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05-06-2008
Lúcio Maia fala da história da banda, de Chico, do Recife, do novo DVD, do mercado e solta alguns rojões Claudio Szynkier Um segmento relevante de vanguarda da música brasileira mora no Recife, não restam dúvidas. A Nação Zumbi, por respeito e admiração, aparentemente conserva o luto por Chico Science, lenda que parece fermentar no imaginário cultural brasileiro a cada ano que vira. Mas a banda sobreviveu, e muito bem. Em seu último disco, Nação Zumbi, de 2002, a música se mostrou, mais do que nunca, arrebatadora no Recife, cidade que os caras continuam a traduzir e sonorizar através de primitivismo eletrônico e fúria moderna que ressoa em peles de percussão. Músicas do novo cd, como Propaganda, Faz Tempo e O Fogo Anda Comigo são realmente muito fortes e mostram ímpeto e vocação natural para renovação ideológico-timbrística-visual constante. O som da Nação não ficou na memória fonográfica daquele carnaval estranho em que Chico Science morreu. Talvez a jornada na qual se embrenharam, desde aquela época, seja exatamente aquela em nome da conquista do reconhecimento definitivo de uma Nação Zumbi viva, pulsante e valvulada, guitarrística e poeticamente, pós-Chico. A Nação Zumbi, que recentemente vem sendo citada mundo afora pela participação na trilha musical do manifesto cinematográfico recifense Amarelo Manga, assinado por Cláudio Assis, está agora de férias. Em junho, a banda lança um DVD, que, segundo as palavras de Lúcio Maia, será documento com tratamento tecnológico poderoso e portador de imagens definitivas. O registro deverá imortalizar passagens do conjunto ao longo de toda a década de 90 e indicar o contrato urbano e audiovisual que envolve Recife e Nação. Material eletrônico também guardará um show realizado em dezembro, no DirecTV (São Paulo), espetáculo positivamente cru e musicalmente inesquecível para boa parte daqueles que o assistiram da platéia. Em entrevista exclusiva à Agência Carta Maior, Lúcio Maia fala da história da banda, de Chico, do Recife, do novo DVD, do mercado e solta alguns rojões. (© Agência Carta Maior) Entrevista Exclusiva - Lúcio Maia, da Nação Zumbi "Queriam colocar Chico na capa, com uma loira dançando" Claudio Szynkier Agência Carta Maior - Vamos começar com um exercício de "será". O que poderia ter acontecido com a banda, em termos comerciais e criativos, caso Chico não tivesse, há 7 anos, morrido? Quais seriam, na sua opinião, as tendências? Lúcio Maia - Eu acho, cara, que a gente ia ter resposta muito mais rápido do que a gente está conseguindo agora. Porque é o seguinte, naquela época, no final de 96, eu acho que a gente estava atingindo o auge da vibe da banda. Chico dominando totalmente o público, o palco, as entrevistas, a maneira de pensar. Além disso, a banda estava com um domínio instrumental animal, e nós estávamos chegando aonde queríamos, fazendo o som que queríamos. Depois que aconteceu o acidente, cara, a gente voltou à estaca zero. A gente teve de reiniciar tudo. Foi como se a gente tivesse voltado a 1993... 92. A gente começou a ter de organizar tudo de novo, encontrar quem faria o quê e onde... cada um dentro da banda se assumir e dizer "porra, eu tenho a necessidade de fazer isso...", sabe? Antes, era uma coisa muito mais frouxa, Chico era quem geralmente chegava com a idéia da letra e isso já era um avanço para a música. A coisa estava muito presa a ele e, de repente, a gente não tinha mais aquela maneira para compor. A gente teve de criar uma nova maneira de compor, fazendo os grooves, e com Jorge, depois, chegando com as letras. Jorge (Du Peixe, vocalista e letrista atual) também teve de assumir esse lado, o que foi foda. Ele já fazia letras, ele já cantava, mas, pô, assumir um posto como este é foda. Todo mundo nessa