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Marginal bem-sucedido

05-06-2008

Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes

Assumidamente anti-social, o sobralense Belchior é imperativo em afirmar que não faz concessões para as pressões do mercado fonográfico. ''Eu só quero sucesso a custo muito baixo'', afirma

Carolina Dumaresq
especial para O POVO

   Nos tempos do long play, quando ninguém podia supor a emergência de uma era digital, o cancioneiro profetizava a iminência de uma sociedade burocratizada e decadente. Não que o progresso tecnológico desencadeie afasia, mas a sistematização do cotidiano endurece e engessa pensamentos. O profeta em questão já foi Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes. Nesse tempo, o menino sobralense, 13º filho de uma prole de 24 irmãos, formava um repertório cultural entremeado por poesia popular e clássicos universais.

   Do alto-falante da praça, Ângela Maria, Cauby Peixoto e Nora Ney apresentam palavras e sons determinantes para a vida do menino. Na casa do avô, o ainda Antônio Carlos convive com a presença de violeiros e aprende a peleja. Dos tios, absorveu o deleite proporcionado pela boemia, com toda a carga simbólica que ainda hoje resiste. Daí decorrem os poemas, o gosto pela literatura e a afetividade - provinciana para alguns - que traduz o sertanejo.

   O espaço é curto para tantas estripulias infantis. Em um salto de dez anos, o nome extenso empresta uma porção para o artista que emerge. Belchior não sabe ainda que o canto torto é feito faca que corta a carne, mas já compreende que fazer música '' é um ato de poesia''. Tanto que as metáforas e a meta-linguagem estão presentes em todas as canções.

   Porta-voz de uma geração oprimida pela ditadura militar, para manifestar a inquietude era necessário saber driblar. Portanto o romantismo nem sempre é o que parece. As musas das músicas travestem-se de Brasil, os pais conservadores denunciam o autoritarismo e o falso-moralismo de um período frutífero para a Música Popular Brasileira.

   Belchior não tem papas na língua. Assumidamente anti-social, o ''marginal bem-sucedido'' ao lado de uma legião de fãs coleciona críticos de acidez impiedosa. Há quem considere repetitiva a sonoridade musical. Belchior não se rende às imposições do mercado fonográfico nem faz música para se fazer entender. Sabe que suas extensas letras, permeadas por referências filosóficas e literárias, alcançam um público seleto. Mas nada disso importa; Belchior sublima suas angústias e eterniza suas idéias em canções poéticas. O resto são firulas.

O POVO- Você teve uma infância humilde em Sobral, foi menino de recado, vendedor de galinhas e até artesão. Conta um pouco dessas atividades.

Belchior- Na verdade isso não eram atividades, eram mais divertimentos. Nasci em Sobral e vivi minha infância inteira lá, saí de lá com quinze anos. Tive uma infância de menino pobre mais muito livre. Eram muitas pessoas na minha casa, tenho 23 irmãos e foi muito bom viver numa casa com muita gente. 13 irmãs e 10 irmãos. Meu pai era comerciante, um bodegueiro, como a gente chama aí e cada um tinha que se virar. Então eu fazia máscaras de carnaval, pegava galinhas, pombas...

OP- Foi ainda na infância que você foi despertado para a música?

Belchior - Não, nesse período eu ainda estava querendo entrar no colégio. O grande desejo do meu pai era que todos nós pudéssemos estudar. Minha mãe cantava no coral da igreja, meu avô tocava sax, flauta. Exatamente na terra do Coreaú onde eu ia passar as férias, tinha uma casa de fazenda típica do interior. Meu avô não tocava na banda mas fazia o encontro no lugar e esse era o maior divertimento das férias. Tinha música de auto-falante, na casa do meu avô era parada de violeiros e cantadores.

OP- A voz nasalizada é resquício dessa convivência com os cantadores?

Belchior - Bom eu acho que essa questão nasal, que já foi estudada pelo Mário de Andrade, é uma característica típica nordestina. Acho que isso vem mesmo do canto da igreja, dos cantadores. De um tipo de música que se ouviu muito na infância e você vai naturalmente habilitando a sua voz e tipo de sonorização que é próximo daquilo que você ouve durante aquele tempo.

