremez, diabo a quatro,
que, sem perder a ternura,
jamais qualquer noite escura
resistiu à madrugada.
Para um Rei é quase nada
encher a noite de riso.
Fazer guerra se preciso
pra defender o Menino
dos foguetes terra-a-terra,
dos mísseis teleguiados,
brincando e batendo bumbo
nos mais incríveis bailados,
contra a bomba, contra o chumbo
das mortais metralhadoras,
defendendo a manjedoura
do Deus Menino nascido
por santa mãe, concebido,
numa noite de Natal.
Mas, feito qualquer mortal,
o Menino chora e berra
com medo do Treme-Terra,
com receio do Babau.
Por isso vem a comédia,
para alegrar o Menino,
pra distraí-lo do mundo,
esconder tanta tragédia.
Por isso muita figura,
feito o Prinspo Florismundo,
a Princesa Zabelinha,
feito o Mané Pequenino
que aumenta de altura.
Feito o Boi, feito a Burrinha,
testemunhas do Natal.
Feito o bicho Folharal,
o Manu, o Jaraguá,
Alma, Cão, Guriabá,
Ema, Sapo e São Miguel,
que é anjo lá do Céu.
Feito ainda o Cangaceiro,
tipo rude e arruaceiro.
Feito a bonita Sereia,
que na praia se penteia.
Feito o Urso, o Italiano
que parece com cigano,
o Velho, a Velha Careta,
o Pai Tomé que, zambeta,
quer casar com Catirina.
Feito o Mateu Bastião,
que troca o pé pela mão.
Feito a Princesa, menina
de formosura e beleza.
Feito toda a fortaleza
da formação de guerreiro,
vindo Seu Mestre primeiro,
em segundo, o Embaixador,
o Contra-mestre em terceiro
e por último o Bandeirinha,
que tá preso na cozinha,
comendo pão com farinha,
espalhando resplendor.
Tudo é feito com amor,
papel de seda e miçanga,
carta tirada da manga,
fruto de fina magia,
brilho de bijuteria,
coração de maravilha.
Tudo é feito com paixão,
estrela que tanto brilha
no Presépio, na Lapinha,
chamando para Belém
o pastor e a pastorinha,
a ciganinha também.
Todas, nesse vai e vem,
dançam, cantam, se divertem.
De azul, umas se vestem,
outras brincam de encarnado.
Cada qual tem o seu lado,
seu cordão, nesta disputa.
Mas é tão alegre a luta
de sorrisos, balanceios,
que já não cabem receios
sobre quem vence afinal.
Pois aqui tudo é Natal.
Tudo é festa, tudo é riso
para o Menino nascido.
E dizer não é preciso
que daqui só sai vencido
o rancor, o ódio, a briga,
o desamor, a intriga.
O resto sai empatado
na beleza do bailado.
Mas cuida, Pastora bela,
que Belém está cercada
feito praça ou cidadela
por tropas, interditada.
Por isto, linda morena
neste cenário faz cena,
veste traje de encantada,
se disfarça de Careta,
de cravo, rosa ou bonina.
De raposa ou borboleta.
Na figura de açucena
vem cantar flor pequenina.
Põe o joelho na terra,
amansa o chão dessa guerra,
vem dançar na Palestina
que sofre sem se curvar,
por todo canto e lugar.
Seja de noite ou de dia
prossegue, a santa folia,
o Pastoril, o Reisado.
Faz brilhar sua alegria
no caminho da utopia.
Segue o cordão encantado,
dançando lindo bailado,
em busca do Deus Menino
que renasce pequenino
em cada bom coração.
Para que prossiga a vida,
raie o sol, se mostre a lua,
brinca o palhaço na rua
com sua cara colorida.
Canta a pastora a jornada,
faz o rei sua embaixada
apesar de toda guerra,
apesar de todo medo.
Para que prossiga a Terra,
girando pelo universo,
faz o Pastoril seu verso
e o Reisado, seu brinquedo.
Oswald Barroso é dramaturgo, jornalista e
doutorando em Sociologia na UFC
(©
NoOlhar.com.br) |
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