época estava muito inseguro com aquilo que estava fazendo. Entre altos e baixos a gente conseguiu sair vivo. Chico estava no auge do discurso poético dele, cara. Ele estava numa fase muuuuito boa, com um domínio da caneta animal, sabe? Ele estava sabendo o que queria... Ele estava conseguindo transcrever os pensamentos dele, porque Chico era um cara que pensava full time, sabe? E falava os pensamentos dele. Então, ele estava conseguindo passar para o papel de uma forma muito poética, velho, e muito singela. A gente ia conseguir chegar muuuuito longe, cara, com as músicas que a gente estava por fazer. Mas, é aquela história: tudo hipotético. Pela vibe com a qual a gente convivia naquela época... a gente estava amadurecendo junto, sabe? Digo, musicalmente, intelectualmente e, até, na questão familiar. Foi importante demais... e, quando aconteceu, foi um baque animal. Foi como você ver cortarem sua árvore que levou tanto tempo para crescer. CM - Vamos falar sobre o mercado. O mercado tá doente e mesmo assim parece cada vez mais medroso. Se tivesse sendo ensaiado hoje, em algum ponto do Brasil, um movimento com dimensão e originalidade que marcaram o Mangue em seu início, esse pessoal novo teria voz para aparecer? LM - Cara, muito dificilmente. É muito relativo eu falar isso, né, véio? Até por que, na época, quando a gente foi contratado, o clima não estava tão favorável assim também. Foi muito uma questão não exatamente financeira, foi mais uma questão, sei lá... ideológica. Na época, ocorria exatamente a entresafra dos anos 80 para os anos 90. Estavam surgindo Raimundos, Skank, Gabriel o Pensador, tudo aquilo que apareceu naquele boom dos anos 90. Eu tenho para mim que a Sony, quando nos contratou, estava crente que ia ser uma parada meio que axé. Talvez um estouro nacional de um ritmo novo. Como sempre, eles são equivocados, velho. Eles têm uma maneira equivocada de trabalhar, eles têm uma maneira equivocada de vender discos. Eles não falam discos, eles falam "peças"! Já pensou? Você passa o maior tempo trabalhando para compor o disco, fazer a capa, ficar todo lindo e, aí, vem um cara dizer "aí, vocês venderam 50 "peças"". "Peça", cara? Tá louco, velho? Eu vendo é disco (risos). Então, a gente entrou em um esquema meio equivocado, até porque nós tivemos de lutar muito por essa ideologia que tínhamos no primeiro disco... porque os caras queriam colocar Chico na capa, com uma loira dançando, sabe como é? Eles queriam fazer um bagulho bem esculhambadão mesmo, bem num clima povão. Aí, porra, quando o disco chegou na mão, quando chegou para a imprensa, e todo mundo começou a fazer as resenhas, os caras se tocaram que era outra coisa... "Puta qui pariu, esses caras não vão vender trezentas mil cópias nem fodendo". Era o que eles estavam querendo, eles estavam achando que era isso. Eles fizeram todo o investimento, achavam que era uma coisa e foi outra. E, de qualquer forma, não foi algo negativo. Foi positivo para o nome da gravadora, investindo em um artista conceitualmente bem aceito. Isso é bom para a gravadora também, que pode ter lá seus jargões de vender muito. É importante ter uma pessoa de conceito, um artista de conceito, que vai falar "da gravadora". Não adianta ficar voltada só para a futilidade, que é o que eles são hoje em dia, né? Todo mundo fica procurando uma teoria para explicar a Sony, e eu digo para você qual é o problema. É muito simples: ali dentro, velho, todo mundo é empregado. Não tem um chefe ali, não. Ali, todos são empregados, a Sony é uma multinacional, cara, o presidente lá é empregado. Ele não é acionista, ele sai e depois entra outro, para outra gestão. É um empregado como qualquer outro. Então, quando os caras fazem lá os balanços anuais, e junta todo mundo, os poderosos chefões da parada, os caras viram e perguntam "quem vendeu?". Eles não estão preocupados se tem Chico Science e Nação Zumbi bem conceituado no Brasil... mas vendeu 25 mil cópias. Os caras querem saber: gastou quanto e vendeu quanto. Dentro dessa idéia, eles não estão nem aí. Eles têm de seguir esse padrão, porque, se não seguirem, eles perdem o emprego, perdem a regalia. Graças a Deus, a gente conseguiu gravar e completar o contrato, gravar três discos, que deram a nós uma repercussão ótima. CM - E a Internet? Quais seriam os limites? Trata-se de uma saída real? LM - Eu acho que a preocupação maior tem de ser em cima do direito autoral, porque isso não pode deixar de existir. Eu defendo isso mortalmente, pois é a única coisa que pode dar continuidade ao artista é sua propriedade intelectual. Talvez não em 3, 4, 5 ou 10 anos, mas depois de 50 anos, se não tem o direito autoral, ninguém vai saber quem foi que fez aquilo ali. Tem de se pensar uma forma, cara... tem aquela idéia das marquinhas para cada som que você baixe. Mas tem vários desses nerds, metidos dentro casa, nos computadores. Eles vão dar um jeito de burlar isso aí. Eu acho que tem de tentar fazer o controle o máximo que puder, cara. Eu acho que, na Internet, eles têm que investir realmente é na questão de preview. Isso aí não tem como, é a melhor coisa do mundo! É o quê? É você ter acesso, sei lá, a um minuto e meio da música e, a partir dali, dizer "puta merda, tá ducaralho, vou comprar o disco". Com isso, eu concordo mesmo. Eles têm de fazer promoções, sacou? Tipo, eu, lá em casa, no meu computador, faço um remix da música, o cara ouve e fala "caralho, tá classe, vou procurar o disco!". Esse tipo de atividade eu acho que tem de ser promovida mesmo. CM - Um amigo meu, do Recife, diz que em 93, 94, época da explosão do Mangue, vivia-se a sensação de perceber que Pernambuco, no Recife, estava mesmo falando muito alto para muita gente ouvir. Nós estamos por completar uma década dessa sensação. Há como fazer um pequeno balanço? LM - A gente estava respirando um momento de conquista, de ter o primeiro resultado, o primeiro retorno, de uma coisa que não passava de um sonho. A primeira viagem que a gente fez para São Paulo, em 93, rendeu mais coisas do que tudo o que cada um de nós havia feito em toda a década de 80, né? Então, tudo aconteceu muito rápido. Tudo o que rolou, de a gente ter ido para a Sony, ter lançado o primeiro disco com o Liminha. Foi tudo muito rápido. A banda tinha um ano e pouco, um ano e meio, e a gente ter conseguido um respaldo como este foi algo meio complicado de absorver. Ao mesmo tempo, aquilo veio... como é a palavra mesmo? Formatar de vez aquilo que a gente queria fazer na nossa vida. Era o que a gente, desde moleque, pensava em fazer e tinha medo porque não sabia como ia ser. Mas, a partir do momento que nós tivemos tudo isso na mão, começamos realmente a levar a sério e fazer com que isso tivesse parte na nossa vida. Era inédito não só para a cidade, era inédito para a gente também. A gente veio do nada. Famílias de classe média baixa, da periferia, com condições como qualquer um outro dessa camada, no Brasil. Eu acho que foi só um estalo que deu na cabeça de Chico, um estalo que fez ele criar essa metáfora, velho, para a diversidade da cidade, né, cara? Aquela história do manifesto (manguebit, não manguebeat) foi também um gancho muito importante. Na verdade, aquilo foi mostrar para todo mundo o que a gente era realmente, o que a gente era de verdade, interiormente. A gente não estava vestindo tipo, sei lá, vestindo uma camisa... eu falo assim, nós não estávamos tendo uma atitude vinda de fora, foi uma coisa das nossas influências, das coisas que nós havíamos tomado como influências durante a vida. A gente começou a colocar aquilo em prática, sabe? Tipo, aprender aquilo com outras pessoas e fazer do