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Toda forma de arte cabe no Circo da Solidão

05-06-2008

 

 

RAFAEL GUERRA

   Literatura – Cervantes principalmente –, circo, rock dos anos 70. Estes são os ingredientes do Circo da Solidão, disco de estréia da banda pernambucana Mula Manca e a Triste Figura. Junto com o Nada de Novo, do Monbojó, o Circo da Solidão vem mostrar uma ‘galera’ nova, entre os 18 e vinte poucos anos, que começa a produzir no estado.

   A Mula Manca concebeu um álbum bem conceitual, com uma narrativa – a história de um circo que chega e se vai de uma pequena cidade – e, musicalmente falando, cheio de altos e baixos. O disco foi produzido por Fábio Trummer, líder do Eddie, e é repleto de participações especiais, como Raimundo Carrero, o ator João Lima e um personagem conhecido da cidade, Carlota, da banda Pindorama.

   Tibério, vocalista da banda explica o porquê do formato do disco. “Antes de gravar, quando estavamos fazendo as músicas, percebemos que elas juntas tinham uma narrativa própria. E na hora de gravar tentamos estruturar como um livro”, afirmou o cantor. Os 41 minutos do disco são pontuados por vinhetas que trazem à tona as referências literárias. Logo na abertura, ouvimos Raimundo Carrero lendo um trecho do livro Demian, de Herman Hesse. Ele ainda volta no meio do disco para ler um pedaço de Dom Quixote. As próprias letras trazem personagens e histórias que deixam claro a pretensão da banda, não entendam isso de forma pejorativa, de misturar a literatura com a música. “Sempre tivemos vontade de agregar várias artes no disco. O trabalho gráfico, feito pelo artista Edmundson, também faz parte da concepção”, explicou Tibério.

   A interdisciplinaridade entre as artes gera momentos interessantes e outros nem tanto. Destacam-se no disco as músicas Ireny, Ratos adestrados e Ainda sou louco o bastante pra rir. No geral, as canções têm letras interessantes, os teclados são retrô com influências de Pink Floyd e Tom Zé. As estruturas das músicas são bastante fragmentadas, o que nem sempre funciona bem. A cozinha, formada por Arthur Grupilo no baixo e Cristiano na bateria, está sempre entrosada. Lula, o tecladista, quase sempre acerta com sua sonoridade setentista, exagerando um pouco na dose em algumas músicas. Um problema do disco é a sonoridade da guitarra, que não combina com o resto dos sons tirados pela banda. Na maioria das músicas, o timbre da guitarra lembra muito bandas de heavy metal e hard rock destoando dos outros instrumentos.

   A Mula Manca e a Triste Figura está colocando o Circo da Solidão nas lojas em fevereiro, quando deve ocorrer um show de lançamento na Torre Malakoff. Para os apressados que quiserem conferir a banda, eles mesmos estão vendendo o disco por módicos R$ 10, pelos telefones 8841.3688 ou 9292.1551 (falar com Lula ou Tibério).

(© Jornal do Commercio-PE)


Mula Manca bebe em fonte literária

Júlio Cavani
Da equipe do DIARIO

   A cada música, um ser fictício, com personalidade própria e passado pessoal, emoldurado em cenários feitos de música, ganha vida em O Circo Sem Futuro, primeiro disco da banda pernambucana Mula Manca & a Triste Figura, formada por admiradores da literatura que compõem suas canções usando métodos da escrita na criação dos ambientes e personagens. "Nossa idéia era fazer um CD em formato de livro, com prefácio e introdução, onde cada música pode ser transformada em um conto", antecipa Carlos Tibério, o vocalista. O próprio nome do grupo tem origem em personagens literários, extraídos do romance Dom Quixote, de Miguel de Cervantes.

  Teatro, circo, literatura e música encontram-se no conteúdo do álbum, pois a proposta da banda é mesmo promover esses intercâmbios, inclusive nos shows. O escritor Raimundo Carreiro recita em duas faixas do CD trechos dos livros Demian, de Herman Hesse, e Dom Quixote. O ator João Lima dramatiza com teatralidade textos escritos pelos integrantes da banda em mais dois momentos (um deles, intitulado Um Minuto Antes da Palhaçada, é um trecho de um conto escrito por Tibério). A capa ainda foi feita por um artista plástico, Edmundson, com liberdade para viajar. "A gente quis agregar várias artes", confirma o violonista e cantor.

REFERÊNCIAS - Mula Manca & a Triste Figura mostra-se importante para a nova música pernambucana também por fugir de certos comportamentos recorrentes por aí. Pois Tibério, Lula (teclados), Arthur Grupillo (jornalista que toca baixo, mas acaba de sair da banda para fazer mestrado em Filosofia em Minas Gerais), Cristiano (bateria) e Ângelo (guitarra) não se sentem na obrigação de criar novos ritmos ou misturas e não têm medo de buscar referências tanto no samba e na MPB quanto no universo medieval. Eles gravaram o disco em um esquema independente, com produção de Fabinho Trummer da Eddie, e agora iniciam a divulgação.

