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Canto poético dissonante em concerto

05-06-2008

Capa do disco Caípe, do cantor sergipano Jorge Dissonância

   Chegar até a música de Jorge Dissonância não é fácil mas, uma vez lá, a fidelidade estará garantida. O sobrenome artístico revela o tipo desse sergipano, que está há três discos, desde 2002, na cena musical popular experimental brasileira. A dissonância foi revelada por um tipo que lhe ensinava violão, ainda na juventude. Jorge intuitivamente buscava por uma sonoridade que lhe parecesse familiar, agradável. Chegou, sem saber, à dissonância, que depois veio a saber por professores de música que era algo bem complicado, sugeria acordes abertos, mas que não vem ao caso de encucar o leitor nessa reportagem. Aqui só para dizer que Dissonância está mais uma vez no Recife, para um show hoje e amanhã no bar La Prensa, em Casa Forte.

  Se a sua música já não é algo para todos os ouvidos, embalando a poesia do mineiro Wilmar Silva fica ainda mais música para poucos apreciadores. O convite para esse disco em particular veio do próprio Wilmar, que estava completando 17 anos de poesia e queria marcar a data com um lançamento inusitado. Sendo assim, Jorge leu todos os seus 10 livros, várias vezes, selecionou 50 poemas, e terminou por musicar 22, dos quais 13 entraram no disco. "Busquei um sentimento, daquilo que achava musicável", diz Jorge, mais uma vez coerente com sua forma de ser, aquilo de primeiro sentir e depois fazer.

  "As composições surgem de forma natural, para mim a dissonância sugere a liberdade da música", diz o compositor. Ouvir a música de Jorge é como sentir ainda o desprendimento entre a palavra e a música. O canto e a melodia caminham paralelamente, mas de mãos dadas. Sim, tudo obedecendo a uma afinação, o que resulta numa canção conceitual e, dependendo do ouvido, prazerosa. É possível sentir influências da música africana, do jazz, e da música popular brasileira. No show ele mescla o repertório do CD recém lançado, dos seus dois primeiros trabalhos e ainda de um quarto trabalho, que talvez saia esse ano: Da'Afiada. Dissonância compôs em alta velocidade, diz que vive disso, ainda é preciso, para aprendere ter o sustento. (M. A.).

Serviço

Show com Jorge Dissonância
Onde: Na Prensa (Avenida 17 de Agosto, 1927, Casa Forte)
Quando: hoje e sábado, às 22h
Couvert artístico: R$ 3,00

(© Pernambuco.com)


Dissonância no La Prensa

 
» Tez
» Anu 30
» Nomes
» Caípe
» Billie e Jazz


Cantor, violonista e compositor sergipano volta ao Recife para lançar seu terceiro álbum, V

MARCOS TOLEDO

   Imagine o que aconteceria se Caetano Veloso ou João Bosco resolvesse musicar a obra de Haroldo de Campos. Pois, guardadas as devidas proporções, é nessa linha que se apresenta o álbum V, terceiro do cantor, violonista e compositor sergipano Jorge Dissonância, no qual ele dá melodias e interpreta a obra do poeta Wilmar Silva.

   Cumprindo o trajeto obrigatório que faz todos os anos, Jorge lança o CD hoje (quinta) e sábado no Recife, no bar La Prensa, sempre às 22h. O show, contudo, não se concentra apenas em V. O músico aproveita e faz uma espécie de retrospectiva/expectativa de sua carreira, interpretando temas dos discos anteriores e do próximo, que sai ainda neste ano.

   Natural de Maruim (SE), Jorge Dissonância, 40 anos, iniciou a carreira como boa parte dos artistas populares brasileiros: cantando e tocando na noite. "Mas sempre busquei uma personalidade própria para o meu trabalho, mesmo como violonista", ressalva. "Acho que encontrei. Se não, estou bem próximo."

   Influenciado por ídolos da MPB como Djavan – segundo o intérprete, devido à divisão musical do alagoano, herança de Jackson do Pandeiro e também influência de Lenine – e de João Bosco – "pela forma da dinâmica da mão direita, do suingue" –, há seis anos Jorge fixou residência em Belo Horizonte.

   Na Capital das Minas Gerais, o artista chama a atenção pela forma como sua música flerta com o jazz, oferecendo um pouco mais de requinte à tão explorada MPB. "Nunca fui muito obediente ao público da noite", explica. "Atendia a pedidos, mas fazia o que gostava. Alguns (pedidos) nunca toquei."

   Seguindo o caminho dos artistas autorais, Jorge chegou aos primeiros álbuns de temas próprios em 2000: Bem H2O (voz & violão) e Caípe saíram quase que simultaneamente. Aconteceu que, quando o compositor conseguiu viabilizar o lançamento do primeiro, o segundo já estava quase pronto.

   Fato semelhante ocorre agora, com este V. Jorge Dissonância já estava com seu terceiro disco solo, D’Afiada, bem encaminhado quando recebeu a proposta do poeta Wilmar Silva para pôr melodia em alguns poemas de seus dez livros. Com uma peculiaridade: sem mexer em uma vírgula sequer do texto original.

   Mesmo alertado por amigos de Wilmar se tratava de um poeta hermético, o violonista comprou o desafio. O resultado é um CD leve, bom de ouvir e que exige apenas uma atenção maior nas leituras das letras para acompanhar o que o poeta quer dizer.

   Para gravar as 13 faixas que compõem o álbum (independente), Jorge convocou um naipe de 13 músicos – dois deles, que haviam participado de Caípe. Como num livro de receitas, o cantor distribui dois, três instrumentistas por faixa, conforme exige a característica da composição.

   "Cada música tem um sentimento, uma inquietude. Resolvemos colocar em cada música um instrumento que se conotasse mais completo à música", lembra Jorge. O cavaquinho, conforme exemplifica, caiu como uma luva para o tema  Essência, que, segundo o autor melódico, "remete a uma saudade". A última faixa, Nomes, é uma ode à obra completa de Wilmar Silva: o violonista toma os títulos dos dez livros do poeta, editados entre 1986 e 2002, e compõe a única letra não-adaptada de um poema.

   Jorge Dissonância faz aqui um show mais intimista, apenas com voz e violão, com músicas de seus três discos e outras inéditas. Ele espera firmar parcerias para, numa próxima apresentação, viabilizar a vinda da banda que o acompanha em BH.

Show com o cantor e violonista Jorge Dissonância. Hoje e sábado, às 22h, no bar La Prensa (Avenida 17 de Agosto, 1.927, Casa Forte). Couvert: R$ 3. Informações: 3275.6183

(© Jornal do Commercio-PE)

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