jeito da gente, falando da nossa maneira e levando nossa idéia para frente. Foi bem legal, cara. Estar numa posição como a que a Nação Zumbi está hoje, dentro do Brasil, eu acho que é bem legal... Muita gente fala "ah, vocês deveriam estar mega- estourados!". Eu acho que não! É mais cômodo estar nessa posição e ter total controle das coisas. Ter a possibilidade de nos situarmos e dar continuidade do jeito que queremos. Ter o respaldo da Trama... A Trama chegou para a gente e falou assim: "oh, velho, para a carreira de vocês a gente é só uma ferramenta, vocês é que vão dizer o que querem fazer". Então, é um resultado altamente positivo, depois desses 10 anos. Eles sabiam que quando estavam contratando a banda, eles não estavam contratando uma banda que vendia discos; eles estavam contratando todo um comportamento, toda uma atitude, que foi exatamente resultado desses anos, dessa maneira com a qual a gente trabalha. Nós sabemos até que é lento, mas temos mais controle. Nós somos operários do som, gosto de pensar dessa forma. A gente estava na hora certa, no lugar certo, fazendo o som que a gente sempre quis fazer. Nós tínhamos uma influência de cultura local forte e natural associada à outra que adquirimos ao longo da vida, quando fomos ficando adolescentes. Depois, começamos a comparar discos. Chico e Jorge começaram a ir muito em sebos fazer rolos de livro com discos. Então, eles tinham um tipo de gênero e eu, um outro tipo. A partir daí, a gente começou a juntar. Foi aí que a gente viu que valia a pena. Em vez de ficar em um clima de "isso é meu", "aquilo é teu", não, a gente optou por "isso aqui é de todo mundo", todo mundo tem acesso. Aí foi quando foram pintando as idéias... O que a gente quer deixar aqui é algo que já está caminhando. Essa parada que a gente fez não foi pelo Recife, foi por nós mesmos. A gente fez com que o lugar em que a gente mora se tornasse um lugar aprazível, mais interessante; a gente queria um lugar que não ficasse preso a um marasmo, a uma monocultura, preso a um sinônimo de "estacionado no tempo", porque o Nordeste tem muito esse rótulo. A gente quer se desprender disso, pois aqui há capacitação para todo tipo de áreas, como em qualquer outro lugar. Eu acho que tem é pouco recurso, mas gente com vontade de fazer as coisas aqui, cara, não falta. E, modéstia à parte, a gente teve a sorte de ter uma cultura própria. Em nem todos os lugares do Brasil se conseguiu difundir uma cultura enraizada e centenária como a que há em Pernambuco. A cultura do maracatu, do coco, da ciranda, do baião, do frevo. Tudo isso surgiu aqui, e surgiu das mãos de analfabetos, de gente que não tinha contato com a literatura. Essas pessoas foram criando a partir daquilo que conviviam dentro de seu cotidiano, com aquela linguagem própria, com aquele dialeto. CM - Aquele pessoal com chapéus, óculos, batucando forte. O som de vocês envolvia um impacto visual inovador e forte. Era uma combinação complementar, entre música e estética. Eu gosto de comparar até mesmo com o que rolou na Tropicália. No caso de vocês, foi um traço menos comentado, alardeado. Havia mesmo, ou há, este elemento? De que maneira ele vem sendo trabalhado hoje em dia? LM - Essa era uma condição que a gente tinha também. Tipo, quando a gente queria explicar quem eram os mangueboys, a gente dizia que eram pessoas ligadas em arte, em estética, em música, em... sei lá, física quântica, o que você achasse legal, que traria diferença na vida, era importante pra caralho. E, sem dúvida, essa parte visual, velho, essa identidade visual que a gente criou, cara, com a história do caranguejo, tudo foi muito pensado, sem dúvida. A roupa também... até hoje a gente tem essa preocupação, cara, da estética no palco. Algo que envolve a combinação de cores, e a gente está trabalhando de uma