05-06-2008
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Patativa do Assaré: obra reeditada
pela Hedra, que também já editou estudos sobre o poeta |
Toda a
poesia de Patativa do Assaré será reeditada pela Hedra. O primeiro título a
sair foi Inspiração Nordestina
Quando morreu, em
2002, o cantador sertanejo Patativa do Assaré orgulhava-se de sua coerência
- em 93 anos de vida, ele praticamente não abandonou sua roça no interior do
Ceará (com exceção de alguns meses quando morou no Pará) e, acima de tudo,
Patativa, como mestre da poesia oral, jamais tentou publicar um texto com os
próprios meios, sendo sempre editado pelos admiradores de sua obra.
Foi graças a esse empenho que seus
versos - exemplares na tradição dos trovadores, dos repentistas, dos
violeiros e da literatura de cordel - foram preservados em livro a partir de
1956, quando surge a primeira compilação de sua obra, Inspiração
Nordestina. E é justamente com esse título, há anos longe das
livrarias, que a editora Hedra inicia o trabalho de reedição da poesia de
Patativa do Assaré (354 páginas, R$ 21,00). Os próximos da fila são
Ispinho e Fulô e Aqui Tem Coisa.
Figura emblemática da poesia oral,
''mestre da poesia popular'' (como definiu o ensaísta e cineasta Rosemberg
Cariry), Patativa do Assaré foi um dos principais representantes do cantador
nordestino, tipo de homem proveniente do meio rural e em geral analfabeto,
que improvisa ou narra, graças a uma memória prodigiosa, os principais
assuntos de seu cotidiano, desde as aventuras de homens valentes até as
dificuldades de se viver no sertão.
E é justamente por se preocupar em
descrever a rotina do sertão e, com isso, exigir respeito à dignidade do
camponês sertanejo, que a obra de Patativa ganha uma dimensão marcante. Já a
primeira poesia do livro, ''Ao Leitô'', é aviso: ''Não vá percurá neste
livro singelo / Os canto mais belo das lira vaidosa, / Nem brio de estrela,
nem moça encantada, / Nem ninho de fada, nem chêro de rosa. / Em vez de
prefume e do luxo da praça,/ Tem chêro sem graça de amargo suó, / Suó de
cabôco que vem do roçado, / Com fome, cansado e queimado do só''.
A inspiração
foi sua própria vida - segundo filho de um agricultor pobre da região do
Cariri, tendo perdido muito jovem a vista direita em conseqüência da
moléstia vulgarmente conhecida por Dor-d'olhos, órfão de pai aos 8 anos,
Patativa (pseudônimo de Antônio Gonçalves da Silva) é obrigado a trabalhar
no campo para ajudar a mãe e a família pobre.
Sem deixar a roça, freqüentou a
escola durante seis meses, quando estava com 12 anos. O curto período é
justificado por um motivo prosaico: apesar de atencioso, o professor era
precariamente letrado e não sabia ensinar a pontuação. É assim que ele
aprende a ler sem ponto nem vírgula, como se o ritmo das palavras fosse dado
unicamente pela voz.
''Essa estranha aprendizagem, em
realidade, é apenas a expressão profunda da oralidade que caracteriza a
cultura popular e a tradição dos poetas-repórteres'', observa Sylvie Debs em
um estudo sobre a obra de Patativa, publicado pela Hedra em sua coleção
Biblioteca de Cordel.
Como gostava de escutar o irmão mais
velho lendo folhetos de literatura de cordel, o garoto logo descobriu sua
vocação poética e iniciou a criação de 'versinhos'. Em uma sucinta
autobiografia reproduzida na abertura de Inspiração Nordestina,
Patativa lembra seus primeiros trabalhos: ''De 13 a 14 anos, comecei a fazer
versinhos que serviam de graça para os serranos, pois o sentido de tais
versos era o seguinte: brincadeiras de noite de São João, testamento do
Juda, ataque aos preguiçosos que deixavam o mato estragar os plantios das
roças.
Aos 16 anos, adquire uma viola de dez
cordas e decide fazer improvisações seguindo a tradição dos violeiros,
esperando ser convidado para festas de santos e casamentos. Como compõe
durante o trabalho na roça, Patativa não se dá ao trabalho de escrever no
papel as poesias, preferindo memorizá-las. ''Nunca quis fazer profissão de
minha musa, sempre tenho cantado, glosado e recitado quando alguém me
convida para esse fim'', explica-se, em sua autobiografia.
Seu talento tanto para improvisar
como para memorizar começava a despertar atenção - um primo materno,
encantado com seu trabalho, o convidou a viver em Belém, no Pará, onde
conheceu o escritor cearense José Carvalho de Brito. Este publicou seus
primeiros textos no Correio do Ceará, em que colaborava.
Neles, Brito comparava a poesia
espontânea de Antônio Gonçalves da Silva à pureza do canto da patativa,
pássaro do Nordeste. E, para distingui-lo de outros improvisadores,
acrescentou-lhe o topônimo de sua vila natal, Assaré. Criava-se o pseudônimo
que o tornou famoso até no exterior.
Depois de cinco meses no Pará,
Patativa, não suportando a saudade, voltou para sua terra e sua roça, as
quais só abandonou esporadicamente até o fim da vida. Afinal, com a
publicação de Inspiração Nordestina, seus versos começaram a
chamar atenção de outros Estados, especialmente da região Sudeste. Logo,
surgiram novas antologias, que despertaram interesse de estudiosos de
cultura popular.
Em 1995, o então presidente Fernando
Henrique Cardoso rendeu uma homenagem ao poeta, que já estava completamente
cego, concedendo-lhe a medalha José de Alencar. Na ocasião, foi lançado
também um CD, com gravações de suas improvisações. Mesmo debilitado
fisicamente, Patativa mostrou estar com a memória intacta e recitou versos
que celebravam as grandezas e as misérias do sertão.
A oralidade
sempre foi marcante nos textos de Patativa do Assaré, que compôs uma
poesia essencialmente narrativa, testemunha da história cotidiana do
sertanejo: ''Da minha vida eu me orgúio, / Levo a jurema no embrúio / Gosto
de vê o barúio / Do barbatão a corrê, / Pedra nos casco rolando, / Gaios de
pau estralando, / E o vaquêro atrás gritando, / Sem perigo temê.'
Sensível à miséria e ao analfabetismo
que sempre dominou o sertão, Patativa também usava sua poesia como protesto
contra o abandono do nordestino, contra a seca, contra o descaso dos
governantes. Na segunda parte de Inspiração Nordestina, o
poeta reclama, em tom pungente, das agruras provocadas pela seca: ''Deixou a
roça prantada / Com a pranta esturricada, / Sinal da seca inclemente, / E
partiu contra a vontade, / Deixando tanta saudade / No coração de quem
sente. / E o que mais causa impressão / É ver a casa vazia / Com um papagaio
em cima / Sempre a chamar por Maria.' (''A Tristeza mais Triste'')
Apesar de admirado por políticos e
estudado por grandes ensaístas estrangeiros, Patativa do Assaré firmou-se
como poeta popular por lembrar sempre a realidade da qual extraiu sua
principal fonte de observação. É como diz, no final de sua autobiografia:
''Não tenho tendência política, sou apenas revoltado contra as injustiças,
que venho notando desde que tomei algum conhecimento das coisas,
provenientes talvez da política falsa, que continua muito fora do programa
da verdadeira democracia.'