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05-06-2008
Projeto do Teatro Castro Alves inclui montagem com textos do autor Macksen Luiz SALVADOR - O Núcleo de Teatro do TCA iniciou em 1995 a seqüência de montagens que, anualmente, ocupa a Sala do Coro do Teatro Castro Alves, num projeto de encenações no qual diretores convidados escolhem texto e elenco, em ciranda de estilos, intérpretes e perspectivas cênicas. Diretores da Bahia (Carmem Paternostro, Nehle Frank, Fernando Guerreiro, Elisa Mendes) e de fora (Gabriel Villela, Hans Ulrich Becker, José Possi Neto, Francisco Medeiros) já percorreram repertório de autores que incluíram Eurípides (Medéia), Shakespeare (Otelo), Ben Jonson (Volpone), Brecht (A vida de Galileu), Strindberg (O sonho), Bernard Marie Koltés (Roberto Zucco), Colin Turnbull (Os Iks). Ao braço teatral do Castro Alves faltava, no entanto, Samuel Beckett para compor, nesta diversidade de propostas cênicas, o percurso dramatúrgico de repertório tão universalista. A escolha do diretor baiano Luiz Marfuz, que desenvolve pesquisa sobre Beckett no programa de pós-graduação em artes cênicas da Universidade Federal da Bahia, estendeu ao palco as questões acadêmicas sobre a cena beckettiana. A comédia do fim, título da montagem assinada por Luiz Marfuz e que está de volta, em temporada de verão, na Sala do Coro, reúne cinco pequenos textos de Beckett, fragmentos de vozes que repassam, com sonoridade mecânica, seriada, anestesiante, o insondável da existência. O diretor construiu dramaturgia cênica determinada por textos que, de certa maneira, derivam das formas de representação, quer do teatro, quer da própria vida. A tensão estática e a inexistência de ação na voracidade vocabular de alguém reduzido a uma boca em Eu não se encontram com igual intensidade na compulsiva leitura de Improviso em Ohio. O espectador e o ator são parceiros condenados à mútua dependência, tal como o cego e o aleijado de Fragmentos de Teatro I ou a enredarem-se em fios de palavras nos confinamentos da Comédia. E em Catástrofe cruzam-se todas as vozes para reafirmar o grande silêncio. Esses jogos sem fim, de corpos seccionados, sentidos comprometidos, falas compulsivas, estabelecem rituais cênicos que deixam à mostra antinarrativas. Luiz Marfuz demonstra solidez teórica e sensibilidade cênica na escolha dos textos, que se harmonizam num conjunto de pulsões teatrais que distendem e contraem a encenação, em oscilantes fragmentações. Há uma inteireza neste fracionamento, capaz de permitir que os cinco textos condensem um universo complexo. Além do acerto na escolha, o diretor traçou com cuidado ''científico'' o desenho da montagem, que reflete rigorosa avaliação das possibilidades da expressão beckettiana. Mas a excessiva contenção do diretor a preceitos parece ter condicionado Comédia do fim a um formalismo restritivo. A encenação está presa a um quadro coerente, ainda que de moldura desestruturada. A cenografia de Moacyr Gramacho interfere no ritmo da cena pelo seu peso e desnecessárias mudanças. A trilha sonora de Brian Knave compromete o ''silêncio'', usando a música como ilustração dramática. Os figurinos, também de Moacyr Gramacho, e a maquiagem de Marie Thauront e André Cruz seguem bons desenhos, mas de efeitos discutíveis no palco. A iluminação de Irma Vidal apesar de sofisticada, não evita os vazamentos luminosos que clareiam o sombrio da cena. As imagens que emergem da montagem de Luiz Marfuz têm alguma força, mas o diretor se ressente da dificuldade de encontrar densidade que traduza a angústia das perturbadoras impossibilidades de vozes estranguladas. O mesmo rigor da encenação pode ser observado no elenco, que responde com sensibilidade à perceptível preparação técnica. O elenco feminino revela maior rendimento, com destaques de Hebe Alvez e Frieda Gutmann, e a participação masculina tem em Urias Lima e Luiz Pepeu as melhores interpretações. (© JB Online)
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