maneira muito mais inteligente as cores. O show do DVD, que a gente fez no DirecTV, foi todo em cinza, preto e branco. Ficou demais, cara... demais, demais, demais. Eu nunca tinha pensado que a gente poderia ter uma resposta tão positiva trabalhando de uma maneira tão simples. Às vezes você fica querendo rebuscar muito e aquilo, de repente, não é a saída. As coisas mais simples são mais baratas e trazem mais retorno positivo. Então, a gente resolveu explorar bem isso... chapéu de palha, as coisas simples do dia-a-dia, cara. Acho que aquilo junto com o que a gente estava levando, que era música, ia criar uma composição, ia virar um todo. E, na época, também foi bem explorado. Assim, foi explorado de uma forma não exagerada, mas fez parte também. Eu lembro até que a gente chegou a fazer matéria na TV, falando só sobre moda... não falava nem da música (risos). Falava da roupa que a gente estava usando. CM - Fora o DVD, vai sair disco de estúdio novo em 2004? LM - O disco de 2002 está praticamente aparecendo agora. A gente lançou em outubro (2002)... nesse período de outubro e novembro a gente fez alguma coisa, mas aí ficou dezembro, janeiro, fevereiro, março e abril, quase 5 meses, com tempo perdido, pois faltou o disco estar nas lojas. Faltou isso, a gente não pôde fazer os lançamentos direito, quando fizemos não tinha o disco ainda... então, levou todo esse período, véio, até a gente poder voltar a fazer turnê. Agora é que o disco começou a aparecer, aí veio a idéia do DVD. Que vai impulsionar também, vai puxar o que é ainda do campo de trabalho desse disco ainda. Infelizmente eu não sei se vai dar para lançar disco novo em 2004, porque eu acho que não vale a pena. A gente está prevendo lançar o DVD em junho, cara. Para a gente lançar CD depois, seria em agosto... não sei se vai dar tempo, porque depois de agosto todo mundo está falando que fica inviável lançar. Mas, eu acho que o caminho que a Nação leva é muito simples para todo mundo, sabe? Ainda bem, graças a Deus, ninguém é fixado só na Nação Zumbi. Todo mundo tem outros trabalhos por fora. Esse fato ajuda para que nós possamos ter tempo para trabalhar outras coisas. Para a gente também é muito prazeroso... A gente acabou de fazer o Amarelo Manga, eu e Jorge (du Peixe, vocal). Os meninos, Dengue (baixo) e Pupillo (bateria), estão fazendo um outro projeto, com Rica Amabis. Gilmar também está fazendo produção de uma dupla de rap de São Paulo. Então, eu acho que é legal poder trabalhar em um esquema mais lento com uma banda maior, o que gera espaço para as outras coisas... O Para Mateus Dançar, um projeto de Toca (Ogan, percussão), também tá bem bombado, os caras estão fazendo shows pra caramba. Eu acho que nesse ritmo está bom. Muita gente acha que não "ah, porra, vocês deveriam lançar discos". Ah, eu também acho. Mas ficaria uma carga muito grande em cima da banda, e funciona melhor assim. Estamos há 10 anos desse jeito e não se deve mexer em time ganhando. CM - Mas vocês têm cartas na manga, músicas já prontas... LM - VÉIO, MÚSICA A GENTE TEM (nota: Lúcio fala com entonação bastante forte)... quando acaba um disco a gente já tá pensando nas outras músicas. Já tem o nome, já começam a pintar as idéias, como vai ser. Material tem de sobra, a gente sempre teve! CM - Como vocês vêm criando as músicas mais recentes? A rotina criativa vem envolvendo que tipo de influências? LM - Porra, a gente vai fazer um show assim, assim, assado...e, daí, a gente cria uma idéia. Na passagem de som, a gente grava esse groove (guitarra + ritmo de percussões e baixo). Os componentes dessas músicas são formados por tudo o que a gente vem ouvindo atualmente, velho. Tem uma diversidade enorme, cara, é uma biblioteca musical gigante essa banda. E todo mundo tem uma parcela na função de trazer som para dentro. Diversifica