OP - A experiência com o canto gregoriano manifesta-se no seu trabalho?

Belchior - Muito. Porque em seguida a esse período eu ganhei uma bolsa de estudos em colégio de padre e era obrigatória a disciplina de música. Foi um período muito bom em que pela primeira vez tive oportunidade de estudar mais sistematicamente a música. Até o momento era um prazer o fato de conviver com meus tios, boêmios, tocadores de violão, cantores de serenata. Isso despertava interesse artístico pela música, mas nada profissional. Ninguém era profissional, todo mundo era boêmio embora tocasse violão. Ninguém se dedicava profissionalmente à música. Essa coisa do canto gregoriano foi realmente depois do colégio sobralense, eu não tinha idade suficiente de fazer vestibular então entrei para um mosteiro lá em Guaramiranga e lá sim, onde precisávamos cantar pelo menos as sete horas canônicas, tudo isso era feito com canto gregoriano, em latim. Foi um período magnífico porque tive a oportunidade de aprender italiano com os franciscanos. Pude pela primeira vez conhecer poemas do Dante (Alighieri), a Divina Comédia, continuar o estudo do latim, que já tinha feito no colégio e sobretudo ser obrigado a cantar sete vezes ao dia. Isso dos 15 aos 18 anos. Depois dessa experiência religiosa e musical eu prestei vestibular e fui para a escola de medicina.

OP - De onde vem a identidade filosófica?

Belchior- Do mosteiro. Lá a filosofia era disciplina obrigatória.

OP - O seu discurso, sempre calcado na noção de justiça social, revela a presença de um forte lado político. O engajamento surgiu no movimento estudantil?

Belchior- Na verdade, parte daqueles músicos começaram a fazer música e arte de um modo geral ainda no movimento estudantil. Eu morei em Fortaleza justamente no período de 68 a 72, era bastante ativo. Então protestávamos contra o aumento de ônibus, nas greves. Nesse período, a grande memória é que sempre fui companheiro do Fausto Nilo, meu parceiro e grande compositor brasileiro. Também do Cláudio Pereira, figura importante na vida cultural do Estado. Durante o movimento estudantil fui companheiro do Genoíno. Mariano Freitas, esse pessoal todo que está na vida política.

OP - E como acontece a sua inserção junto ao Pessoal do Ceará?

Belchior - Fui o produtor do programa Porque Hoje é Sábado, que foi o primeiro programa de televisão que apresentou a geração nova do Ceará e eu não só produzia, como me apresentava nesse programa. E nesse programa surgimos todos nós, o Pessoal do Ceará. Nesse programa cantávamos eu, o Fagner, a Amelinha, o Ednardo. A geração cearense teve ali um lugar especial de divulgação, isso é um fato importantíssimo porque nesse momento a televisão dava um espaço muito especial aos compositores novos. Nós cantávamos músicas inéditas durante o programa.

OP - Uma vez na faculdade de medicina, você passou a apresentar-se como músico nas calouradas e eventos universitários.

Belchior - Fui candidato a secretário do DCE na chapa de Mariano Freitas. Comecei a compor antes de cantar. Nesse período os diretórios eram muito ativos principalmente em Fortaleza, o diretório da arquitetura onde tinha Fausto Nilo e Ricardo Bezerra, Lúcio Maia e também o da faculdade de direito onde diversas palestras foram feitas com Gilberto Gil, Torquato Neto, Capinam. Eram bastante concorridas essas palestras e o ambiente era muito propício para o surgimento da música, porque havia todo um movimento universitário no Brasil inteiro do qual tinham saído Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil. E todos nós, nesse movimento hippie, estávamos deixando nossas faculdades e buscando as nossas carreiras.

OP - Algumas polêmicas foram lançadas em torno do rótulo Pessoal do Ceará. Você acha que a pecha poderia inferir segregação ou preconceito?

Belchior- Nunca houve isso. Primeiramente porque essa questão da titulação é posterior à questão das pessoas se reunirem para fazer música. Esse nome apareceu no primeiro LP, em 1974. Quando estávamos aí em Fortaleza ninguém era conhecido assim não. Principalmente porque éramos avessos a essa questão de grupo e a essa visão mais restritiva. Essa questão do nome foi uma certa diferenciação dos baianos e dos mineiros. De forma que quando a gente pensava no agrupamento de pessoas fazendo música, dizíamos ''alí é o pessoal do Ceará'', da mesma forma que dizíamos ''olha o pessoal da Bahia'', é um termo bastante cearense.

