05-06-2008
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JC Online
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Lula Cardoso Ayres (1910-1987) |
Mostra inédita contempla
traços do artista-menino à fase mais abstrata, entre 1950/60
Júlio Cavani
Da equipe do DIARIO
Menos
valorizados no mercado e na História da Arte, os trabalhos feitos por um
artista sobre papel (principalmente desenhos, aquarelas e gravuras) podem se
mostrar fundamentais para o entendimento do conjunto de sua obra quando
revelados ao público. Lula Cardoso Ayres (1910-1987), pernambucano
notabilizado por sua pintura moderna nas formas e sociológica nos temas,
ganha uma nova contribuição para a compreensão de seu trabalho com a
exposição O Papel na Arte de Lula, que reabre nesta sexta o instituto criado
em sua homenagem, em Piedade. A mostra expõe 120 trabalhos do mestre nunca
antes apresentados em uma exposição, todos feitos sobre papel.
Organizada em temas, a nova exposição do Instituto Cultural Lula Cardoso
Ayres divide espaço com a mostra permanente que preserva as principais obras
do artista ainda pertencentes à sua família. Os desenhos inéditos estão
dividindo as mesmas paredes ocupadas pelos quadros mais famosos. Segundo o
engenheiro e pesquisador Lula Cardoso Ayres Filho, que dirige o espaço
aolado da esposa Regina, "pela importância, algumas obras devem ficar sempre
expostas". Ele não quis subdividir o espaço também para sugerir uma relação
entre as novas peças apresentadas e as antigas. De acordo com ele, ainda há
muitos trabalhos feitos sobre papel a serem descobertos, em um processo de
pesquisa que, se receber apoio, pode adquirir a importância de um projeto
como o Brennand Desenhos, que redefiniu a maneira de se encarar a obra do
ceramista da Várzea.
O Papel na Arte de Lula começa pelos trabalhos mais antigos realizados
pelo artista quando criança. Impressionantes pela segurança dos traços, pela
beleza e pelo domínio da técnica, esses desenhos foram feitos por Lula aos
12 anos de idade e se inspiravam nas ilustrações das revistas de variedades
que circulavam no Brasil no início da década de 1920. São 23 ilustrações
(todas de 1922, com exceção de uma de 1921) incluindo um poético desenho
retratando o menino do filme O Garoto, de Charles Chaplin, que já indicava
uma paixão precoce pela sétimaarte. Seu filho acredita que o traço do pai
nessa época se inspirava no trabalho do caricaturista Emílio Cardoso Ayres,
seu parente.
Ao lado da série há ainda retratos que o artista fez de sua esposa nos
anos 50 e croquis de vestidos desenhados por ele mesmo para ela nessa época,
revelando suas habilidades como estilista. Na outra sala da exposição, uma
série de serigrafias mostra as etapas dessa técnica de reprodução. Em cada
quadro (de inspiração cubista) uma cor é acrescentada aos espaços em branco.
A exposição também contempla a produção mais abstrata do artista,
principalmente com três pequenas imagens das décadas de 1950 e 60, uma delas
com figuras semelhantes a ouriços ou explosões negras. A liberdade formal se
manifesta nos delirantes originais da série Bichos Imaginários, nunca
mostrada, com criaturas de formas estranhas.
A vertente antropológica e sociológica da produção do artista está
bastante contemplada na exposição, em quadros que retratam negros e povos
indígenas. Em alguns, como nos doisdesenhos que mostram costumes das
mulheres baianas, o aspecto cultural é mais valorizado. Em outros, como nos
retratos de índios e negros, as formas das faces são o objeto de estudo de
Lula. "Não chega a ser uma caricatura, mas ele destaca bastante as partes
dos rostos", comenta o filho, explicando o exagero no desenho dos narizes,
olhos e lábios de alguns, feitos para ressaltar as características físicas
peculiares de cada etnia. A cultura popular aparece no estilo e no conteúdo
dos quadros, seja registrando rituais do povo pernambucano nema série de
desenhos ou usando formas de bonecos de barro para retratar camponeses, em
desenhos que antecipam aspectos estéticos marcantes de um criador versátil.
(©
Pernambuco.com)
Instituto reabre com novidades
A exposição O Papel na Arte de Lula é a primeira ação do Projeto Lula
Cardoso Ayres, Vida e Obra, que prevê a realização de uma série de mostras
temáticas, com apoio cultural inicial (ainda não totalmente formalizado) da
Chesf. Ao lado da valorização da obra do artista plástico, o Instituto
continua restaurando seu inestimável acervo de filmes brasileiros e
estrangeiros (que inclui a maior coleção de Buster Keaton do Mundo) e no dia
17 retoma suas sessões de cinema aos sábados, sempre exibindo títulos raros,
mas a partir de agora privilegiando os inéditos e os que não estão
disponíveis em videolocadoras.
Os cursos de arte também estão sendo reestruturados e passam a ser uma
prioridade para o espaço. O Instituto está fechado à visitação pública desde
setembro de 2002. Durante os últimos 14 meses, Lula e Regina se dedicaram ao
projeto de aperfeiçoamento do espaço e continuaram em busca de apoios
financeiros, conseguindo na Chesf um parceiro em potencial. Além disso,
Regina, especialista em restauração, dedicou-se à revitalização das obras do
artista, chegando a passar meses concentrada em determinadas peças maiores
ou mais deterioradas (as marcas do tempo, algumas incorrigíveis, podem ser
percebidas em diversas obras da nova exposição).
O programa de exposições do projeto vai promover ao longo dos próximos
anos mostras temáticas valorizando diferentes aspectos da obra de Lula
Cardoso Ayres, a exemplo dessa primeira. Cada uma delas deve durar quatro
meses, intercaladas por individuais de artistas convidados (mais uma
novidade). As próximas são: Lula Muralista; Lula Programador Visual;
Cenários, Decorações e Ilustrações; Lendas e Assombrações do Nosso Povo; A
Arte nas Feiras e Igrejas Vista por Lula e A Vida no Campo.
Serviço
Exposição O Papel na Obra de Lula
Quando: A partir desta sexta, com abertura às 20h
Onde: Instituto Cultural Lula Cardoso Ayres (Rua Hermínio Alves Queiroz,
1416, Piedade, Jaboatão dos Guararapes, próximo ao Shopping Guararapes)
Informações: 3341.1932
(©
Pernambuco.com)
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