muito, velho, vai desde Coco, Ciranda, Maracatu, Guitarrada, passando por Dub, rock underground... CM - Cite alguns artistas que vêm falando alto para vocês... LM - Ah, cara... tem Maluco do Rojão, que é um cara aqui da área que faz umas coisas bem legais. Tem todo o pessoal de ciranda, Dona Cila (nota: Dona Cila aparece em Caldo de Cana, música do último disco da Nação Zumbi). Tem Zé Neguinho do Coco, que é um cara daqui que nunca lançou um disco e é um fenômeno. O cara é muito bom... as letras dele são demais, são bem poéticas. De fora, tem muita coisa, cara. Toda a legião do Dub, os mestres, como King Tubby; dos Estados Unidos, Africa Bambaata, hip hop underground... muita coisa, bicho. Eu, particularmente, gosto de muita coisa africana. Aqui, em Recife, e eu vou aproveitar para dar um toque, tem uma banda que se chama Mombojó. Eu acho que os caras... véio, classe, o sonzinho. Os caras encontraram o caminho deles, é tudo um bando de moleques, 18 e 19 anos, e se encontraram. Dá para falar que está nascendo mais um... pé... de igarapé (risos) por aqui. CM - Vocês vêm ensaiando? LM - O ensaio vem geralmente colado ao lançamento do disco. Prepara-se o show, logo a gente cai na estrada e raramente ocorrem ensaios. A gente tá em um clima de estrada, quer dizer, a gente, agora, está no clima de férias. Houve uma parada desde o show do DirecTV (dezembro), sendo que a gente depois fez um show no dia seguinte, e, em dezembro e janeiro, agora, é para a gente dar uma descansada. Visitar a família, ficar com os filhos, ver os bichos crescerem, porque senão, velho... perde isso aí, e eu acho que é importante pra caramba a gente ter esse contato familiar. CM - Esse disco, o Nação Zumbi, pela Trama, é uma obra de impacto. Aparenta ser mais simples conceitualmente, embalado de uma forma a reunir de maneira mais enxuta todos os ingredientes sonoros que marcaram os outros discos. É um disco, para mim, de ação precisa. Eu queria que você fizesse uma revisão desse trabalho e falasse mais do próximo. LM - A gente teve um resultado bem legal com esse, cara. Com o outro, anterior, ficou uma coisa meio duvidosa. A gente não pode saber que potencial o disco teve, porque não teve um trabalho como esse teve. A gente lançou independente (Rádio S.AMB.A, de 2000), então a gravadora, pequena, não tinha poder de distribuição que pudesse levá-lo para todo canto. A gente não conseguiu ver o que poderia ter de retorno com o Rádio S.AMB.A, que foi um disco totalmente desprendido de tudo, velho. Quando todo mundo ficou falando para a gente fazer uma coisa, a gente fez outra, completamente diferente. Nesse último disco, de 2002, a gente já se desapegou um pouco daquela idéia, o negócio de se fazer uma parada mais vernizada, um disco que teria mais guitarras elaboradas, que teria uma elaboração mais forte de vocais. O próximo, não sei. Talvez seja uma coisa entre um e outro! Agora é que a gente está sentindo uma verdadeira liberdade. A gente não tem mais necessidade de fazer música com refrão. Se rolar, massa, vai ser; se não rolar, também, com certeza, vai ter a mesma vibe. Não há necessidade estética ter de fazer isso. Esse, de 2002, foi um disco que a gente tentou conduzir, falamos "pô, vamos fazer um disco sem músicas muito grandes, mais curto" - para que tivesse um consumo rápido também. Tipo, acabou de escutar, o cara bota no começo de novo, para absorver melhor, já que o disco é meio rápido, quarenta e poucos minutos. Rádio S.AMB.A foi outra coisa, né cara? A gente passou quatro meses gravando o disco! Depois, passamos não sei quanto tempo mais mixando... e levamos dois anos para compor tudo. Esse último disco, o Nação Zumbi, a gente gravou em dois meses. Em três meses, a gente entregou na gravadora, composto, gravado e mixado. Eu lembro que a gente entrou no casarão, para fazer, sei lá, a partir do dia 5 de janeiro. 