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A persistência de Lula

05-06-2008

 

Obra do artista plástico Lula Cardoso Ayres volta a ficar disponível para o público em versão ampliada com a abertura de nova exposição

MARCOS TOLEDO

   O trabalho de preservação da obra de um artista por dedicação exclusiva de seus herdeiros ou admiradores, com o passar do tempo, acaba se tornando quase tão importante quanto a criação do autor. Um exemplo disso é a manutenção de boa parte do acervo do artista plástico recifense Lula Cardoso Ayres (1910-1987) por um de seus filhos, o engenheiro Luiz Cardoso Ayres Filho, e sua esposa, a restauradora Regina Ayres Cardoso Ayres.

   Responsáveis pelas obras do instituto que leva o nome do famoso pintor, eles reabrem o museu, amanhã, às 20h, com a exposição O Papel na Arte de Lula, que dá continuidade ao projeto Lula Cardoso Ayres Vida e Obra. A mostra acrescenta cerca de 120 obras sobre o tema à exposição permanente do artista, que também ganhou um acréscimo de 50% atingindo a marca de aproximadamente 300 trabalhos. Com a inauguração, o espaço também reabre todos os demais ambientes e volta a funcionar em sua totalidade.

   A mostra permanente que forma o Museu Lula Cardoso Ayres ocupa as paredes das duas salas principais do instituto. Agora, mais completa, traça um panorama de todas as épocas da carreira do artista desde a década de 1920, explorando todas as suas técnicas e temas abordados. Além de apresentar um autor de formação cosmopolita mas muito preocupado com os assuntos de sua região natal, revela um profissional versátil.

   Pintor e desenhista, Lula Cardoso Ayres também atuou como fotógrafo, programador visual, ilustrador, cenógrafo, decorador e muralista, e todas essas vertentes de sua obra encontram-se, agora, ainda melhor documentadas na exposição permanente do museu. Além dos quadros, há cartazes, calendários, álbuns, decorações, cenários de teatro, fotografias, desenhos de estudo e objetos pessoais como o cavalete que o artista dividiu com Cândido Portinari em seu ateliê no Rio de Janeiro, quando retornou de Paris.

   Os trabalhos são apresentados na entrada a partir da fase inicial de Lula Cardoso, no início dos anos 20, ainda pré-adolescente, considerada abstrata. Depois, segue com obra tidas como semi-abstratas até atingir as figurativas. Em sua maioria, leituras do Carnaval nordestino e retratos dos tipos humanos locais. Esta mostra permanente receberá posteriormente um mapa de identificação por meio do qual o visitante poderá conhecer em detalhes as informações sobre cada quadro.

   RELÍQUIAS – A exposição da vez, O Papel na Obra de Lula, como o próprio título diz, destaca os trabalhos feitos pelo artista em papel. Boa parte, restaurada por Regina Ayres, data do início da trajetória artística de Lula Cardoso. Um dos desenhos, Mascarados, nanquim e aquarela de 1922 (ao todo, são 22 trabalhos deste mesmo ano, dispostos em dois dois painéis), acreditava-se ser o mais antigo, até que Regina descobriu outro desenho semelhante com data de 1921, agora, o mais antigo do acervo.

   Em seu processo de recuperação da obra, Regina Ayres recompõem cada fibra do papel avariado deixando, porém, marcas do processo de restauração facilmente identificadas pelo público. “Ela (Regina) é a razão de ser do instituto”, elogia Lula Cardoso Filho. “Eu sempre quis fazer um museu com as obras de papai, mas não sabia como.” Lula afirma ainda que, quando casou, em 1990, Regina já era grande admiradora de seu pai e, desde então, tornou-se a principal especialista.

   A exposição O Papel na Arte de Lula fica em cartaz até o dia 19 de junho. Horário especial para visitação de turmas escolares devem ser agendados peor telefone. No segundo semestre, o projeto Lula Cardoso Ayres Vida e Obra continua com a mostra Lula Muralista.

(© Jornal do Commercio-PE)


Mais cursos e pérolas da cinemateca

   A inauguração da exposição Lula Cardoso Ayres Vida e Obra: O Papel na Arte de Lula marca ainda a reativação de todos os ambientes do Instituto Lula C. Ayres. Além das salas que formam o museu que também leva o nome do artista, voltam a funcionar a Sala Alberto Cavalcanti (cinema), a Sala Gilberto Freyre (biblioteca e videoteca), o Arquivo Cultural Aranha de Moura (cinema e fonoteca) e a Galeria Lourdes C. Ayres (dedicada a exposição de outros artistas).

   O espaço antes ocupado pela loja Da Primeira à Sétima Arte e pelo Café das Artes, agora fica exclusivamente dedicado à Escola de Arte do instituto. “Queremos ser um curso de formação criando no instituto um clima saudável como era na Escola de Belas Artes”, almeja o sócio-diretor Luiz Cardoso Ayres Filho. A idéia é oferecer cursos de diversos interesses (pintura, cinema, teatro, literatura, entre outros) cobrando preços razoáveis.

   O Instituto Lula Cardoso Ayres funciona no bairro de Piedade, próximo ao Shopping Guararapes, em Jaboatão, na antiga casa de Lula Cardoso Filho. O espaço é tão bem aproveitado que, no andar superior funcionam os ateliês de restauração das obras, e até o jardim de inverno da casa é criativamente identificado como Praça Lula C. Ayres.

   Além de grande parte das obras do pai, o diretor orgulha-se de manter acervos grandiosos como uma biblioteca com cerca de quatro mil volumes apenas sobre arte e uma cinemateca com mais de três mil filmes nas mais diferentes bitolas (8mm, Super8, 9,5mm, 16mm e 35mm), do cinema mudo e início do sonoro, muitos deles raros em todo o mundo.

   As sessões de cinema voltarão a partir no sábado da próxima semana (17) com a exibição de um filme ainda não projetado na Sala Alberto Cavalcanti (que funciona na antiga garagem da casa). Este tipo de ineditismo, por sinal, deve predominar ao longo deste ano. O primeiro curso deve ter início nas próximas semanas e os demais espaços estão abertos de terça a sábado para visitação gratuita.

SERVIÇO

Abertura da exposição Lula Cardoso Ayres Vida e Obra: O Papel na Arte de Lula. Amanhã, às 20h, no Instituto Lula Cardoso Ayres (Rua Hermínio Alves Queiroz, 1.416, Piedade. Fone: 3341.1932). Horário de visitação: de terça-feira a sábado, das 15h às 19h. Entrada franca

(© Jornal do Commercio-PE)

Divulgação
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