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Os segredos do gingado popular

05-06-2008

O brincante Antônio Nóbrega

Série do Canal Futura desvendará danças populares brasileiras com Nóbrega e a esposa, Rosani, à frente

JANAÍNA LIMA

   Por volta das 15h do último domingo, na localidade de Chã de Esconso, município de Aliança, Zona da Mata Norte, o clima era de forte expectativa. Enquanto os técnicos da Giros Produções armavam a parafernália de rebatedores de luz, refletores e outros apetrechos, um grupo de crianças de cerca de 5 a 9 anos tentava adivinhar para que servia aquela tela branca, imensa, suspensa sob o chão. “Já sei, é pra pular em cima”, disse o menor de todos. Ao lado, sob a sombra de uma mangueira, homens jogavam dominó, diversão obrigatória aos domingos no interior. Mas este seria diferente: um circo inusitado baixou no terreiro do Mestre Biu Roque para gravar o que ele e os vizinhos sabem fazer de melhor: dançar o cavalo-marinho.

   Os brincantes de Aliança são um dos protagonistas da série Danças Brasileiras, iniciativa da Giros Produções, sob o comando do diretor Belisário Franca, a ser veiculada no Canal Futura (Net/Sky/UHF 46) no fim do ano. Os mestres-de-cerimônia desse tributo são antigos conhecidos do público: o casal de brincantes Antônio Nóbrega e Rosani Almeida, que estão percorrendo o Nordeste para documentar alguns dos folguedos mais importantes do País.

   “Vamos destacar cerca de 14 brincadeiras, selecionadas a partir da diversidade coreográfica e da riqueza e criatividade de cada estilo. A idéia é finalizar a série com 10 programas, mas nessa primeira etapa vamos preparar seis”, revela Belisário. O custo total do projeto é R$ 500 mil e cada edição da série terá 30 minutos.

   Desde o dia 2, a trupe de Nóbrega e da Giros já passou pelo Crato, no Ceará, onde foi gravado o Reisado do Mestre Aldenir, e em Laranjeiras, município de Sergipe, para conferir de perto a tradição do samba-de-parelha.

   Pernambuco é o Estado que terá o maior número de danças retratadas: além da sambada de cavalo-marinho gravada no domingo, que reuniu três dos mestres mais importantes da região – Biu Roque, Biu Alexandre e Grimário – a equipe vai coletar imagens de passistas de frevo, maracatu nação e rural e de um grupo de caboclinhos. “Isso se explica não só pela riqueza mesmo do Estado e suas representações, mas também pela influência deles no trabalho de Nóbrega e Rosani”, destaca o diretor.

   Além dos ritmos pernambucanos e dos já gravados, os programas vão tratar de representações como o moçambique (congada típica de Minas Gerais), toré, samba-de-roda, capoeira e boi bumbá. “Chegar a esses estilos foi difícil. Ter que escolher é sempre cruel, porque sabemos da vasta produção popular nacional e de como cada uma delas têm peculiaridades. No Crato, por exemplo, teríamos muito mais a gravar”, lamenta Belisário.

   Antes de deixar o Recife, ontem pela amanhã, a equipe do Danças Brasileiras colheu depoimentos de Mestre Salu e seus herdeiros, no espaço Iluminara Zumbi. O diretor Belisário Franca volta a filmar no Estado no dia 14 de fevereiro, pouco antes do Carnaval.

(© Jornal do Commercio-PE)


Série coroa sonho de Nóbrega

   Aos 53 anos de idade e 30 de carreira, o pernambucano Antônio Nóbrega encara a participação na série Danças Brasileiras como a realização de mais um sonho partilhado com a esposa, Rosani Almeida. “Esse projeto vem coroar um desejo antigo meu e de Rosani que era o de atuar num evento em que a dança brasileira fosse a grande convidada”, sentencia o criador da personagem Tonheta.

   A admiração do artista aos grandes mestres da dança popular é facilmente explicada. Nóbrega se dedica desde os 20 anos à dança e, durante grande parte da carreira, foi considerado mais dançarino que propriamente cantor e músico.

   “Me encanta o fato de poder apresentar os artistas dançando, utilizando seus volteios, seus gingados. E também a possibilidade de mostrar a síntese do aprendizado que eu tive na construção da minha dança, do meu alfabeto, que é apenas uma forma de identificar a dança brasileira”, explica o rabequeiro.

   Essa idéia de alfabeto defendida por Nóbrega está ligada à criação de uma linguagem própria com a qual ele acredita ser possível traduzir o que é ser brasileiro. “Isso não quer dizer que utilizo apenas as danças populares. Ao me alçar na idéia de criar uma linguagem não uso só as tradições dos mestres, mas também a de outros alfabetos, como a dança clássica européia, o katakali da Índia, as danças do teatro de Bali e tantas outras. Todas esses alfabetos têm em comum as leis gerais do movimento”, argumenta o instrumentista.

   A possibilidade de partir ‘mambembando’ para gravar os programas é considerada pelo artista como ímpar, especialmente pelo fato de ele cair na estrada com quase toda a família. “É revigorante, fortalece ainda mais a minha relação com os brincantes, amplia a minha visão de mundo. Cada vez que viajo vejo algo que não tinha percebido antes, sobre o jeito de viver das pessoas, a forma de pensar”, salienta.

   A paixão pela cultura popular de Nóbrega e Rosani é partilhada com os filhos, Maria Eugênia, 17 anos, e Gabriel, 20. “Temos um orgulho e um prazer muito grande de vê-los identificados nesse universo tão cheio de significados. Saber que eles estão se beneficiando disso é muito bom”, confessa o pai coruja.

