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Um cabra acima de qualquer polêmica

05-06-2008

Paisagem do Recife. Telas a 50 000 dólares e obra no acervo da Galeria Uffizi, em Florença

Uma trilogia de livros mostra que a obra do pintor paraibano João Câmara resiste ao tempo

Marcelo Marthe

   No decorrer de sua carreira, o pintor paraibano João Câmara foi pivô de inúmeras polêmicas. Quando despontou no cenário artístico, nos anos 60, muita gente torcia o nariz para sua pintura figurativa e irreverente, com marcante influência de suas raízes nordestinas. Nos anos 70, com a exposição Cenas da Vida Brasileira 1930-1954, Câmara abordou uma temática política num momento delicado.

   Em plena vigência do AI-5, ele exibiu no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro uma série de 110 telas e litografias inspiradas na trajetória de Getúlio Vargas – imagens que ofereciam "uma autópsia cruel da ditadura getulista", como notou o crítico Olívio Tavares de Araújo. O pintor João Câmara se lembra de um detalhe curioso ligado ao episódio. "No estacionamento, os agentes da repressão anotavam as placas dos carros que chegavam para a abertura da mostra", recorda.

   Anos depois, quando apresentou a série Dez Casos de Amor, de forte conteúdo erótico, as feministas denunciaram o suposto viés machista das telas, que reforçariam o estereótipo da mulher-objeto. "Elas ainda estavam naquela fase de queimar sutiãs e ficaram muito encrespadas", diverte-se o pintor. Hoje, Câmara encara a controvérsia com serenidade, até porque ele construiu uma obra cujo rigor e coerência já não são questionados. Tornou-se um artista contemporâneo brasileiro capaz de pairar acima de qualquer polêmica.

   Está prevista para o fim deste mês a chegada às livrarias de uma obra que fornece uma retrospectiva abrangente da produção do artista. João Câmara – Trilogia (Takano; 202 a 274 páginas cada volume; 200 reais) reúne imagens de três séries temáticas que foram marcos em sua carreira. Além das já citadas Cenas da Vida Brasileira e Dez Casos de Amor, que ocupam o primeiro e o segundo livros, respectivamente, há um terceiro volume dedicado à série Duas Cidades, composta de 52 obras nas quais ele homenageia Recife e Olinda.

   Câmara viveu de 1955 a 1971 na capital pernambucana e, a partir de então, na cidade histórica vizinha, onde mantém seu ateliê. Nos quadros da série, as paisagens e os símbolos das duas cidades são vistos por ângulos inusitados, por vezes irreais. Um dos destaques é um Auto-Retrato que mostra o artista de frente e de costas. Desde o ano passado, a peça integra o acervo da Galeria Uffizi, em Florença.

   Câmara – um profundo conhecedor da história da arte – costuma planejar e replanejar o traçado de suas pinturas exaustivamente antes de lhes conferir a forma final. Uma de suas características que mais chamam a atenção é inserir objetos, animais, pedaços de corpos e outras imagens de forma insólita em suas telas, o que as torna um campo fértil para interpretações.

   As imagens da série Dez Casos de Amor, por exemplo, devem ser vistas não só como cenas de voltagem sexual. A intenção do pintor foi criar metáforas da relação entre artista e obra de arte. As pinturas de grandes dimensões sobre o período Vargas também oferecem várias possibilidades de leitura. Na tela 1954, II, o ex-presidente é apresentado no momento em que se prepara para cometer o suicídio. Detalhe: Câmara inseriu na cena um peru, que parece prestes a bicar seus pés.

   Estranho no ninho no eixo artístico Rio–São Paulo em seu início de carreira, Câmara desde cedo teve de estruturar-se como profissional para sobreviver. Hoje, é ele próprio quem administra seus negócios. O preço de tabela de suas telas varia de 30.000 a 50.000 dólares e Câmara procura fazer com que suas séries não sejam desmembradas ao vendê-las. Cenas da Vida Brasileira pertence ao Museu de Arte Moderna de Recife. Dez Casos de Amor, à Coleção Roberto Marinho. Ele ainda mantém a maioria das peças de Duas Cidades, mas vislumbra o dia em que elas integrarão o acervo de algum museu pernambucano.

   Casado, três filhos, o pintor completará 60 anos nesta semana. Ele se define como um conservador – mas não no sentido de reacionário. "Persisto na suposição de que o artista deve pensar sua obra como um legado para a posteridade, fazer com que ela resista ao tempo", diz. Olhada em retrospectiva, a pintura de João Câmara preenche esse requisito.

(© Veja On-line)

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