OP - O CD Pessoal do Ceará lançado em 2002 contou a participação de três grandes nomes: Belchior, Amelinha e Ednardo. Por que Fagner ficou de fora?

Belchior - Nunca entendo quando falam isso. Por que falta? Eu não participei do primeiro disco Pessoal do Ceará, que não tinha também Amelinha. Então é uma expectativa fora de foco. O Fagner é um dos maiores intérpretes que existem e lançou praticamente todos os compositores novos do Ceará. O Ednardo é um cara que tem talvez o trabalho mais cearense de todos nós. Amelinha é um sucesso enorme e eu tenho a minha vida. Essa é a edição de um disco para o qual fui convidado.

OP - Vamos sair agora do Ceará. A sua viagem para o Rio de Janeiro, em 1971, contou com alguns percalços, a começar pelo anúncio aos pais, que não sabiam das suas intenções em lá ficar. Como foi o início na Cidade Maravilhosa?

Belchior - Na verdade a saída daí foi uma decisão muito complicada porque tinha que abandonar a escola de medicina, era professor de diversos colégios e teria que abandonar isso também, assim como a televisão, um espaço absolutamente importante para quem estava começando e tinha uma certa expectativa da família. Tinha feito duramente o vestibular, tinha passado e tinha todo o futuro de doutor pela frente. Eu decidi de repente e de um dia para o outro fui embora, sem documentos da escola e sem dinheiro. As coisas foram bastante complicadas e difíceis porque além de não conhecer ninguém, eu tava com o orgulho do pobre: ''se é pra vencer, vou vencer de qualquer jeito''.

OP - Você tinha algum contato com artista ou gravadora?

Belchior- Apenas com familiares que moravam no subúrbio. Eu tinha avisado a minha família, naturalmente sem querer dizer mesmo o meu propósito, que iria passar umas férias. Fui direto para casa de um tio e depois de um mês fugi de lá e fui mesmo pra rua, vagando. Sem ter para onde ir, dormi na rua, em casas de amigos, nos mais diversos lugares.

OP- Você conseguia produzir nesse tempo?
Belchior - Não, esse tempo foi complicado porque eu não tinha levado sequer o violão, não tinha levado nada mesmo. É muito bom a gente olhar isso dentro da perspectiva do tempo, todo aquele movimento hippie, levas e levas de jovens que estavam na rua. Eu não estava sozinho nesse ponto de vista. Os artistas viviam de artesanato, faziam exposição nas praças. Embora pareça difícil e que tenha uma nódua de sofrimento, não é uma coisa assim que eu coloque como complicada ou difícil para minha vida.

OP - No Rio de Janeiro, cantar em casas de amigos, igrejas, fábricas e pátios para amealhar trocados nunca inspirou derrotismo?

Belchior- Não, nunca tive nenhum momento de indecisão ou de desejo de voltar. Acho que foi bastante incorporado à questão do trabalho. Estava preparado, do ponto de vista de ser mais um imigrante, um nordestino de cidade grande. Tava querendo fazer um tipo de decisão pessoal que independesse de algumas circunstâncias. Até hoje sou assim: não me deixo abater e abalar por circunstâncias hostis. Nesse período posso dizer que em tudo que fiz fui super ajudado pelos amigos. Tem aquela frase dos Beatles que tem na minha música: ''With a little help from my friends''. Principalmente porque nesse programa que nós apresentávamos em Fortaleza toda semana tinha um artista, que nós chamávamos do Sul e que cantava, então tive oportunidade de aí mesmo em Fortaleza entrar em contato profissional com Chico Buarque, Agostinho Santos, Bethânia, Clara Nunes, Roberto Carlos.

OP - Apesar do eu-lírico ser a expressão de suas canções, suas letras falam do cotidiano, refletem temas universais como repressão, comodismo e indústria cultural. Como partir da individualidade para alcançar o todo?