5 de janeiro a gente começaria a compor o disco, "vamos nos encontrar no casarão e a gente não tem data para acabar". E 15 dias depois a gente estava com o disco inteiro completo. CM - E O DVD? Será o grande passo de vocês em 2004? Fale um pouco sobre aquele show, acontecido em dezembro, que será base para o DVD. LM - O show é uma parte do DVD. O DVD é da história da banda, não é um DVD do show. Vai ter partes da turnê, vai ter coisas daqui, de Recife... a gente vai dar um apanhado geral. Quem nunca ouviu falar de Maracatu na vida, entenderá pelo DVD. Vai ter bastante coisa interativa, isso foi o mais legal. Muito provavelmente, tecnologias que ainda não foram ainda usadas no Brasil, com relação aos DVDs, serão utilizadas. Serão várias as novidades. É o DVD da banda, o trabalho que a gente passou a vida inteirinha querendo fazer, tipo Matrix, que, quando os caras fizeram o primeiro filme, usaram todos os recursos possíveis à disposição e toda a imaginação, de uma vida inteira (risos). O show foi demais, apesar do fato da gente ter estado meio nervoso. É lógico, ninguém ia ficar tão à vontade com 25 câmeras na frente! Sabendo que tá sendo tudo gravado, é meio estressante! Vou te falar que, sei lá, depois de 11 anos de banda, depois de termos feito um monte de coisas, dá um gelo na barriga naquela hora, cara. Mas o palco é a casa da gente. Depois que a gente dá o primeiro pulo, fica tudo tranqüilo, eu acho que normaliza. Quanto ao DVD ainda, pós-produção é que é o bagulho. Para gravar é muito rápido. Em 15 dias a gente resolveu tudo com relação a cenários, etc, etc. Agora, a pós-produção, para tirar e trabalhar todas as imagens daquelas 25 câmeras, passar tudo para dentro dos computadores, começar a editar tudo, aí tem que botar os efeitos, ver o que entra, o que não entra... CM - O Recife é um ambiente interessante, paisagística e conceitualmente. Como é o exercício de olhar para a cidade e se alimentar dela? O que é musicar a cidade? LM - É difícil de explicar, talvez porque a gente tenha nascido aqui. A gente conviveu com a cidade. Por exemplo, em São Paulo, você tem acesso às coisas, mas você precisa buscá- las. Se você quiser conhecer um bloco afro, você tem de ir ao local. Aqui, no Recife, não. Eu convivi com isso no meio da rua. Quando eu estava jogando bola, passava o Caboclo de Lança (bloco) indo para a Sambada. Você convive naturalmente, sem ter que ir procurar. Este é o ponto fundamental. A gente teve também uma infância bem bucólica. Todo mundo na banda conviveu em mangue, brincou. Eu brinquei em rio pra caralho, cara, sempre fui moleque de praia. Eu sempre tive esse contato, que é uma coisa muito positiva. No final das contas, quando a gente começou a usar como metáforas essas idéias dessa fertilidade que a gente tinha, esse conhecimento, essa vivência, que aparentemente podia não servir para nada, foi fundamental na nossa vida. O fato da gente fazer ratoeira de lata e pegar caranguejo, por exemplo. Tudo isso virou clima de fazer música e trouxe resultados para a vida da gente. Aí, quando as pessoas perguntam "como vocês fazem as músicas", eu digo "a gente fecha o olho, véio". Não tem o que fazer, é uma coisa natural. Rola porque a gente se une. CM - Vocês recentemente participaram da trilha do Amarelo Manga... LM - Cinema é uma paixão, como música, arte, literatura, design, ficção científica... a gente gosta muito. Cinema faz parte também do nosso campo de trabalho. O Amarelo Manga é um projeto antigo, tem 5 anos. Desde a primeira conversa com Cláudio Assis, quando ele disse "ó, cara, vou fazer um longa, ganhei uma grana, e aí vocês vão fazer a trilha..." - isso já faz 5 anos. Então, de lá para cá, só veio a amadurecer. O filme é bom, cara, a trilha foi feita com muito