   O prazer do trabalho só não é completo porque revela uma dura realidade. “Me entristece muito a carência material desse povo. São muitas as dificuldades. Mas tenho esperança de que isso vá se atenuando. Por meio da arte, eles fazem um pacto de alegria com a vida, só isso os torna mais felizes”.

   PROJETOS – Não é só a série para o Futura que toma a atenção de Nóbrega no começo de 2004. O artista acerta os detalhes para os shows que fará no Carnaval do Recife (incluindo uma festa no Dia do Frevo, 9 de fevereiro, no Marco Zero, quando pretende reunir grandes compositores de frevo-de-rua) e para retomar a temporada de Lunário Perpétuo (o show do mais recente CD e DVD do artista. Ele também se prepara para viajar para a Bulgária, para fazer um curso intensivo de violino com Maria Eugênia Popova. “Quero fortalecer meus conhecimentos em violino para ser melhor rabequeiro”, conta.

(© Jornal do Commercio-PE)


Cavalo-marinho levanta poeira e mantém tradição

Dança dramática que chega a reunir 76 personagens, o folguedo busca maior visibilidade comercial

   O cavalo-marinho é um folguedo cheio de melindres. Menos famoso que o maracatu, que retomou a ascensão quando saiu dos guetos e ganhou a mídia com o surgimento do manguebeat, na mesma época em que também foi criado o Maracatu Nação Pernambuco, ele ainda enfrenta dificuldades para ganhar, digamos, uma maior visibilidade comercial. Não se trata aqui de querer capitalizar a cultura popular, mas sim de garantir aos seus artistas melhores condições de vida.

   Vale salientar aqui o empenho do rabequeiro Siba (Mestre Ambrósio), que pesquisa o tema há vários anos e já realizou muitos trabalhos com os mestres de cavalo-marinho. O mais recente é o CD Fuloresta do Samba.

   Mas não é apenas por estar ‘fora da moda’ que o cavalo-marinho tem mais dificuldades em se manter. Algumas características do folguedo também interferem nisso. Por exemplo, na ‘orquestra’ do brinquedo não são necessários muitos músicos: os instrumentos são poucos, rabeca, ganzá, pandeiro e reco-reco. Nada de bombos, tarol e outros instrumentos de percussão que tanto chamam a atenção dos jovens.

   O ciclo do folguedo também influi: enquanto que os maracatus são requisitados o ano inteiro, o cavalo-marinho é celebrado de julho ao Dia de Reis (6 de janeiro). Essa regra vem, aos poucos, sendo desconsiderada, segundo o Mestre Grimário, que mantém o Cavalo-Marinho Boi Pintado há 10 anos. “Não dá para manter isso mais não. Tendo contrato a gente faz”, diz ele.

   Outra diferença marcante: os músicos tocam sentados, compondo ‘o banco’. A dança também é completamente diferente: nada de rebolados e giros, os passos aqui são rasteiros, para levantar poeira, intercalados com saltos rápidos, vigorosos, para quem tem bom fôlego mesmo.

   O cavalo-marinho é considerado uma dança dramática. Utiliza nada menos que 76 personagens e é dividido em 63 partes. As sambadas varam a noite, uma apresentação completa dura nada menos que oito horas, sem intervalos.

   A apresentação é intercalada com a participação do público e de todos os participantes e a entrada dos personagens. Entre os mais famosos estão: Soldado da Gurita, Impata Samba, Mané de Baile, Capitão do Campo, Ambrósio, Valentão, Matuto da Goma, Mané Joaquim, Véia do Bambu, entre muitos outros.

   Geralmente, 21 componentes são o suficiente para encarnar todos os personagens.

   RESISTÊNCIA – Três dos mais importantes mestres de cavalo-marinho estiveram presentes à gravação da série Danças Brasileiras: Mestre Grimário, do Boi Pintado, Mestre Biu Alexandre, do Estrela de Ouro, e Mestre Biu Roque, o anfitrião da festa. As gravações aconteceram defronte à casa do mestre de 69 anos, que há três cuida do Cavalo-Marinho Boi Brasileiro, mas que desde criança não perde uma sambada.

   Os três mestres têm em comum o fato de terem aprendido a brincar com o Mestre Batista, já falecido. Foi com os objetos emprestados do cavalo-marinho de Batista que Biu Alexandre começou o seu Estrela de Ouro, há 24 anos.

   “Brincava com ele, depois com outros mestres. Mas quando quis fazer o meu brinquedo, ele me emprestou os objetos, até que eu comecei a fazer minhas próprias máscaras”, explica Biu Alexandre, que comemora o fato de ter três filhos e cinco netos envolvidos no folguedo. “Às vezes eu nem fico mais como mestre. Vou botar figura (vestir personagem) e deixo meu filho como mestre, para ele aprender”, conta.

   Esse também é o caso de Mestre Grimário, 37 anos, considerado o mestre mais jovem do Estado. “Meus três filhos brincam. Eu mesmo comecei aos 8 anos”, conta ele, que tirou de uma paixão de infância o nome do brinquedo. “Era carreiro, tocava os bois, e tinha um boi que eu adorava. Era o Pintado. Quando criei o cavalo-marinho só pensei nesse nome e as pessoas gostam muito”, diz, orgulhoso. (J.L.)

(© Jornal do Commercio-PE)

Leopoldo Nunes/JC
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