Belchior - Nunca me interessei pelo lirismo mais barato, porque eu vinha de uma leitura muito aprofundada da poesia romântica do Brasil, do conhecimento dos portas portugueses, franceses. Já conhecia muito essa coisa do romantismo e estava muito interessado num tipo de música que de uma forma ou de outra pudesse representar liricamente o sonho da minha geração, que era uma geração de mudança que tentava expressar uma certa modernidade para o Ceará. Então não tava querendo dar continuidade nem a tradição folclórica do meu Estado, nem aquele romantismo barato que era comum na Música Popular Brasileira. Meu espelho era mais o pessoal que tava tentando fazer uma música mais avançada do ponto de vista letrístico sobretudo. Nunca quis reforçar nenhum regionalismo, me apresentar como divulgador daquilo que era a tradição mais rica do Estado.

OP - As suas músicas possuem referências literárias e filosóficas muito fortes. Você não teme que essas características acabem por promover um distanciamento do grande público?

Belchior - Exatamente o contrário. É uma falsa visão crítica do popular. Essa questão do grande público não alcançar uma música boa é um engano. E um artista de verdade não deve estar fazendo a música para agradar, deve fazer a música que ele acha que deve fazer. Isso é fundamental num artista e eu não abro mão porque acho que influi no caráter do artista e do trabalho.

OP- Você não tem a pretensão de se fazer entender?

Belchior - Acho que nem todo artista deve pretender esse entendimento do seu trabalho. Porque acho que o trabalho do artista deve ser aparentado e aproximado do trabalho dos inventores e não dos supermercados, enfim, o trabalho do artista deve tender mais para inventar a lâmpada do que para montagem dela. Mais inventar que vender. Vejo meu trabalho cantado, assobiado e gravado por grandes intérpretes, isso é surpreendente. Nenhum momento achei que essas canções chegassem ao grande público, que a crítica pretende que seja anterior à feitura do artista. Se fosse fazer música para agradar estaria o tempo todo fazendo música da moda e não a minha música, mudando todo tempo: uma hora faria samba, depois pagode, lambada, rock. Podia fazer forró.

OP - No cd Auto-retrato, de 1999, você rende-se à tendência eletrônica e coloca a sanfona ao lado de sintetizadores, rearranjando seus principais sucessos. Esse trabalho atendeu a um apelo mercadológico?

Belchior - Eu fiz aqueles arranjos principalmente das músicas que já tinham sido gravadas e regravadas porque era comemoração dos meus 25 anos. E eu gravei essas músicas como se tivesse feito agora. Do mesmo modo que eu gravei essas músicas há vinte anos e elas causaram impacto que agrada e desagrada, foi o mesmo que aconteceu agora. Esses arranjos foram feitos absolutamente do ponto de vista dessa visão de modernidade que sempre busquei para meu trabalho. E eu sempre dou essa visão, sem nenhuma pressão mercadológica, porque eu confio mais no meu trabalho do que no gosto do público. Evidentemente que o artista não é um balcão de atendimento do público. Tenho o cuidado de tratar meu trabalho não como linguagem, mas como poesia e não posso me sujeitar a pressão de mercado e gosto do público. Sinceramente a questão do gosto médio do público não é o melhor gosto.

OP - O seu último trabalho autoral foi com o disco Bahiuno de 1993. Por que um hiato tão grande sem compor?

Belchior - De lá para cá fiz muitas músicas.

OP- O que quero dizer é que foi seu último trabalho como compositor / letrista e intérprete. De lá para cá você vem trabalhando em cima de regravações...

Belchior- Eu acabo de fazer 34 músicas para 34 poemas do Drummond, todas músicas novas. Em vez de fazer com meus poemas, fiz com os do Drummond que são melhores que os meus. Ele é definitivamente o maior poeta brasileiro.

OP - Você chegou a conhecê-lo? É verdade que ele teceu elogios à mostra de artes plásticas que você exibiu em cima do poema Política Literária (Drummond, 1930)?

Belchior - Sim. Não só é verdade como tenho uma carta que ele agradece a exibição dos trabalhos, gostando. E foi justamente ali, na década de 80 que comecei a desenhá-lo. Já havia diversas citações dele nas minhas músicas.