cuidado, com muita preocupação de não criar clichês, em relação ao que já havia sido feito aqui dentro. Eu não gosto nada desse modo que a galera emprega, esse negócio de "árido movie". É meio mal intencionado esse rótulo, talvez até para ficar criando um cocheira para "esse pessoal". "Vamos criar uma região para eles ficarem, e todo mundo que é daquele lugar tem a ver com o rótulo ali". Eu vejo muito desse jeito, sabe? Acho uma forma bem preconceituosa, eu não concordo, acho que não tem nada a ver. Por exemplo, um filme feito na Jamaica, o cara vai falar de quê? Feito na Índia... os costumes, a vida na Jamaica, na Índia, vão falar de palácio? Não, eles falam do cotidiano deles. Acabam rotulando e fica para sempre. Por exemplo, o negócio da black exploitation. Talvez as pessoas que faziam nem gostem do rótulo, nem aceitem, mas acabaram tendo que admitir ao longo dos anos. Muito provavelmente o rótulo "árido movie" vai estar nas próximas enciclopédias indicando que esta é a tendência da criação cinematográfica brasileira vinda do Nordeste. A gente, por conta do Amarelo, recebeu uma matéria bem classe no New York Times. Houve várias premiações para o filme. Teve premiação em Cuba, premiação em Brasília, premiação em ... sei lá, velho! Eu estava até comentando que, durante a minha infância, na época em que eu estudei em colégio, eu sempre fiz muito esporte, futebol e tal, mas nunca ganhei uma medalha, cara! Comecei a ganhar medalha e troféu agora! (risos). CM - E o pessoal de fora? Por que os caras, lá fora, se encantam com o som de vocês? Seria uma relação de "opressão"? Vocês assustam lá? LM - Eles enxergam da forma como eu gostaria que eles enxergassem. Quando a gente sai lá para fora, cara, a gente vai falando "esta é uma banda de música brasileira, pô". Porque tá se vendendo música brasileira lá fora de uma maneira muito equivocada, bicho. Tipo, os caras juntam 4 ou 5 ingleses, fazem um batuque todo eletrônico, aí chamam uma menina brasileira para cantar e os caras ficam dizendo "não, a gente faz brazilian muuuusic" (neste momento, o tom de Lúcio é razoavelmente jocoso e engraçado)... não é, cara. Brazilian music... o discurso que vocês estão fazendo, fazia-se 30 anos atrás. O que a gente está fazendo agora é a verdadeira música brasileira. Em cima desse discurso, a galera está começando a enxergar. Todos os gringos chegam para a gente e falam a mesma coisa. Quando vão para o show, chegam lá, há o palco com tambores e tal, a impressão que eles têm é "música baiana". Por causa desse estigma que ficou de que tambor é igual a axé music e etc. A gente trouxe outra linguagem para o negócio e os caras piram! Os caras não acreditam, velho: "ducaralho, velho, eu não acredito que vocês tinham essa forma de tocar também". Isso a música brasileira faz completamente, cara, completamente. Eles nunca ouviram algo como aquilo, é a primeira vez. É por causa desse estigma, que música brasileira é algo voltado para dois, três tipos de coisas: bossa nova, axé music e pagode. Porque pagode também foi divulgado pra caralho, ainda bem que acabou, né, velho, não tem mais espaço financeiro aqui, dentro do Brasil, e ninguém tá consumindo mais essa bosta. E isso foi legal lá para fora também. O que eu acho importante, velho, é dar essa chance dos caras saberem que também tem um outro lado. Caso contrário, fica aquela imagem estigmatizada "Brasil - Rio de Janeiro - mulata com bunda grande - sambão". O cara quer consumir um todo, a partir daí. Um consumo turístico, mas também de prostituição, em todos os sentidos, musical... (risos). Eu acho que o Brasil pode ser vendido de uma forma bem mais cool, bem mais legal. Entrevista concedida a Claudio Szynkier, da Agência Carta Maior, em janeiro de 2003 (© Agência Carta Maior)
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