  Seria ótimo falar da Mula Manca sem mencionar Los Hermanos, como eles preferem, mas é impossível não notar a semelhança entre as duas bandas em canções como Carnaval. Além do clima saudosista momesco (a figura tragicômica do palhaço ao longo do disco é outro ponto em comum nesse sentido), a música usa as caixas da bateria em ritmo de marchinha, é carregada de lirismo nos vocais cândidos e insiste na guitarra pesada brecada, exatamente como faz o grupo carioca, sugerindo que não foi à toa a escolha dos dois conjuntos para tocarem na mesma noite no último Festival de Garanhuns. "Quando escrevemos as músicas desse CD ainda nem conhecíamos Los Hermanos", garante Tibério, mostrando que o que há nessa semelhança é realmente uma coincidência de influências.

  O vocalista acha natural que comparações surjam entre sua banda e outros músicos mais famosos, já que a Mula Manca & a Triste Figura é realmente influenciada pelas coisas que o cercam. "É tudo muito aberto. Posso encontrar mais de dez grupos que se parecem com a gente". Se no conjunto das canções eles conseguem realmente não encontrar similares, em cada faixa há ligação direta com o trabalho de outros artistas, mesmo que involuntariamente (o que nunca deve ser entendido como imitação). Há algo de Renato Russo, Cazuza e Nando Reis (e conseqüentemente Cássia Éller, que trabalhou com os três) na melodia de Ratos Adestrados, assim como o Roberto Carlos da Jovem Guarda pode ser percebido de forma saudável e renovada na equilibrada e dançante Vira-Lata, entre outras coincidências, como no The Doors (Whiskey Bar) que ronda a faixa de abertura, intitulada Introdução. Talvez justamente nessa colagem espontânea de referências e linguagens esteja a contemporaneidade d'O Circo da Solidão.

(© Pernambuco.com)

MulaManca e A Triste Figura

 

   A banda conceitua o próprio estilo como rock criativo. As músicas, com letras e melodias próprias, têm influências, sobretudo, de Beatles, Raul Seixas, Mutantes, Secos e Molhados, Pink Floyd, The Doors, Mundo Livre S/A, e representantes da MPB, como Chico Buarque e Caetano Veloso, entre outros. Num mundo massificado, onde a maioria das pessoas parece ter a mesma cara que pouco se olha no espelho, alguém começa a sentir solidão. Solidão daquele que vê um bloco maciço de gente consumir sem pensar, viver sem sentir. E diante disso tudo, quem caminha na direção contrária ao bloco, duvida de si mesmo e duvida das promessas de felicidade de quem dança uma mesma música sem saber. MulaManca e A Triste Figura é um convite à entrega. Que nada impõe, só apresenta.

   A Mula não vem para ser herói de nada. Machucada, ela precisa de ajuda. Pois aprendeu a desobedecer os caminhos de quem pouco olha pros lados. Então segue Manca à procura da paisagem que quer ver. Montar essa Mula é voltar a reconhecer o que já se conhece mas parece estranho: não são novas possibilidades de viver, mas possibilidades esquecidas.

   A Triste Figura montou, pois tinha saudade de um passado que vira futuro. No reflexo dos olhos da Mula, viu que não era tudo verdade: tinha a mesma cara que pouco se olha no espelho porque assim lhe contavam. Mas não: sua cara tem traços diferentes, olhar de gente, e, sobretudo, a provocação do infinito. MulaManca e A Triste Figura é um simples reflexo de si mesmo. Um caco de espelho. Mais importantes são os olhos de quem ouve.

Contato para shows, dúvidas, reclamações, sugestões, etc.
Léo Salazar - 81 9994.9542 / 3221.5088
salazarleonardo@hotmail.com

MulaManca e A Triste Figura (apêndice)

   Restavam trocados, miúdos, quase nada. No íntimo, algo dizia para se desfazer das moedas. Talvez fosse o medo de que o ex-patrão mudasse de humor e resolvesse não pagar mais, tomar aquele pouco. Cansou de pensar. Estava na feira e havia tomado a decisão.

Ao lado da carroça de tomates, deparou-se com bicho esquisito.
- Uma Mula.
- Não parece.
- É que ela tá doente. Tá manca. O senhor não se interessa em comprar? Faço um preço super camarada.
- E pra quê eu iria querer uma mula?
- Várias coisas. Ela carrega tudo.
- Mas eu, eu não tenho nada.
- Ela carrega você.
- Mas ela não está manca?
- Então, você que é esperto não coloca nada para ela carregar. Já sofre tanto a coitada.

   Agora era dono de bicho que nasceu para carregar coisas e não carregava. Tinha uma utilidade que não era útil. Ter: esse verbo sozinho era suficiente. Puxava a mula pelo cabresto, num passo leve, acompanhando o sofrimento dela. Parava a cada dez minutos, aquilo cansava mais que andar sozinho.

Formação
Tibério Fonsêca - Voz e violão
Luiz Marcelo Bezerra - Teclado
Arthur Grupillo - Contra-Baixo
Ângelo Guimarães - Guitarra
Bruno Cupim - Bateria

(© Som do Mangue)

 

Mula Manca
» Prefácio
» Ireny

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