OP- Como surgiu o projeto de musicar os poemas de Drummond e de envolver artes plásticas e música?

Belchior - Eu fui chamado para fazer um show durante o centenário de Drummond em Itabira. Como já tinha feito muitos shows na cidade mineira, lembrei que tinha esse trabalho de desenho especialmente dedicado a Drummond eu tive a idéia de fazer uma exposição e um recital dos poemas de Drummond em latim. E aí, nesse dia, eu resolvi que iria musicar tantos poemas do Drummond quantos eu puder. A família me deu licença, não me lembro de nenhum autor nacional que tenha feito trabalho desse porte. Fazia tempo que não fazia um trabalho inédito, então fiz logo três.

OP- A concepção foi difícil?

Belchior - Não. Tenho um critério do ponto de vista estético que diz o seguinte: fazer música além de ser extremamente agradável ou é fácil ou é impossível. Eu não tenho aquela dor chamada ''dor da criação''. Posso dizer que foi esforçado, mas foi muito fácil, muito bom e muito simples. Tinha todos os critérios artísticos que eu queria expressar. A escolha já vinha de minha formação literária. Tratei aqueles poemas como se fossem letras de música e eu não mudei um acento ou uma intenção do poema. A tentativa de mostrar que aqueles poemas tido como duros e difíceis são absolutamente musicáveis, então você ouve essas músicas com muita fluência e facilidade. Principalmente porque quis mostrar a adaptação do trabalho dele para a atualidade. Resolvi então fazer um trabalho de peso, em três CDs. Além disso acompanha esse trabalho toda a pintura que havia feito dele.

OP- Essa veia artística que resvala para as artes plásticas nunca despertou o desejo de comercializar essas obras?

Belchior - Não, esse trabalho por exemplo já tinha vinte anos guardado aqui. Prefiro mais expor do que vender. A obra artística, quanto mais vista melhor. Mas é uma questão absolutamente pessoal. Prefiro expor nas universidades, no saguão dos teatros, nos shows que faço, em praça pública do que vender isso. Causa muito mais efeito e é muito importante para mim, um artista dedicado a esse tipo de obra, que é uma coisa preciosa. É muito mais ligado a uma vertente poética do que a uma coisa de mercado.

OP- Para você as artes plásticas são um hobbie?

Belchior - Não senhora, não me fale nunca uma coisa dessas. Hobbie é justamente aquilo que você faz quando não está fazendo nada. Eu sempre estou fazendo alguma coisa e não há possibilidade alguma de você fazer arte com hobbie. Eu não tenho sequer aquela quietude psicológica de que as pessoas falam a respeito da arte. Ao contrário, eu não faço arte para dormir, faço para acordar. Esse negócio de fazer quietude e sono é um problema da medicina e da psicologia, não é problema da arte. Se a gente observar o percurso da arte ao longo da história vai ver que a melhor arte foi feita para acordar e não para dormir.

OP- Como foi seu encontro com Elis Regina?

Belchior - Na verdade ela que foi ao meu encontro. A Elis tinha um faro especial para descobrir compositores à distância. Ela sabia identificar aqueles que para a visão dela iriam ser importantes para a música popular. Ela mesma que me procurou e que pediu as músicas. Conheci pouco Elis, sempre a via no palco. Eu não tenho muita habilidade social com o pessoal de música, não aproximo muito não. Eu não sou do meu artístico, sou um marginal bem-sucedido. Negócio de artista não me meto.

OP- Por achar que é uma fogueira de vaidades?

Belchior - Eu não tenho uma visão tão pessimista ou moralista das pessoas. Sou uma pessoa mais na minha mesmo. Como vou me atrever a ir lá no altar de Elis Regina? No altar de Roberto carlos? Não tenho coragem. Tenho o trabalho na hora que eles pedirem. Não tenho nem jeito, nem condição, nem habilidade pra isso. Sou um péssimo vendedor de mim mesmo. Às vezes eu fico pensando que o produto é que é ruim. Eu vendo a minha alma, mas não acho quem compre. Ou não querem pagar o preço que eu cobro ou não é o produto que eles procuram. Devo ser uma das últimas pessoas que conseguem vender a sua própria alma, mas só que eu não entrego.

OP- Que tal sair das metáforas e metalinguagens e traduzir o que quer dizer?

Belchior - Quem acha que deve fazer sucesso a todo custo, eu acho que o sucesso não merece todo o custo do artista. Eu ponho minha alma a venda, mas não acho quem compre e quando alguém habilita-se a comprar eu peço R$ 1 a mais do que ele tem. Eu vendo mais não entrego. Isso quer dizer que o sucesso não é uma coisa tão absolutamente importante, que eu queira a qualquer custo. Eu só quero sucesso a custo muito baixo, a custo vulgar, porque o sucesso e o fracasso são absolutamente iguais e desprezíveis para um artista. Um artista não pode fazer o seu trabalho pensando no sucesso ou no fracasso dele. O artista tem que fazer o seu trabalho esquecido de que ele pode fazer sucesso ou poode fracassar. São igualmente enganadores.

OP- No seu processo criativo, o que é mais importante a letra ou a música?

Belchior - Eu fui fazer música com o desejo de fazer poesia. Fazer uma canção é um ato de poesia, então começo pela letra, pela palavra ou pelo desejo de dizer uma coisa ainda não dita.

OP- Vou tocar em um assunto talvez delicado. No LP Alucinação, alguns trechos de suas canções trazem críticas a expoentes do Tropicalismo. Isso pode ser observado na canção ''Apenas um rapaz latino-americano''. O tropicalismo com suas críticas à padronização cultural não realizou uma nova abordagem do binômio música e política?

Belchior - Claro. Acho um assunto bastante interessante. Isso sempre foi muito mal-entendido. Não fiz uma crítica pessoal, nem sequer crônica. O próprio Caetano Veloso já tinha dito a Tropicália está morta. Nunca pretendi disso uma crítica mais profunda, a não ser uma crítica leve do ponto de vista até da ironia e que já havia sido feita tantas vezes pelos tropicalistas. Os tropicalistas foram assim aptos à modernização da música popular e fizeram com critérios absolutamente especiais essa questão da colocação da música com a linguagem. Eu tenho o reconhecimento disso e eu sou pós-tropicalista. O meu trabalho não poderia ser feito sem a presença do trabalho dos tropicalistas. Eu estou dizendo isso não em cooperação, mas do ponto de vista do contraponto. O trabalho dos baianos é absolutamente importante para a Música Popular Brasileira e para qualquer trabalho que surja depois. Quem quiser se fazer importante no ponto de vista estético, tem que fazer um contraponto àquelas idéias. E se há um momento em que ''tudo é divino e maravilhoso'' há outro em que ''nada é divino e maravilhoso''.

OP- Como está sendo a tradução da Divina Comédia Humana, de Dante Alighiere?

Belchior - Essa idéia de traduzir o Dante vem de uma época muito remota na minha vida. Ainda quando eu estava no mosteiro. É uma presença universal no ocidente e eu li diversas vezes e conhecendo as traduções brasileiras eu vi que poderia fazer uma tradução diferente. Não que as outras não sejam boas, mas é que naturalmente mais uma tradução da Divina merecia um enfoque diferente. Estou fazendo uma tradução popular, simples e poética. Retirar o Dante dos especialistas e colocá-lo frente ao leitor. Tradução com características novas e inéditas no universo das traduções de Dante em língua portuguesa. Estou acompanhando essa tradução com um banco de imagens absolutamente dantescas. São três mil imagens autorais que estou fazendo, pinturas, desenhos, colagens e caligrafias. Comecei a fazer há cinco anos, sem tempo para terminar.

OP- Você tem composições novas?

Belchior - Acabamos de falar que fiz 34 músicas novas.

OP - As letras são suas ou do Drummond?

Belchior - Então não vale?

OP - Claro. Vou ser mais incisiva para não ser enrolada. Você tem produzido letras?

Belchior - Claro que tenho, só que não tenho apresentado agora porque agora é o Drummond

OP- E quando sairá um novo...

Belchior - Nem pergunte, tenho mais quatro anos de trabalho com o Drummond pela frente. Não tenho nem necessidade, pulsão de apresentar trabalhos novos nem vontade de atender às expectativas do mercado que ele mesmo não sabe o que quer.

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